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CUTI: Os editores brancos escolhem os mais claros, sempre, não apenas de pele

Autor: Cristian Sales Data da postagem: 13:30 05/09/2017 Visualizacões: 574
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CUTI: Os editores brancos escolhem os mais claros, sempre, não apenas de pele / Foto: Reprodução - Correio Nagô

"Em um país com tão poucos leitores de literatura, produzi-la é algo fascinante, e escrever com a melanina interior de nossas vivências é uma experiência que até nos remete a certa transcendência"

Cuti

Poeta, ensaísta, crítico literário e escritor, Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, é uma das vozes contemporâneas mais importantes da literatura negra produzida no Brasil. Nascido em Ourinhos, interior de São Paulo, em 31 de outubro de 1951, Cuti foi um dos fundadores do Quilombhoje-Literatura, grupo paulistano de escritores, surgido em 1980 e dedicado a discutir e aprofundar a experiência negro-brasileira na literatura. Autor de obras como Poemas da Carapinha e Batuque de Tocaia (Edição do Autor), Cuti está também entre os idealizadores da série literária Cadernos Negros (1978).

Há quase quatro décadas publicando, Cuti afirma que “literatura é uma forma de se dizer presente, de reagir contra todas as formas de apagamento existentes na sociedade”. E completa: “em um país com tão poucos leitores de literatura, produzi-la é algo fascinante, e escrever com a melanina interior de nossas vivências é uma experiência que até nos remete a certa transcendência”.

Em entrevista concedida a Cristian Sales para Coluna Levantes Literários, Cuti reflete sobre a experiência de escrever literatura, assumindo o lugar da fala de um escritor negro, do acesso ao mercado editorial brasileiro e de suas obras mais recentes: Negrhúmus Líricos (antologia poética) e as peças teatrais escritas em parceria com atriz e escritora Vera Lopes Tenho medo de monólogo e Uma farsa de dois gumes. Além disso, estudioso da obra de Lima Barreto, Cuti comentou sobre a escolha e a homenagem feita ao autor na 15ª Festa  Internacional Literária de Paraty (FLIP) em 2017: “a obra de Lima Barreto sendo promovida é um ganho. Mas, homenagem não abre caminho. Fecha”, disse.

Cristian Sales: Ao longo de três décadas, como é a experiência de escrever literatura e assumir o lugar de fala de um escritor negro?

