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Winnie Nascimento dos Santos: "Mulheres negras têm histórico de solidão"

Autor: LUCIANA BORGES E GIOVANNA BREZOLINI Data da postagem: 16:29 09/10/2020 Visualizacões: 185
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Indicada na categoria Saúde do Prêmio Viva 2020, a pesquisadora e psicóloga quer abrir mais espaço para o estudo da saúde mental da população negra, em especial das mulheres, que sofrem com jornadas exaustivas e racismo/ Imagem: Divulgação - Marie Claire

O tema da saúde mental já vinha em trajetória ascendente, mas ganhou ainda mais visibilidade com a chegada da pandemia de Covid-19 ao Brasil. Esse é o campo em que a psicóloga Winnie Nascimento dos Santos, de 33 anos, vem atuando, com um recorte de pesquisa bem focado: o de mapear o estado da mente das mulheres negras.

Formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 2011, ela é especialista em Gestão de pessoas e Negócios pela Baruch College, da Universidade da Cidade de Nova York. Com toda essa bagagem, se tornou pesquisadora e consultora de projetos no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), organização governamental surgida em 1992 com o propósito de promover a equidade de raça, gênero e diversidade nas relações de trabalho.

Por estar mergulhada nesse campo, Winnie se movimenta fazendo diversas ações - de aulas a palestras, passando por pesquisas e estudos nos quais mapeia a saúde mental da mulher negra. "Algumas casualidades iam me mostrando a mulher negra como um individuo mais fragilizado. Me aprofundei no mestrado e percebi a forma como ela vai sendo mais afetada quando a gente pensa numa estrutura cis, hétero, normativa e patriarcal de sociedade", explica ela.

Winnie comprova o que muita gente faz de conta que não vê - inclusive quando se pensa em políticas públicas no país. "A mulher negra está na base e, nesse lugar, ela suporta toda a economia. Ela precisa estar no posto dos trabalhos mais subalternizados para que as mulheres brancas saiam para trabalhar. E para que os homens brancos gerenciem as melhores empresas", reforça. "Os homens negros também ocupam espaços determinados. Eles estão em uma forma de opressão diferente das mulheres negras. É um lugar de encarceramento, de uma juventude exterminada pelo Estado", continua.

A mulher negra dá conta de tudo

Em seu trabalho no CEERT, Winnie Nascimento também desenvolve ações para encontrar justiça social nessa área da saúde mental. "Minha atuação começa mais de forma acadêmica, de pesquisar e me relacionar com essas mulheres de alguma forma. A mulher negra dá conta de tudo, porque mesmo quando ela perde o marido – para a violência do Estado ou para o cárcere, por exemplo – acaba cuidando da família", diz a pesquisadora. Recentemente, Winnie assumiu a coordenação do núcleo de São Paulo da ANPSINEP (Portal da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) de Relações Raciais e Subjetividades), outra organização dedicada ao estudo dessa parcela da população também focada no mercado de trabalho.

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"Durante a pandemia, tudo o que realizo se intensificou", conta Winnie. "Quando falamos da saúde mental da mulher negra, tanto as pacientes atendidas quanto as profissionais intensificaram a busca por um apoio", diz. Até porque, trabalhos como o de cuidadora de idosos, assistente de enfermagem e enfermeira são preenchidos por inúmeras mulheres negras. "Se olharmos os dados de forma geral, vemos que esta foi a população mais afetada. E se pensarmos na estrutura das casas para realização de trabalho online, muitas vezes ele não é possível de ser feito", afirma a pesquisadora.

O trabalho de investigar a saúde mental das mulheres negras tem impacto direto na própria vida de Winnie, que não passa ilesa ao dia a dia de escuta e de clínica: "O projeto me transformou demais, ainda está me mudando. Vou me reconhecendo como um ser melhor. Poder estar junto com mulheres negras, parecidas comigo, e que conseguem partilhar o seu sofrimento, que reconhecem que não é uma questão individual, mas uma questão social, é algo muito importante", diz.

O que Winnie acaba fazendo, com sua atuação, é ajudar a construir uma visão de mundo não-excludente para mulheres negras (em certa medida, para os homens também), capaz de demolir conceitos negativos arraigados, que influenciam diretamente na autoestima dessa parcela da população. "Durante anos fomos ensinadas que nossas características naturais eram feias e deveriam ser mudadas. Sofremos desde pequenas", afirma. "A gente tendia a ir se transformando, tentando afinar lábio… Tudo que é associado ao negro é marginalizado, tido como não belo. As mulheres negras têm um histórico de solidão, são vistas como objetivo sexual. Muitas pesquisas e historiadores afirmam isso", explica.

Os desafios são muitos, Winnie sabe. No entanto, sente que seu caminho já está aberto: "Desenvolver ações com psicólogas negras, para mim, é importantíssimo. Existem muitas coisas que discutimos e não aprendemos na faculdade. Se formos pensar de forma geral, não existe uma disciplina obrigatória voltada para as relações raciais na psicologia", reforça ela. "Não se trata simplesmente colocar para fora os sentimentos. Mas, sim, de falarmos como nosso país foi é estruturado no racismo. E de como podemos criar formas e estratégias para lidar com isso", completa.

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