Em 2020, nós mulheres lutamos para sustentar a vida

Autor: Sonia Coelho Data da postagem: 12:00 30/12/2020 Visualizacões: 140
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Precisamos enfrentar o desafio da unidade com um programa de reconstrução do país, numa perspectiva popular feminista, antirracista, antiLGBTfobia, em prol da soberania popular - Marcha Mundial de Mulheres/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Brasil de Fato

2020, um ano inominável. Uma pandemia em um país com um governante fascista e genocida. Uma classe trabalhadora saqueada de seus direitos e condições de vida. A pandemia encontrou a classe trabalhadora, sobretudo as mulheres e a população negra, já imersa em condições de precarização da vida, promovidas por um plano de austeridade dos governos Temer e Bolsonaro.

Somamos mais de 180 mil mortos pelo coronavírus, enquanto Bolsonaro e seu Ministério da Saúde militarizado desprezam a vida da população. Bolsonaro é negacionista, desdenha e faz politicagem em cima da vacina. Ignora-se a emergência sanitária e a premência de salvar vidas. É preciso que a sociedade brasileira atribua ao governo Bolsonaro a responsabilidade por tantas mortes que poderiam ter sido evitadas.

E não é só isso. A pandemia apenas iluminou o fosso da desigualdade onde se encontra a imensa maioria do nosso país. Hoje o número de pessoas desempregadas já chega a 14 milhões, sendo elas em maioria mulheres, pessoas negras e jovens. Gente que luta para sobreviver, vivendo de bico em bico. A pandemia nos mostrou que perante crises como esta, um Estado forte e impulsionador de políticas públicas é fundamental.

Enquanto a população padecia do medo e de incertezas, buscava respostas e conforto para suas inquietações, o governo Bolsonaro fazia a reunião ministerial que veio a público por denúncia de Sergio Moro. Entre outras estratégias de desmonte do Estado, o ministro do meio ambiente propôs: “vamos aproveitar que todos estão voltados para a pandemia e passar a boiada” – ou, em outras palavras, flexibilizar leis contra a classe trabalhadora, ofertar vantagens e leis para grileiros, aprovar mais venenos para o agronegócio e desmontar políticas públicas que ainda resguardavam em algum grau a preservação da natureza brasileira.

O Brasil termina 2020 contabilizando a maior destruição e irresponsabilidade de um governo com o meio ambiente, desde a destruição das florestas e do pantanal pelo fogo de criminosos, até invasão de terras indígenas. E assim como no campo, na cidade mesmo em plena pandemia os despejos do povo pobre e sem-terra não cessou, em ações perversas de assassinatos de lideranças sem-teto, e apoio criminoso à especulação imobiliária.

Também ficou nítido nesse período de isolamento social que a economia é muito mais que mercado, comércio, números. A economia que sustenta a vida é construída nas relações cotidianas. É um trabalho ocultado pelo capitalismo para que as mulheres continuem fazendo-o de forma gratuita e sem ser considerado como trabalho.

Pesquisas sobre a vida na pandemia demonstraram que as mulheres não pararam de trabalhar, pelo contrário: ficaram mais sobrecarregadas (inclusive sugerimos a leitura dos resultados da pesquisa “Sem Parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, realizada pela SOF e pela Gênero e Número). Quando tudo para, são as mulheres, principalmente as negras e pobres que não podem parar, porque a vida e a necessidade do cuidado são permanentes.

Também a violência contra as mulheres, que já crescia nesse ambiente de misoginia e racismo cultivado e reforçado pelo bolsonarismo, aumentou com o isolamento social, que deu mais centralidade ao ambiente doméstico.

Para a maioria da população brasileira, o racismo não dá trégua. Testemunhamos a violência policial, os extermínios, o colonialismo e misoginia que também resultaram nas mortes de meninas e meninos, homens e mulheres negras. Emilly e Rebeca Santos, Miguel Otávio, João Alberto Freitas, são alguns dos nomes que perdemos. No último mês, o assassinato da vereadora Marielle Franco completou mil dias sem respostas.

Se as violências não pararam, as resistências também não!

O ano de 2020 começou com muito fôlego. As mulheres abriram o calendário de lutas com o 8 de março, somando mais de cem atos por todo o Brasil em que a principal palavra de ordem era “Fora Bolsonaro”.