Cuti: Há quase quatro décadas publicando, penso que ao fazer o meu primeiro livro em 1978 algo mudou profundamente em minha vida, algo que determinou o meu estar no mundo, em outros termos, foi limiar de um mundo muito especial, o da criação. A literatura é uma forma de se dizer presente, de reagir contra todas as formas de apagamento existentes na sociedadeDesde muito cedo percebi que o desdém racista tinha como função precípua minar o meu entusiasmo de viver. Ele não queria o meu riso de alegria, mas o meu pranto de tristeza; não queria a minha ascensão social, mas o meu derrotismo e a minha permanência na pobreza; ele não queria que eu amasse nem fosse amado, mas que me recolhesse no ostracismo existencial até que a depressão desse cabo de mim, lançando-me nas drogas e, por fim, na sarjeta. Eu vi isso acontecer com amigos de infância. O desdém racista também olhou de soslaio para o que eu escrevia e cuspiu o seu escárnio. No meu horizonte de expectativa, entretanto, havia “um sorriso negro, um abraço negro”, como cantou maravilhosamente Dona Ivone Lara. Poemas da Carapinha chegou às mãos de Abdias do Nascimento, quando ele estava em Búfalo, nos Estados Unidos, e dele eu recebi uma carta calorosa cheia de incentivo. Depois, outras pessoas negras se viram no livro e deram-me retornos entusiastas. Eu me conscientizei, então, da recepção adversa de editores e público hegemônico no campo literário, mas de um outro extremo: meus leitores preferenciais, pouco habituados à leitura de poesia. Aqueles tomando a minha poesia como um acinte agressivo, estes recebendo-a como a um bálsamo de identidade. Eram duas dimensões antagônicas, experiências subjetivas diversas, interesses e necessidades discrepantes quando se tratava da convivência inter-racial. Infelizmente, o dinheiro, a possibilidade de sobrevivência estava no lado daqueles que repudiariam o meu texto. Assim, de imediato, as ilusões de assumir a literatura como profissão se dissiparam. Não seria possível. Ao menos que eu fizesse de minha sinceridade autoral uma covardia abjeta e permitisse que a autocensura determinasse o percurso de minha escrita. Lutar incessantemente para alertar a população negra de que a linguagem literária é importante seria e é o grande desafio, pois para a maioria militante, o vício do sociologuês veda a ela uma percepção mais apurada do papel da literatura enquanto produtora de ideias e sensações que levam ao autoconhecimento e à consciência política. Hoje, creio que ter feito parte de um grupo de escritores proativos em termos consciência negra e iniciativas editoriais fez-me uma pessoa melhor. Refiro-me ao Quilombhoje e aos Cadernos Negros. E posso ver, com grande satisfação, surgirem novos talentos literários que superam a mera busca de status de escritor. Homens e mulheres que sabem do universo literário, de suas dificuldades, de seus sacrifícios, pessoas que não estão interessadas só na noite de autógrafos ou no aplauso dos saraus, mas compromissadas com uma obra ao longo do tempo; que não vieram para escrever um livro, receberem elogios e irem dormir com uma ilusão de sucesso; pessoas negras engajadas na arte da palavra, que entendem a sua função estética, histórica e social. Em um país com tão poucos leitores de literatura, produzi-la é algo fascinante, e escrever com a melanina interior de nossas vivências é uma experiência que até nos remete a certa transcendência, aquilo que o poeta e amigo Carlos de Assumpção escreveu em seu antológico poema Protesto: “Atrás do muro da noite/Sem que ninguém o perceba/Muitos de meus ancestrais/Já mortos há muito tempo/Reúnem-se em minha casa/E nos pomos a conversar…”. Escrever assumindo o lugar de fala da nossa subjetividade negra é alçar-se ao estágio que permite o trânsito entre a vida cotidiana e a ancestralidade.

Em seu ensaio-manifesto intitulado Quem tem medo da palavra negro, publicado na Revista Matriz, em 2010, você diz que a expressão “afro”, operada no jogo semântico-ideológico para encobrir o racismo no Brasil, colabora para diluir o signo “negro”… Deslocando essa questão para o campo da crítica, você considera que a polêmica existente entre literatura afro-brasileira ou literatura negro-brasileira já foi respondida?

Considero que já foi respondida, sim, mas não superada. A criação e o uso de conceitos estão diretamente ligados à manipulação das mentes. Como o movimento negro sempre apontou para a questão da identidade do brasileiro, ela se tornou crucial para todos os movimentos sociais no Brasil. É a identidade negra a possibilidade de arregimentação do contingente mais sofrido da nossa população. Por outro lado, trata-se de fazer um enfrentamento no nível da linguagem, o que certos segmentos do próprio movimento negro não perceberam ainda. As ideias residem nas palavras e não o contrário. Assim, a hegemonia “afro” escamoteia uma verdade que antropologia, a genética e a paleontologia tem revelado e reafirmado: a humanidade nasceu na África, portanto todas as pessoas, independente de seu fenótipo ou ascendência geopolítica, são “afro”. A humanidade é “afro”. Assim, o racismo insistiu e insiste em atribuir o “afro” apenas às pessoas de pele escura, cabelo crespo e nariz largo, como se os demais não o fossem. É preciso se contrapor a esse discurso. Todo “euro” é “afro” em sua origem. Todo “asio” é “afro” em sua origem… Enfim, todos somos “afro” de origem. O racismo caracterizou o “afro” como inferior biologicamente. Antes se acreditava que cada “raça” tinha se originado em um ponto do planeta. A verdade foi postergada pelos racistas, alguns dos quais ainda insistem em buscar diferenças biológicas fundamentais que pudessem justificar a violência com que os humanos de pele clara trataram os de pele escura por milênios e ainda tratam. O que está por detrás da persistência do “afro” para caracterizar a literatura e outras iniciativas do povo negro é isso: particularizar uma origem que é geral; escamotear a origem africana do branco; deixar de lado o processo de despigmentação sofrido pelos negros que deixaram a África há milênios, em outros termos, manter a ilusão de uma origem diferenciada entre os povos. Isso, no campo literário, é o mesmo que tentar remeter a produção negro-brasileira àquele continente, expurgando-a do Brasil. Nós somos alfabetizados em língua portuguesa abrasileirada e nesta língua escrevemos. Além disso, somos educados pela literatura brasileira e dela tiramos nossas referências, seja para repeti-las ou para se contrapor a elas. Enquanto virarmos as costas para o debate da escolha terminológica para os nossos trabalhos intelectuais estaremos segurando a bandeja enquanto pisamos em ovos. E, com isso, deixando a criação de conceitos por conta do branco, inclusive dos brancos racistas. O fenótipo não essencializa nada. O que a literatura negro-brasileira está dizendo é que ele, o fenótipo, faz parte do mundo simbólico no qual o racismo operaA arte não é tão somente uma manifestação estética. Ela é uma manifestação existencial e necessita da liberdade de criar, inventar. As ideias não avançam enquanto o discurso não muda sua forma de estabelecer o contato entre as pessoas.

