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História africana e orgulho negro inspiram tendências de tatuagem

Autor: Juca Guimarães Data da postagem: 09:30 14/03/2017 Visualizacões: 2010
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A cultura afrobrasileira inspira a obra do Finho / Arquivo pessoal

Tatuador Finho, de Salvador, conta suas descobertas e sobre tatuagem em pele negra.

As relações de pele e com a própria pele se dão em muitos sentidos e formas. O desenhista, ilustrador e tatuador Finho, de 37 anos, estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e montou um estúdio de tatuagens no largo do Campo da Pólvora, no bairro de Nazaré, em Salvador, onde desenvolve um trabalho de valorização da cultura africana e Orgulho Negro.

O trabalho do artista baiano ganha uma relevância extra por conta do empoderamento dos movimentos de luta contra o racismo, Direitos Humanos e igualdade social. Ao mesmo tempo em que o debate sobre as cotas nas universidades também permeiam as discussões acadêmicas.

Os desenhos do Finho são fios importantes de um tecido amplo e plural que resgata a importância da África na formação e desenvolvimento do Brasil.  "Acredito que estamos vivendo sim um momento em que existe esse sentimento de orgulho como já aconteceu em vários períodos. Não é uma coisa nova, esse orgulho negro. A questão é que vivemos em um período em que a informação circula muito rápido. Mas claro que eu percebo esse momento, e isso tem se mostrado muito nas tattoos também", disse Finho, dono do estúdio Retinto. 

R7: Quando você começou a desenhar?

Finho: Com uns 9 ou 10 anos de idade mais ou menos, vendo meu irmão desenhar.

R7: Quando surgiu a ideia de se tornar tatuador?

Finho: Eu sempre gostei muito de desenhar, e o que ia mudando com o passar do tempo, era o que eu desenhava. De personagens de histórias em quadrinhos e super-heróis - os mais musculosos possíveis - até retratos e paisagens.
Com 16 ou 17 anos mais ou menos, comecei a andar de skate e me interessar cada vez mais por essa cultura de rua - Punk rock, graffiti e tatuagens; até o ponto que comecei a fazer desenhos que copiava das revistas de tattoo. E fui copiando muita coisa, até começar a desenvolver meus desenhos próprios, influenciado pelo que eu ia vendo.

R7: Como começaram as suas pesquisas de desenho em pele negra?

Finho:  Era uma preocupação que eu tinha, cada vez que eu pensava em me tatuar - como funcionaria determinado desenho em minha pele. E a cada vez, eu sempre notava o mesmo - a falta de referência de tatuagens em pele negra. Eu não via nas revistas, eu não via nos sites…
E esse foi justamente um dos pontos de partida pra esse meu projeto #pelepretatatuada; criar referências de desenhos e de fotos de tatuagens em pele negra, onde essas referências inexistiam ou eram muito poucas. E em determinado ponto, além de apenas reproduzir os desenhos que já existiam, procurei também criar os meus próprios, dentro dessa temática - substituí as tradicionais pin ups, por exemplo (normalmente representadas por mulheres caucasianas) por mulheres pretas, com cabelos afro, tranças e dreadlocks.

Finho desenha desde os 9 anos de idade / Arquivo Pessoal
 

R7: Como são as suas pesquisas sobre a história dos negros e da África para os seus desenhos?

Finho: Antes de ser uma pesquisa apenas pra criar meus desenhos, é uma pesquisa muito mais no sentido de conhecer e entender a nossa história enquanto povo - já que existe essa deficiência em nosso sistema de ensino no que diz respeito à África e à diáspora africana, e que acaba resumindo uma história tão diversa e gloriosa ao período da escravização e colonização pelo europeu.

Mas lógico que, sendo exposto a tanta informação isso acaba sendo refletido em meu trabalho, como eu acho que provavelmente acontece com fotógrafos, escritores, músicos, pintores… Graças a isso, se hoje vou criar e preciso de uma referência de uma guerreira, digamos, eu posso me basear em uma guerreira Mahoney ao invés de ter de recorrer a uma amazona Grega.

R7: Você sente que está crescendo o sentimento de orgulho negro no Brasil? Isso se reflete nas tatuagens?

