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História nos quadrinhos: Chibata!

Autor: Data da postagem: 15:30 28/06/2016 Visualizacões: 2536
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“Chibata!” é um quadrinhos (ou graphic novel, se preferir) brasileiro que narra o trajeto de João Cândido, um pobre marinheiro carioca que se transformou no líder de uma das mais conhecidas revoltas da história brasileira.
 
Ocorrida durante as primeiras décadas do século XX, a Revolta da Chibata (1910) foi um movimento formado por “baixos oficiais” da marinha que lutavam por melhores salários, diminuição da extensa jornada de trabalho e pelo fim das punições físicas (chibatadas) que sofriam durante as longas viagens que realizavam dentro dos navios.
 
O encouraçado Minas Geraes foi incorporado à Marinha em 1910 e manteve-se como parte da frota até 1953. DUrante a segunda Guerra, esteve ancorado em Salvador, como forma de proteger a região. FONTE: Navios Brasileiros

O ENCOURAÇADO MINAS GERAES FOI INCORPORADO À MARINHA EM 1910 E MANTEVE-SE COMO PARTE DA FROTA ATÉ 1953. DURANTE A SEGUNDA GUERRA, ESTEVE ANCORADO EM SALVADOR, COMO FORMA DE PROTEGER A REGIÃO. FONTE: NAVIOS BRASILEIROS

Além de considerarem inaceitável este castigo ainda ser praticado entre homens livres que lutavam pela pátria, estes rebeldes estavam indignados com a desigualdade de tratamento que recebiam de seus superiores. Isto porque os oficiais de “alta patente” usufruíam de uma vida cheia de regalias (participavam de banquetes, dormiam em camas confortáveis e desfrutavam de longos momentos de ócio) enquanto os marinheiros eram forçados a comer alimentos estragados e realizar exaustivas jornadas de trabalho para deixar o recinto impecável para seus superiores e, caso não cumprissem as ordens, poderiam ser colocados em prisão solitária por três a seis dias, onde sobreviviam apenas com água e nacos de pão.
 
O estopim da revolta ocorreu no dia 21 de novembro, quando o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes sofreu a violenta punição de 250 (!!!) chibatadas diante de todos seus companheiros, sob a acusação de ter embarcado com uma garrafa de cachaça em um dos novíssimos navios da Marinha Brasileira. Completamente revoltados com o fato, os marujos se reuniram durante a noite e tomaram de assalto quatro embarcações: o cruzador-ligeiro Bahia e os  encouraçados Minas Gerais e São Paulo (recém comprados da marinha inglesa) e o antigo encouraçado Deodoro.
 
Cena tirada do HQ que tenho aqui em casa.

CENA TIRADA DO HQ QUE TENHO AQUI EM CASA.

Com o controle destas armas de guerra, os revoltosos escreveram uma carta que exigia melhorias nas condições de vida e trabalho de todos e mudanças nas leis disciplinares da marinha, dentre as quais aextinção das chibatadas. Caso as exigências não fossem atendidas, os rebeldes prometiam dar início a um bombardeio sobre o Rio de Janeiro – então capital do país. Cinco dias após o início da revolta, o governo pôs fim nas chibatadas e publicou nos jornais que garantiria a anistia, MAS, estabeleceu um decreto quepossibilitava aos “altos oficiais” expulsarem da Marinha qualquer um que considerassem “inconvenientes”.
 
O malho - Revolta da Chibata

CHARGE VEICULADA NO PERIÓDICO O MALHO, DE 3 DE DEZEMBRO DE 1910. SEGUNDO CLAUDIO BARBOSA, “ZÉ DO POVO SE UTILIZAVA DO DISCURSO PATRIÓTICO E NACIONALISTA PARA EXPRIMIR O SEU DESAPONTAMENTO COM A FRAQUEZA DO GOVERNO ANTE AS EXIGÊNCIAS DOS MARINHEIROS.” (P.50) FONTE

Portanto, após apaziguada a situação e a deposição das armas dos revoltosos, a cúpula de governo revelou sua verdadeira face e deu início a perseguição destes homens, que foram encarcerados na famigerada Ilha das Cobras. João Cândido, por sua vez, foi submetido à torturas e, já com o psicológico completamente abalado, passou a ser transferido para diversas instituições de “tratamento” de doenças mentais, onde permaneceu até o fim de sua vida.
 
Segundo a tese de mestrado em Ciências Sociais “Marinheiros em Luta: A Revolta da Chibata e suas representações“, defendida por Cláudio Barbosa de Souza na Universidade Federal de Uberlândia, em 2012, aRevolta da Chibata teve enorme repercussão por refletir a condição de grande parte da população carioca que, além de sofrer com péssimas condições de vida eram constantemente o alvo da coerção policial da época. Algo que se teria se transformado em uma disputa de representações ide ideológicas que passou a ser travada por meio dos discursos apresentados nos periódicos da época, na qual empresários e membros do governo procuravam desqualificar e despolitizar o movimento, definindo-o como ilegal e até um “ato de anarquia” De outro lado, jornais associados às lutas da classe trabalhadora relacionavam o movimento (e seu líder João Cândido) como exemplo de atitude combativa do proletariado contra uma elite opressora da época.
 
Cena do HQ que conta a história pela qual passou o grande Barão de Itararé, ao tentar publicar essa história.Cena do HQ que conta a história pela qual passou o grande Barão de Itararé, ao tentar publicar essa história.
 