E para nós a palavra “negro” é de fundamental importância. Ela é o signo verbal mais forte de identidade. Nem “afro”, nem “preto” tem o poder catalisar as energias do passado e entrelaçá-la com o presente e o futuro. E nisso a poesia tem muito a contribuir.Pensadores (as) negros (as) deviam ler mais poesia. Ela nos ensina a tornar o discurso social militante mais convincente.

Nos últimos tempos, apesar da produção e circulação da literatura negra e/ou afro-brasileira terem conhecido uma difusão mais ampla, publicar ainda tem sido uma tarefa árdua, especialmente para os/as mais jovens. Como você observa a recepção dxs escritorxs negrxs pelo mercado editorial?

Não há propriamente recepção, mas, sim, rejeição. É uma das tantas facetas do racismo impedir que o negro produza conhecimento escrito e, particularmente, literário. Os editores são agentes ideológicos e, portanto, no tocante à sua visão de Brasil, são muito cuidadosos em promover apenas aquilo que corresponde ao ideário de branqueamento, de assegurar a ilusão de superioridade congênita branca, de vetar que negros passem a sua visão do país, a sua visão a respeito dos brancos, a sua perspectiva de futuro e redenção da violência resultante de quase 400 anos de escravidão e 500 anos de racismo. Escritores, homens e mulheres, que publicam não devem ter a ilusão em relação aos acenos. Os editores brancos escolhem os mais claros, sempre, não apenas de pele, mas, sobretudo, de texto. Quanto menos o texto atentar contra os pressupostos do racismo brasileiro, mais o autor terá alguma acolhida. Seja ele velho ou jovem. Se falar da miséria e violência, do machismo e apenas resvalar no racismo, já será considerado para uma possibilidade de migalha editorial. No que está estabelecido, escritores são peças no tabuleiro ideológico, peças que devem reforçar a formação discursiva hegemônica racista. Devem fazer com que leitores brancos e negros se condoam do “eu” lírico ou dos personagens negros. Alguém que é digno de pena apresenta uma faceta de “coitado”, inferior. Isso casa com os pressupostos de superioridade branca do racismo. E os preconceitos são alimentados a cada nova publicação, a cada nova novela, a cada novo filme. Felizmente, há jovens negros (as) que já perceberam isso e tem reagido, com iniciativas editoriais que, sem dúvida, apresentam um saldo muito positivo, ainda que as publicações sejam de tiragens muito pequenas e a distribuição precária, pois o racismo atua no meio editorial com ridículas justificativas “estéticas”, que não passam de posicionamento ideológico.

Dentre as suas publicações mais recentes, destaca-se a antologia poética Negrhúmus Líricos. Como situar essa obra no projeto teórico e estético da literatura negro-brasileira?

