Internações de Lima Barreto mostram como o racismo é tratado no Brasil

Autor: Cristováo Tezza Data da postagem: 19:00 31/07/2017 Visualizacões: 1031
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Vânia Medeiros/Folhapress

Décadas atrás, lembro da cena em preto e branco de um programa de auditório em que o apresentador dizia (esqueci do contexto, mas a frase ficou martelando na minha cabeça): "O racismo no Brasil só vai acabar quando todos os brasileiros forem mulatos!"

O auditório veio abaixo em aplausos. Era uma cena alegre, uma epifania conciliatória. A afirmação admite que o racismo existe, e que a miscigenação é a solução final; o que não admite, numa entrelinha subterrânea, é que se possa aceitar a diferença. Isto é, não há lugar para o negro num mundo que se quer branco. A palavra "mulato", historicamente plena de ambiguidades tensas, carrega-se aqui de uma simpatia libertadora, como de fato ela funcionou ao longo do século 20, o caminho possível do "branqueamento" brasileiro.

Em outro momento, já adulto, lembro da leitura de "A Marca Humana" (R$ 34,90, Companhia de Bolso), romance do americano Philip Roth. Para quem não leu: é a história de um professor que entra em desgraça pelo uso inadvertido de uma palavra com duplo sentido com relação aos afrodescendentes.

O dado mais impactante do livro, entretanto, surge depois: o professor revela-se alguém que passou a vida escondendo dos amigos e do mundo que ele próprio era negro.

Para que o leitor tenha ideia da estranheza, basta saber que, no cinema, o papel do personagem foi vivido por Anthony Hopkins. Obviamente, esta história não faria nenhum sentido na cultura brasileira —a ideia de que alguém "esconde" a condição de negro, e que revelá-la terá consequências sérias seria percebida aqui como uma espécie de ficção científica.

Enquanto no racismo puritano e aristocrático dos Estados Unidos a condição de negro se define por uma única gota —a "mancha" humana a que se refere o título original do livro de Roth, "The Human Stain"-, no brasileiro ele se manifesta fundamentalmente pelo fenótipo, a cor da pele. Um é racista pela afirmação da diferença; o outro, por negá-la. A permanência do racismo é comum, lá e aqui —mas a sua conformação tem raízes culturalmente diferentes que devem ser pensadas e pesadas.

O Brasil determinou-se inteiro pela instituição da escravidão, que se entranhou em praticamente todas as esferas da vida do país, ao mesmo tempo em que, pretendendo-se moderno e democrático desde o Império, sempre desenvolveu discursos conciliadores para suavizar e naturalizar as diferenças brutais da realidade cotidiana.

Comparativamente, nosso racismo tem alguns traços sui generis, não só em comparação com o dos Estados Unidos como no dos países vizinhos de colonização espanhola (em que a presença da cultura indígena fez-se distinta da que aconteceu na história brasileira). Obviamente, não há racismo "melhor" ou "pior" —todos nos degradam—, mas enfrentá-lo significa igualmente compreender suas raízes.

Dois ótimos livros me levaram mais uma vez a esse tema inescapável. Um deles é "Na Minha Pele" (R$ 34,90, Objetiva), do ator Lázaro Ramos, que se revela um bom escritor, num gênero sempre de alto risco, o depoimento pessoal. Com o olhar atento, nítido e tranquilamente reflexivo, o livro fala sobre a condição de viver sob a pele negra num país como o Brasil.

É o ponto de vista de um artista de sucesso, mas que pensa sua condição além da fronteira pessoal. Como ele diz num momento, artistas e esportistas negros são lugares comuns na nossa cultura —a questão é a realidade que se oculta na imensa parcela afrodescendente de brasileiros.

O outro é "Lima Barreto - Triste Visionário", de Lilia Moritz Schwarcz (R$ 69,90, Companhia das Letras). Mais do que uma biografia do autor negro de "Triste Fim de Policarpo Quaresma" (e-book grátis na editora da Câmara dos Deputados), o livro é um painel fascinante das origens e das variáveis do racismo brasileiro que estavam em jogo na virada do século 20.

A tragédia de Lima Barreto (1881-1922), o alcoólatra brilhante, de temperamento difícil, que colocou a questão racial brasileira no centro de seu projeto literário, serve como referência para pensar o imponderável ponto de intersecção entre o pessoal, o racial e o social. Internado pela primeira vez em 1914, a sua ficha médica define-o como "branco". Três anos depois, mais degradado, sai da esfera da conciliação e passa a ser "pardo" —vítima sutil da "mancha humana" brasileira.

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