Com a pandemia, reprogramamos as lutas para os ambientes virtuais, ocupando redes sociais, fazendo atos virtuais, festivais, panelaços, buzinaços. Sabemos que nesses processos muitas companheiras não conseguiram acompanhar da mesma forma, porque é dado que parte das mulheres da periferia e do campo não possuem acesso à internet, ou possuem com muitas dificuldades, marcando mais um aspecto da desigualdade. Por isso, buscamos alternativas para estar juntas, fazendo atividades de formação e mobilização mais acessíveis para as companheiras.

Foram muitas as pressões com os pedidos de impeachment do governo Bolsonaro. Hoje já se contabiliza mais de 56, com assinaturas de mais de mil entidades e movimentos. São ações contra a saúde coletiva, crimes de responsabilidade, ameaças à democracia, obstrução de justiça e tantos outros. Rodrigo Maia, um verme passivo na presidência da Câmara, engavetou cada pedido.

Em meio ao caos econômico, social e na saúde, e à fome rondando os lares, foram os movimentos populares que lutaram pelo auxílio emergencial e, ao mesmo tempo, organizaram a solidariedade. Com trabalho militante e compartilhado, fizeram chegar cestas básicas às famílias mais vulneráveis. Também houve luta política nas ruas por democracia e contra o racismo, em atos simbólicos, bandeiraços e intervenções em diversas cidades que afirmaram que vidas negras importam!

Eleições e reorganização das cartas no jogo da direita

As eleições municipais vieram como mais uma possibilidade de discutir amplamente os rumos do país, o direito à cidade e os projetos de sociedade em disputa.

Bolsonaro foi parcialmente derrotado, pois seus candidatos nas principais cidades perderam. No entanto, sua base de apoio de direita cresceu. A propaganda da mídia é de que a esquerda saiu derrotada e que venceu o centro e a moderação. Mas o que chamam de centro é a velha direita de sempre: MDB, PP, PSDB e outros que elegeram Bolsonaro e coincidem no programa neoliberal.

Esse não foi um ano de eleições apenas no Brasil. A derrota de Trump nos EUA foi amarga para Bolsonaro, e é parte do caminho de enfraquecer a extrema-direta nas Américas.

Também não se pode negar o aumento das candidaturas de mulheres e negras, e eleição de várias destas mulheres negras; um aumento de 275% das candidaturas trans, com destaque para Erika Hilton, mulher trans e negra, a vereadora mais votada para a câmara de SP, e Duda Salabert, a mais votada em Belo Horizonte. Essas e outras candidaturas foram vitoriosas mesmo sofrendo com a violência, o machismo, o racismo e a desinformação dos discursos de ódio da direita. Por isso, seguimos na luta, por mais poder popular e por projetos feministas e antirracistas para as cidades.

Fôlego para 2021!

Um grande desafio para 2021 será incidir nesta luta sanitária para que toda a população tenha o direito à vacina como forma de preservar a vida, assim como a luta contra a privatização e o desmonte do SUS que está em curso.

Nosso aprendizado nesta pandemia foi de que as redes sociais são muito importantes, mas são um território dominado pela direita e pela lógica de mercado. Para a esquerda, é urgente pensar práticas que subvertam esses mecanismos de vigilância, fazendo luta política nas redes, ruas e roçados.

Precisamos fortalecer a organização feminista e de esquerda nas ruas para ampliar ao máximo a organização da classe trabalhadora.

Somente com uma ampla mobilização popular, a campanha por Fora Bolsonaro poderá paralisar a agenda neoliberal. Sabemos que a disputa eleitoral institucional não é suficiente para derrotar o bolsonarismo.

Para isso, precisamos enfrentar o desafio da unidade com um programa de reconstrução do país, numa perspectiva popular feminista, antirracista, antiLGBTfobia, que atue para construir a soberania popular, tendo a igualdade, a soberania alimentar e a agroecologia como princípios.

E, para tomarmos fôlego para 2021, é impossível deixar de saudar com alegria a retomada popular da democracia na Bolívia, a eleição vitoriosa na Venezuela, a população chilena que conquistou nas ruas um processo constituinte com paridade de gênero, e, por fim, a todas as mulheres argentinas que mais uma vez tentam aprovar a Lei de Legalização do Aborto no Senado. Nosso feminismo é internacionalista, e por isso nos sentimos parte de todas essas vitórias pela vida e autonomia das mulheres, pela soberania dos povos!

A luta feminista segue em marcha!

 

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