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Filme coloca em discussão a representatividade negra e gay

Autor: Clenon Ferreira Data da postagem: 18:00 21/08/2017 Visualizacões: 568
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Estudante de Moda João Moraes: “Recebo olhares e comentários no ônibus, nas ruas, dentro de espaços fechados, até mesmo entre gays” / Foto: Marcello Dantas - O Popular

'Corpo Elétrico' (2017) está em cartaz em Goiânia

“Foi posto em dúvida o que os corrompem. Seus próprios corpos segregam a si mesmos? E se o corpo não for alma, que será a alma?” No poema Eu Canto o Corpo Elétrico, publicado em 1855, o escritor americano Walt Whitman discorre sobre silhuetas de corpos de escravos bronzeados pelo sol. Foi baseado em torsos, olhos e pele que o cineasta Marcelo Caetano tratou de criar o longa Corpo Elétrico, que estreou na última quinta-feira nos cinemas de todo o País - em Goiânia, no Cine Cultura. No filme, o diretor escancara, apesar das sutilezas do roteiro, a vida e o cotidiano de jovens negros gays entre os íntimos contatos com o trabalho, a paisagem urbana e a proximidade afetiva nas relações com o sexo.

Orgulho e preconceito são postos à tona e, no País em que a maioria da população se autodeclara preta ou parda, segundo o IBGE, discutir um duplo preconceito - racismo e homofobia - é prato cheio para prerrogativas. Assim como o protagonista de Corpo Elétrico, o jovem estilista Elias (Kelner Macêdo), que trabalha em uma confecção no Bom Retiro, em São Paulo, o goiano João Moraes, estudante de Design de Moda da Universidade Federal de Goiás (UFG) diz passar por situações de intolerância todos os dias. Aos 18 anos, o cabelo crespo, as roupas que usa, a cor da pele e o jeito de falar servem de pressuposto para comentários hostis.

São atos simples, mas que revelam os preconceitos sutis e enraizados. “Os olhares que recebo, as observações e comentários no ônibus, nas ruas, dentro de espaços fechados, até mesmo entre os gays”, aponta Moraes, que mora no Solange Park 2 e gasta pelo menos duas horas para chegar todos os dias na Faculdade de Artes Visuais (FAV) da UFG, no Câmpus Samambaia, Região Norte de Goiânia. De acordo com o estudante, que trabalha com moda desde que entrou na faculdade aos 16 anos, é preciso ocupar espaços na sociedade.

“Quando não há representatividade, os negros e gays acabam caindo nos estereótipos que há décadas ainda configura uma realidade social do imaginário coletivo”, comenta o goiano, fazendo alusão às caricaturas que sempre permearam o clichê do negro gay, a exemplo de personagens como a barraqueira Vera Verão, interpretado pelo ator Jorge Lafond.

“Tira a camisa, bota o fio-dental. Moreno você, é tão sensual”, cantam em coro os personagens de Corpo Elétrico, durante uma cena, em alusão à representatividade quase sempre erótica mantida no imaginário coletivo. De acordo com o fundador do Grupo Gay da Bahia e membro do departamento de antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Luiz Mott, um dos problemas apontados por pesquisas sobre homofobia e racismo é que quase sempre os negros gays relatam que são revistos entre os relacionamentos como objeto de prazer.

Não há uma estatística exata que identifica qual a cor dos gays que mais morrem no País, ressalta Mott. “Mas a minha impressão, trabalhando há três décadas com a questão homossexual, é de que a maioria dos jovens mortos nas favelas e periferias são negros, conforme apontam as estatísticas demográficas”, explica Mott. Embora não existam pesquisas sobre crimes de ódio a negros gays, ele lembra que a discussão já está presente em grupos de ação afirmativa, como a Rede Afro Brasileira.

 

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