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Dia da Mulher Negra: uma resistência ao apagamento histórico

Autor: Ireuda Silva Data da postagem: 14:00 06/07/2021 Visualizacões: 320
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Ireuda Silva/Reprodução: Nexo

Sempre estudamos sobre os homens que conduziram grandes mudanças na história do Brasil, quando muitas coisas não teriam acontecido sem a contribuição de várias mulheres esquecidas ao longo do tempo

Nem todos sabem, mas o 25 de julho é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e também o Dia Nacional da Mulher Negra. Data de grande relevância nacional e internacional, por reconhecer a importância da mulher negra na construção do nosso e dos outros países latino-americanos. Em relação ao Brasil, podemos citar nomes como Maria Felipa, Tereza de Benguela e Maria Firmina dos Reis, mulheres negras que viveram em épocas diferentes, mas que permanecem unidas na luta pela construção de um país mais justo, embora sem terem recebido o devido reconhecimento pela história racista e machista.

Fazemos, agora, um esforço para resgatar esses nomes e colocá-los no merecido lugar de destaque na formação da nossa sociedade. Precisamos saber que Tereza de Benguela foi uma líder quilombola que viveu no atual estado de Mato Grosso, no século XVIII. Com a morte do marido, ela se tornou a rainha do quilombo, que resistiu à escravidão por duas décadas.

Maria Firmina dos Reis foi talvez a principal escritora negra brasileira do século XIX, e por muitos anos esteve relegada ao apagamento histórico. Publicou, em 1859, o romance “Úrsula” o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. Foi uma voz ativa na causa abolicionista e chegou a fundar um curso para alunos que não podiam pagar.

Por sua vez, Maria Felipa de Oliveira foi uma marisqueira e pescadora que viveu na Ilha de Itaparica. Assim como Joana Angélica e Maria Quitéria, ela lutou pela Independência da Bahia. Em 1823, liderou um grupo composto por mais de 200 pessoas, entre as quais estavam índios tupinambás e tapuias, além de outras mulheres negras, nas batalhas contra as tropas portuguesas que atacavam a Ilha. Conta-se que o grupo foi responsável pela queima de pelo menos 40 embarcações portuguesas.

Em sua memória, entregamos todos os anos, em Salvador, o Prêmio Maria Felipa, uma das mais importantes honrarias concedidas a mulheres negras que se destacam na luta por direitos e contra o racismo. Neste ano, a transmissão está marcada para o dia 25 de julho. Serão premiadas mais de 20 mulheres negras, entre as quais estão: a advogada Dandara Pinho; a inspetora da Guarda Civil Municipal Jussimara Viana; a vereadora Cris Correia; a dermatologista Hadassa Barros; a administradora e ativista Itaijara Souza; a comandante da Ronda Maria da Penha da PM, Major Tereza; a pesquisadora Bárbara Carine Soares Pinheiro; e as jornalistas Hamali Pestana (editora da Revista Raça), Tairine Ceuta, Lorena Alves, Luana Souza, Georgina Maynart e Yasmin Santos.

Em sua última edição presencial, em 2019, o prêmio foi realizado no Centro de Cultura da Câmara de Salvador e teve recorde de público. Já de forma remota, a edição 2020 homenageou nomes como Ana Amélia (médica oncologista), Ashley Malia (jornalista), Carolina Santana (guarda municipal) e Juliana Galvão (psicóloga).

Sempre fazemos o possível para promover um evento digno da importância do tema e dessas verdadeiras guerreiras. Mas, como no ano passado, a pandemia nos obrigou a realizar a cerimônia de forma online. Embora as condições não sejam as ideais, não podíamos nos render ao silêncio, principalmente quando vemos crescer uma situação cada vez mais desfavorável às mulheres negras, como o desemprego e o aumento da violência em meio à pandemia.

Do total de premiadas, seis são jornalistas, o que mostra a importância da comunicação na conjuntura atual. Nesse contexto difícil, de pandemia, crise econômica e desinformação, é muito satisfatório ver tantas mulheres negras se destacando na missão de informar a sociedade e produzir conhecimento. Assim sendo, esse prêmio é o mínimo que podemos fazer para mostrar que nós, mulheres negras, somos peças fundamentais na construção do nosso país.

Se considerarmos que o contexto socioeconômico é desfavorável para as mulheres no geral, essa desigualdade se aprofunda quando olhamos o recorte racial. Segundo dados do Instituto Ethos, divulgados em 2016, apenas 0,4% dos cargos de liderança nas 500 maiores empresas do Brasil são ocupados por mulheres negras. Como se não bastasse, a vulnerabilidade das mulheres negras ao desemprego é 50% maior. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a cada 1% a mais na taxa de desemprego as mulheres negras sofrem, em média, aumento de 1,5%.

As mulheres negras também são as principais vítimas de feminicídio. De acordo com o Monitor da Violência, o índice de feminicídios cresceu 2% em 2020 em relação ao ano anterior, muito em função da pandemia, que aproximou ainda mais as vítimas de seus agressores. Do total, 73% das vítimas eram mulheres negras.

Na escola, sempre estudamos sobre os homens que conduziram grandes mudanças na história do Brasil, quando, na verdade, muitas coisas não teriam acontecido sem a contribuição de várias mulheres esquecidas ao longo do tempo. Portanto, precisamos resgatar seus nomes injustamente esquecidos e prestar-lhes a devida homenagem.

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