Depois disso, a memória desta revolta foi retomada em diversos momentos da história brasileira, como no ano de 1944, quando Aparício Torelly (que ficou mais conhecido pelo título que conferiu posteriormente a si mesmo, de Barão de Itararé) tentou escrever uma reportagem especial sobre a revolta para o jornal A Folha do Povo, mas foi coagido de forma violenta a não publicá-la. Já em 1974 os músicos João Bosco e Aldir Blanc chegaram a compor um samba com o nome  “Almirante Negro”, que precisou ser alterado para “O mestre-sala dos mares” por ordem dos censores da Ditadura Militar (1964-1988). Os militares não tinham o menor interesse permitir que qualquer memória de lutas populares contra a opressão de governos passados fossem lembradas sob o argumento de que estas ações eram uma forma de propaganda comunista e incitaria o cao e desordem no país. UMA TREMENDA PALHAÇADA!

E foi em 2009 que uma o ilustrador Hemetério e o roteirista Olinto Gadelha conseguiram publicar a graphic novel CHIBATA!, após realizarem o intenso de projeto de pesquisa que envolveu a leitura de monografias acadêmicas, periódicos da época e depoimentos. Estes artistas levaram três anos na tentativa de elaborar um relato justo às memórias destes revoltosos.

Com informações detalhadas esta obra conta com excelentes ilustrações em hachuras – uma técnica de desenho  baseado no traçado de linhas finas, paralelas e cruzadas, para produzir o efeito de sombra ou meio-tom-, ao mesmo tempo que insere documentos como a carta dos revoltosos e relatos de personagens.
 
Com referências histórias como o caso dos marinheiros russos do Encouraçado Potenkin – que, em 1905, se amotinaram contra seus superiores ao se recusarem a acatar as ordens de bombardear e reprimir uma revolta popular do período revolucionário neste país – os autores constroem uma narrativa entrecortada, que mistura diferentes tempos, talvez como uma alusão às dificuldades que encontraram para reconstruir estes fatos. Algo que fica ainda mais poderoso, quando entendido como uma crítica à negligência dada pela educação à este assunto, que muitas vezes é tratado de forma superficial, em função do enorme conteúdo que o professor deve ministrar aos alunos.
 
Mas existe uma polêmica por trás desta publicação, na qual a Editora Conrad (responsável pelo título) foi condenada na 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, acusada de ter plagiado (quer dizer copiar ou, na linguagem NERD, dar um CRTL+C) cenas da peça de teatro “João Cândido do Brasil: A Revolta da Chibata”, do dramaturgo César Vieira. Segundo Estadão, a editora respondia à este processo desde 2010 no ano de 2013, teve a condenação ratificada, após levarem o processo à segunda instância, no Tribunal de Justiça. Além de indenização baseada no número de exemplares vendidos, a editora foi ordenada à publicar ratificação em três grandes jornais de circulação nacional.
 
Capa da primeira edição do livro de César Vieria que utiliza a famosa fotografia na qual João Cândido lê o manifesto dos marinheiros.

CAPA DA PRIMEIRA EDIÇÃO DO LIVRO DE CÉSAR VIERIA QUE UTILIZA A FAMOSA FOTOGRAFIA NA QUAL JOÃO CÂNDIDO LÊ O MANIFESTO DOS MARINHEIROS. FONTE: VIOMUNDO

De acordo com a revista on line O Grito, Cesar afirmou que: A peça é em parte ficcional. Dei ao João Cândido, o líder da revolta, duas namoradas, inventei um bar na Inglaterra, onde ele morou. Tudo o que não existia elesusaram como fatos históricos, em dezenas de páginas. E na defesa alegam que é uma homenagem a mim, mas em nenhum momento meu nome aparece no livro deles”. Uma situação que é muito útil para nos ajudar a lembrar que toda obra que faz referência a um fato histórico é uma forma de memória e NUNCA SERÁ 100% FIEL AOS FATOS. Assim como todo tipo de fonte histórica, os HQs, livros, filmes e games são apenasINTERPRETAÇÕES de momentos históricos e podem introduzir ficção no meio da História. Algo sobre o qual já falei, quando apresentei o personagem de Maquiavel, que aparece no jogo Assassin´s Creed.
 
De qualquer forma, o trabalho ficou muito legal e vale a pena ler, como mostrou o escritor de jogos, ensaios e narrativas Camilo Prado que, em seu blog aponta referências semióticas que oferecem possibilidades de interpretações que reforçam momentos da narrativa. Como é o caso dessa imagem que faz referência às atrocidades da guerra e ao martírio dos membros da revolta, uma vez que as arvores são desenhadas com formas que sugerem duras figuras humanas em batalha. Percebam que no canto direito uma árvore faz alusão à foice, instrumento que é associada à morte, assim como a caveira na porção superior esquerda da imagem, que trás as formas de um crânio. Tudo isso reforça o depoimentos do homem, que fala sobre a maneira pela qual a Marinha terminou por enganar os revoltosos, com a promessa de anistia.
 
arvores, por Hemetério
 
João Cândido e seus companheiros, desta forma, realizaram um feito único, que teve enorme repercussão sobre os jornais da época e forçou o governo brasileiro a aceitar as exigências destes rebeldes. Uma história que nos lembra que a violência e repressão foram características marcantes neste período de crise da Política dos Governadores, durante o qual a oligarquia cafeeira lutava para manter o poder centralizado em suas mãos, com auxílio das forças armadas. Um exemplo de pessoas comuns que se colocaram contra o poder do Estado e conseguiram obter melhorias para seus iguais, ao custo de suas vidas.
 
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