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Julho das Pretas: mulheres do CEERT falam sobre as atividades do Julho das Pretas a partir dos programas em que atuam na organização

Autor: Bruna Ribeiro Data da postagem: 10:26 06/08/2021 Visualizacões: 377
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Mulheres do CEERT falam sobre as atividades do Julho das Pretas a partir dos programas em que atuam na organização/Imagem: CEERT

De 7 a 28 de julho, o CEERT apresentou uma programação especial de encontros virtuais em celebração ao Julho das Pretas. Foram debatidos temas como trabalho, universidade, subjetividade da mulher negra, política e a vida daquelas que já cumpriram pena.

Julho das Pretas é uma ação que visa o fortalecimento da agenda do feminismo negro em diversas áreas da sociedade, tendo como gancho o dia 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina Americana e Caribenha.

Além de realizarmos ações específicas no mês de julho, a mobilização de mulheres negras faz parte da nossa identidade. Segundo Cida Bento, diretora-executiva do CEERT, o Julho das Pretas significa muito para esta mobilização de mulheres negras de todo o Brasil em diferentes campos, nas áreas da educação, trabalho, artes e política.

Cida Bento

 

“Essa viva mobilização ajuda o coletivo de mulheres negras brasileiras a delimitar cada vez mais o seu lugar, sua voz e definir o seu caminho. Que é o caminho que o Brasil deve tomar. Quando as mulheres pretas se reúnem, elas pensam o país e a sociedade brasileira. O Julho das Pretas tem esse significado de mobilizar o segmento mais vibrante e mais excluído da sociedade brasileira, organizando  a força que auxilia o país a encontrar seu caminho,  seu futuro de  luta, mas também do bem viver”, diz Cida.

Em celebração ao encerramento deste mês tão especial, convidamos seis mulheres do CEERT para compartilharem suas experiências no Julho das Pretas  a partir dos programas em que atuam na organização. Confira:

Ana Carolina de Moura, advogada e coordenadora de projetos e parcerias no CEERT. Mestra em Direitos Humanos, Migração e Desenvolvimento (Universidade de Bologna)

Ana Carolina de Moura

Desde 2018,  Ana atua num programa  do CEERT que visa  apoiar a empregabilidade e as oportunidades de trabalho para pessoas que cumpriram pena no sistema penitenciário brasileiro, com especial foco em mulheres negras . Este programa envolve  um esforço conjunto dos principais agentes sociais engajados com essa temática, incluindo associações de prisioneiros, egressos e familiares, instituições de segurança pública e justiça criminal, organizações da sociedade civil, governo, empresas privadas e sindicatos.

"No primeiro semestre de 2020, segundo dados do SISDEPEN, o Brasil contava com cerca de 759.518 mil pessoas encarceradas, configurando a terceira maior população carcerária do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e China. Quando analisamos o perfil da população carcerária brasileira, compreendemos que o encarceramento em massa no Brasil tem cor. Mais de 65% dos homens presos são negros e mais de 67% das mulheres presas são negras. Entre os anos de 2000 a 2016, a população feminina nos estabelecimentos carcerários teve um aumento de 698%. O perfil majoritário de mulheres encarceradas é de jovens negras, pobres e com baixa escolaridade (Infopen 2016). Fica evidente a relevância em se discutir o encarceramento de mulheres negras e a falta de oportunidades de trabalho digno para essas pessoas em nosso país. Educação e trabalho digno são um dos direitos assegurados na nossa constituição e são fundamentais para a quebra de ciclos de violência e a diminuição da reincidência.

A falta de oportunidade de trabalho para quem cumpriu pena no sistema carcerário continua sendo um dos grandes entraves para a vida digna pós-encarceramento. Neste sentido, desde 2018 o CEERT vem trabalhando para apoiar a empregabilidade e as oportunidades de trabalho para pessoas que cumpriram pena no sistema penitenciário brasileiro, em um esforço conjunto com os principais agentes sociais engajados com essa temática, incluindo associações de prisioneiros, egressos e familiares, instituições de segurança pública e justiça criminal, organizações da sociedade civil, governo, empresas privadas e sindicatos, com um enfoque em mulheres negras egressas."

Giselle dos Anjos Santos,  pesquisadora do CEERT, historiadora e doutoranda em história social pela USP

Giselle dos Anjos Santos

"Gostaria de comentar o projeto do CEERT em parceria com o Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP), que estou participando e que está relacionado à questão de mobilidade, transporte público, violência e assédio. Nós sabemos que o fenômeno da violência e do assédio sexual é uma realidade muito triste do nosso país. Mais de 7,5 milhões de mulheres já viveram alguma situação de violência sexual ao longo da vida no Brasil, só que a gente precisa lembrar que esse fenômeno não afeta da mesma forma mulheres negras e branas. As mulheres e meninas negras são as mais afetadas pelo fenômeno da violência de gênero de modo geral e esse projeto se propõe a discutir essa temática do assédio no transporte público a partir de uma perspectiva interseccional. Isso é muito importante. O projeto está sendo desenvolvido na cidade de São Paulo e tem tudo a ver com a proposta do Julho das Pretas, que é discutir e trazer visibilidade para experiências e para as problemáticas vivenciadas pelas mulheres negras."