Finho: Acredito que estamos vivendo sim um momento em que existe esse sentimento de orgulho como já aconteceu em vários períodos. Não é uma coisa nova, esse orgulho negro. A questão é que vivemos em um período em que a informação circula muito rápido. Mas claro que eu percebo esse momento, e isso tem se mostrado muito nas tattoos também.
Muita gente tem me procurado, interessados na idéia do #pelepretatatuada. Saiu uma matéria sobre o projeto no afropunk e uma menina comentou que mesmo a língua dela sendo o inglês, a hashtag predileta dela, a partir daquele momento era #pelepretatatuada, assim em português mesmo. E estou achando isso ótimo.

R7: Você pesquisou como é a tatuagem em pele negra em outros países? Como é isso nos EUA? Tem um movimento lá?

Finho: Eu estou sempre buscando referências de artistas, aqui e fora. Na tattoo, tem dois que eu curto muito o trabalho e que também tatuam muita pele negra que são a Miryan Lumpini e o Dueler.

R7: Em São Paulo, um dos vereadores mais votados que é negro se posicionou contra o sistema de cotas e contra o feriado da Consciência Negra. O vereador Fernando Holiday diz que é tudo vitimismo e "mimimi". Qual a sua posição?

Finho: Minha posição é sempre a de não tornar gente estúpida famosa - ou no caso, ainda mais famosa. A estrutura racista opera de uma maneira que faz muitos e muitas defenderem com unhas e dentes o lado do que domina, o lado do que oprime, como se fosse o seu próprio - e cria ilusões, que infelizmente muito dos nossos abraçam, tipo o "self-made man". Com essa idéia de "se eu consegui e você não, a culpa não é do racismo" justifica-se a posição de ser contra o sistema de cotas, por exemplo.
Ou seja, é bem mais produtivo a gente bater nessa estrutura, do que perder tempo e disposição com esses equivocados aí pelo meio do caminho. Antes de nos ocupar com eles, vamos exaltar os nossos e nossas, né não?
Ao invés de gastar energia com o Holiday, por exemplo, acho bem melhor falar do trabalho de Thiago Elniño, que acabou de lançar seu disco "Rotina do Pombo". Ou de Sueide Kintê e do seu projeto "Mais amor entre nós". Ou de Fábio Mandingo ou de Mel Duarte. Ou de qualquer um dos irmãos e irmãs que estão realmente fazendo algo pelos nosso.

R7: Quais livros, música  e filmes sobre a cultura negra que inspiram o seu trabalho?

Finho: É meio doido, porque as vezes acabo me inspirando em uma paradas que nem tem tanto a ver com o resultado final de um trabalho. As vezes uma frase de uma música, ou uma cena, um frame de um filme já vira uma idéia pra um desenho. De boondocks a um disco do The Roots, tudo pode virar inspiração.

Finho tatuou o rapper Emicida com a gravura de João Cândido / Arquivo pessoal

R7: Quais as particularidades para fazer tatuagem na pele negra?

Finho: Considerando o risco de formação de quelóide, que é uma caracteristica da pele negra, um dos principais cuidados é não machucar muito a pele durante a tattoo.
Se essa já é uma preocupação pra se fazer qualquer tattoo, em pele negra deve ser um ponto a se ter ainda mais atenção.
E analisar o que vai ser feito, entender que tem desenhos que funcionam muito bem, outros nem tanto.

R7: Quais as dicas para fazer um desenho na pele negra?

Finho: Pensar em como vai funcionar o desenho na pele é o início de tudo. O ideal é fazer desenhos mais ''abertos'', sem tantos detalhes. Desenhos com detalhes muito pequenos, por exemplo, tem grandes chances de perder a definição por conta do tom da pele.
Linhas um pouco mais grossas e bem definidas também são importantes pra determinar se o desenho vai funcionar legal.
Mas vai depender muito de pele pra pele, porque mesmo em se tratando de pele negra, tem uma gama de tons muito variável.

R7: Quais os cuidados necessários para tatuagem em pele negra? Depois na cicatrização e para conservar o desenho?

Finho: Os cuidados são os mesmos, lembrando de seguir à risca os cuidados que seu tatuador ou tatuadora passar, pra evitar quelóides.

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