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Rainha Nzinga: a luta pela soberania africana e a resistência das mulheres negras da diáspora

Autor: Giselle dos Anjos Santos Data da postagem: 00:08 30/01/2015 Visualizacões: 12491
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Cartaz do filme Nzinga, a rainha de Angola lançado no ano passado

A Rainha Nzinga Mbandi, também conhecida como Jinga ou Ginga, foi uma importante representante da resistência africana contra a invasão européia e a soberania do seu povo. Estima-se que ela nasceu provavelmente no ano de 1582, no Ndongo Oriental, região da África Centro-Ocidental, onde está localiza hoje a Angola. Nzinga pertencia ao grupo étnico dos Jagas, povo conhecido por ser extremamente combativo.

A resistência contra a invasão dos portugueses ao território Ndongo foi iniciada por seu pai, o Rei Mbundi Ngola, que lutou contra o avanço dos estrangeiros na captura de mulheres e homens negros para o desenvolvimento do tráfico de mão de obra escravizada. Com a morte do Rei Mbundi Ngola, em 1617, houve sérias disputas entre Nzinga e seu meio irmão Ngola Mbandi para a sucessão do reino. Esta instabilidade política favoreceu o avanço dos portugueses na invasão do território.

Seu irmão assumiu o trono, todavia Nzinga não desistiu da idéia de se tornar rainha. No ano de 1622, ela cumpriu a função de embaixatriz, traçando negociações com os portugueses. Após impressionantes demonstrações de astúcia e perspicácia de Nzinga, que não se deixou intimidar pelos europeus, foi assinado um tratado de paz.

No entanto, os portugueses não cumpriram o acordo, o que deu continuidade aos conflitos. Com a morte de seu irmão em 1623, Nzinga assumiu a posição de Rainha de Ndongo passando a liderar as batalhas contra os inimigos. De forma estratégica a Rainha Nzinga estabeleceu alianças com os holandeses em 1641 para expulsar os portugueses do território. Pois, uma vez que o comércio escravo havia se tornado a principal fonte de lucro do período e Angola era um ponto estratégico para a captura de africanos, o governo português não abriria mão do território conquistado facilmente.

Após anos de guerra, em 1657 a Rainha Nzinga assinou um novo tratado de paz com os portugueses. Ela faleceu seis anos depois, no ano de 1663. Contudo, sua figura e sua luta não foram esquecidas, Nzinga é cultuada como símbolo da resistência à invasão estrangeira pelos modernos movimentos nacionalistas de Angola.

Nada obstante, a figura de Nzinga é considerada um ícone de resistência não somente em Angola, mas sua trajetória é valorizada por todos os movimentos sociais negros da diáspora, especialmente os movimentos de mulheres. Dado que as mulheres negras da diáspora deram sequência ao seu legado de luta contra a expropriação material e cultural da população negra. Como demonstra a história das mulheres negras no Brasil, marcada pelos signos da violência e da resistência. Desde o seu translado forçado, a travessia pelo Atlântico, até a sua chegada a este território, as mulheres africanas e suas descentes, são alvos centrais da opressão de gênero e raça, que institui uma condição de vulnerabilidade para o grupo.

Contudo, apesar da vigência da invisibilidade e do silenciamento, que visa castrar as possibilidades de reação e enfrentamento à violência, as mulheres negras não deixaram de questionar e combater a opressão sofrida desde a sua chegada às terras brasileiras. E na verdade, a história de mulheres africanas como a Rainha Nzinga e entre outras africanas de espírito guerreiro, evidencia que a resistência empreendida pelas mulheres negras no Brasil possui vínculos profundos com essa luta ancestral por justiça. Portanto, a trajetória de mulheres como Aqualtune, Acotirene, Rainha Teresa do Quariterê, Rainha Nã Agontimé, Luisa Mahin, entre outras que aqui chegaram e nasceram, expõe a resistência e o espírito combativo compartilhado pelas mulheres negras de ontem e hoje. No contexto atual a luta das mulheres negras floresce e frutifica ações em diferentes áreas, desde a atuação nos movimentos sociais negros, feministas e lésbicos, a intervenção nos sindicatos, universidades, ONG’S, assim como nas frentes culturais do movimento hip-hop, saraus e na participação nos esportes.

Desta forma, assim como Nzinga, as mulheres negras da diáspora rechaçam a subalternidade imposta e se colocam como protagonistas de sua própria história.


Giselle dos Anjos Santos - Historiadora e Mestre em Estudos de Gênero. Consultora do CEERT e Autora da Publicação “Somos todas rainhas” (2012). 

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