Luciana Alves, consultora do CEERT e Pró-reitora Adjunta de Assuntos Estudantis da Unifesp

Luciana Alves

“Tem um princípio de que nós mulheres somos a base da criação das novas gerações em muitos lares e ao mesmo tempo nós estamos na base da pirâmide social. Então qualquer movimento que a gente faça nessa base, como diz Bell Hooks, modifica a estrutura inteira de uma sociedade. Aí que está o investimento não só na construção de uma identidade positiva e poderosa para as meninas desde que elas são bastante pequenas, até a possibilidade de inserção na educação nos níveis superiores para que essas mulheres possam impactar, como já impactam, mas impactar ainda mais, em termos da conquista de direitos, o cotidiano dos seus e a possibilidade de ascensão dos seus. Vejo algumas ações que a lei já prevê. Considerando a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), com as modificações realizadas pela lei lei 10.639/03, por exemplo, já possibilitaria que as meninas negras se enxergassem a partir desse prisma de uma identidade poderosa, afirmativa e orgulhosa de si, além de possibilitar o acesso a novos conteúdos que a escola nega a essas meninas e a todas as crianças de maneira geral. Pensando o Ensino Superior, precisamos promover a ocupação de carreiras mais prestigiadas e das posições de mando, a partir justamente da formação superior, o que nem sempre acontece. Eu vejo o Julho das Pretas como um momento em que todos os nossos esforços são congregados por uma infância negra sem racismo e por uma juventude negra que possa ter o direito a viver, haja visto os índices de mortalidade de jovens pretos e pardos e das mulheres no feminicídio. Também vejo a possibilidade de ascensão que o Ensino Superior promete e que no nosso caso nem sempre essa promessa se realiza, tendo em vista as barreiras do mercado de trabalho. O Julho das Pretas é mais uma oportunidade de refletir sobre tudo isso e de formar as novas gerações para lutarem, como as gerações anteriores lutaram para a conquista da igualdade racial desde a educação."

Sara Branco, advogada responsável pelo Programa de Justiça Racial e pelas articulações internacionais do CEERT.  

 

Sara Branco

“Desde 2017, tenho participado de importantes debates internacionais principalmente na Organização das Nações Unidas - ONU no que se refere aos direitos humanos das mulheres negras. Como parte da delegação brasileira, acompanhei a Comissão sobre o Status da Mulher - CSW em que foi possível trazer visibilidade para as mulheres afrodescendentes. 

Além disso, em setembro de 2020 fui a primeira mulher brasileira a participar da Cúpula Global de Mulheres da Diáspora no contexto do aniversário de 25 anos da Declaração de Pequim e Plataforma de Ação e falei sobre a importância de incluir as mulheres negras nos espaços de decisão para que seja possível a implementação de políticas públicas que respeitem as nossas especificidades. O julho das Pretas é fundamental não só para trazer visibilidade às discriminações que as mulheres negras vivenciam, mas também para celebrar nossas conquistas históricas.”

Winnie Nascimento dos Santos, pesquisadora e consultora do CEERT. Doutoranda do programa de Psicologia Social e do Trabalho (USP)

 

Winnie Nascimento dos Santos

“Pensarmos os desafios vivenciados não apenas por mulheres, mas por mulheres negras é fundamental, pois quando falamos da mulher negra, falamos de  opressões de gênero, de raça, de classe. Considerando o momento de pandemia que estamos vivendo, fica explícito o peso dos desafios vivenciados pelas mulheres negras, que são a maioria nos serviços de cuidados, nos serviços domésticos, nos serviços informais, serviços esses extremamente fundamentais e ao mesmo tempo, amplamente desvalorizados do ponto de vista salarial e de reconhecimento. Em minha atuação no CEERT como coordenadora da área de Mercado de Trabalho, como pesquisadora e agora como ponto focal do Projeto Prosseguir: Trajetórias, da área de Juventude, e também como membro da ANPSINEP, uma das articulações políticas das quais fazemos parte, tenho a oportunidade de trabalhar com o que acredito, de construir junto com mulheres parecidas comigo, que me inspiram e que tenho como modelo, tenho a oportunidade de pensar as necessidades e os devidos cuidados que devem ser voltado a essa parcela da população, historicamente marginalizada. O Julho das Pretas é um mês de reflexões, de lutas, de trocas, de reconhecimento das conquistas de nossas mais velhas e a construção de caminhos para nós que estamos chegando. Que sigamos em luta, e que, em algum julho não tão distante, possamos não mais precisar lutar, mas apenas reconhecer nossas conquistas!”

 

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