Não há um projeto, mas, sim, a constatação de aspectos predominantes entre vários textos de autores diversos. Por outro lado, minha obra literária não pretende ser reflexo de meu pensamento teórico e crítico acerca da literatura. Nem vice-versa. Ela não faz parte de uma estratégia programática. Quando faço literatura, procuro colocar o crítico para dormir ou mesmo faço-o desmaiar, pois ninguém consegue criar sob vigilância, principalmente, vigilância interna. Relendo alguns livros meus, percebo, em certos trabalhos, no entanto, que o crítico fingiu que estava desmaiado ou dormindo e acabou interferindo. O poeta, o contista e o dramaturgo, então, se unem para nocauteá-lo para poderem criar livremente. Embora depois das publicações, eu também me torne leitor de meus textos, aqueles aspectos a que me referi prefiro que sejam destacados em Negrhúmus líricos por outras pessoas que estudam a nossa literatura.

Desde Poemas da Carapinha (1978), passando por muitos outros livros de poesia, em 2017, com Negrhúmus Líricos,quais são as modificações operadas propriamenteem seufazer poético?

O aprendizado diário da poesia implica conhecimento técnico e sensibilidade. Ler poesia para quem faz poesia é como respirar. Portanto, a cada novo poema lido, um aprendizado fica. Do que preciso alcançar e do que preciso rejeitar. Nestes quase 40 anos em que venho publicando livros de poemas e de outros gêneros, acho que um dado importante é considerar que a facilidade do verso livre é enganosa. Ela é uma armadilha que nos lança em uma queda prosaica. O poema vira um “prosoema” que acaba arranhando os ouvidos e arrotando discursos referenciais com sua carência sonora e metafórica. Assim, creio que a minha formação em Letras, ter refletido em meu mestrado e doutorado sobre o fazer poético de Cruz e Sousa e o trato com a prosa por Lima Barreto, além das leituras de obras diversas, tornou-me menos dogmático esteticamente, fazendo-me ver para além das fôrmas as formas, a possibilidade de empregar procedimentos diversos, desde um verso monossilábico até um decassílabo, procedimentos utilizados no haicai como no soneto ou em um poema visual, mirando o efeito final, bem como ousar mexer na estrutura da prosa literária, buscando com isso melhor adequação ao que pretendo transmitir. Músicos devem ter seus instrumentos afinados para que a execução saia a contento. Poetas, dramaturgos, contistas, romancistas também precisam ter como perspectiva afinar o seu fazer. Essa afinação se faz principalmente com a diversidade de leituras e humildade no aprendizado. Acho que, com certa dificuldade, venho perseguindo esse objetivo que requer uma boa dose de coragem para lidar com a solidão criativa, uma senhora bastante exigente.

Como se deu o processo de escrita das peças Tenho medo de monólogo e Uma farsa de dois gumes. Como tem sido a parceria com a atriz e escritora Vera Lopes?  

São duas peças bem diferentes. Tenho medo de monólogo é uma parceria. Sempre achei que minha amiga Vera Lopes, como tantas atrizes negras, tinha um talento pouco aproveitado nos papeis em que atuava, principalmente por serem de pouca representatividade, como também pelo fato de os textos oferecerem uma oportunidade pequena para que desabrochasse plenamente. Durante um tempo tentei trabalhar com ela. A princípio, eu lhe ofereci o monólogo Dois nós na noite, mas na época ela se recusou a encará-lo. Então, certa vez, eu apresentei a proposta de criarmos juntos um texto dramático. Isso depois de termos nos aproximado realizando pequenos recitais em lançamentos meus. A princípio ela hesitou. O título da peça é um reflexo dessa hesitação inicial. Depois, a sensibilidade artística de Vera falou mais alto e, assim, iniciamos os trabalhos de oficina presencial e à distância. Foi uma experiência de mais de um ano, com interrupções. Mas, conseguimos possibilitar o nascimento da personagem Ana Cruz, uma mulher negra que passa sérias dificuldades, mas dá a volta por cima. A peça Uma farsa de dois gumes é bem diferente. Ela tem mais de vinte anos. A primeira versão é de 1995. Do ponto de vista do processo criativo, foi uma experiência catártica por meio do cômico e do grotesco. Cheguei a um ponto de saturação diante do noticiário brasileiro e internacional, dando conta de como o ser humano é precário quando se trata de pensar o destino da espécie humana, como é mesquinho em seu projeto de dominação e exploração de seu semelhante. O texto passou por várias reescrituras, sobretudo após leituras caseiras feitas com pessoas de minha amizade. A Farsa é uma crítica bufona, um escracho de dois gumes, para o qual até mesmo a ingenuidade é motivo de mofa, uma forma de fazer rir pensando. É um texto que escrevi sozinho, porém acompanhado de muitos personagens-tipo, o que fez do texto um logro ao próprio gênero farsa, que, em geral, é uma peça curta com poucos personagens.

No atual contexto, redobra a importância do trabalho desempenhado por um intelectual em uma sociedade. Quais são os compromissos assumidos e as funções atribuídas a um intelectual negro no Brasil?

Essa é uma pergunta que nos remete a uma tentativa de normatização para aquelas pessoas que se dedicam à escrita. Quem atribui função aos intelectuais, em geral, não é intelectual. É alguém que deseja normatizar o trabalhar do pensamento e da escrita. Um intelectual é alguém que, no meu modo de ver, desenvolve permanentemente uma consciência crítica e, só por isso, passa a representar um traço incômodo para aquelas pessoas que desejam um mundo pleno de certezas. Intelectual é alguém por princípio que duvida como os cientistas fazem para se chegar a conclusões mais acertadas. O conjunto de ideias cristalizadas na concepção de Brasil é resultado de uma visão de mundo racista a respeito do conjunto da população. O ideário de um país unicamente branco permanece. A importância do trabalho desenvolvido por pessoas que pensam e escrevem sobre a sociedade brasileira é, principalmente, a de desmistificá-la. Por exemplo, a ideia de povo ordeiro e pacífico é falsa. Somos um povo violento. Basta ver as estatísticas nesse campo. Não somos racistas? É outra baboseira em que muita gente embarca até pondo isso em título de livro. As versões hegemônicas de Brasil precisam ser passadas a limpo e contestadas. Há uma abundante hipocrisia nas relações sociais que precisam ser postas a nu. Quanto a compromissos assumidos, cada pessoa busca o caminho que lhe convém na produção intelectual. Tem gente que divide a produção textual com o microfone. Outros militam nas redes sociais, produzindo textos para esse suporte. Há os que ficam em cima dos fatos para escrever sobre eles e difundir suas ideias por vários meios. A minha produção, ainda que eu trafegue por outras formas também, está dirigida essencialmente para o livro. Sou um amante do livro, o objeto mais revolucionário que existe. Pena que a maioria das pessoas não percebeu isso ainda e está mergulhada no visual, ficando cega para a escrita, que é tão poderosa que pode servir para os poderosos destruidores do planeta, que agem muito em função dos péssimos livros que leram.

Enquanto intelectual negro, creio que, dentre outras coisas, é fundamental eu fazer a crítica ao racismo e a autocrítica dos métodos da nossa luta para a superação dos entraves em nossa vida que ele impõe.

Assumindo o lugar de crítico e teórico da literatura, você já escreveu vários trabalhos sobre o escritor negro Lima Barreto (1881-1922). O que você achou da escolha e da homenagem feita ao autor Lima Barreto pela 15ª Festa Internacional Literária de Paraty- FLIP?

Na verdade, são apenas dois trabalhos, um que leva o nome do autor e a minha tese de doutorado, quando eu estudei a obra do Cruz e Sousa e a do Lima Barreto. Penso que homenagem nem sempre serve ao homenageado. Há muita gente interessada no Lima para, através de uma crítica quase sempre preconceituosa, passar uma visão de Brasil onde os brancos concedem umas migalhas aos negros. Outros tentam interpretar a sua obra enquanto contribuição para enxergarmos o que insistentemente se esconde na visão predominante que temos de nós brasileiros. Essa é a perspectiva mais consequente e que o autor de Bruzundangas quis nos legar. No contexto da literatura negro-brasileira representa um alerta: como essa figura ímpar será reinterpretada? Precisamos ter em mente que a obra mais conhecida do autor é Triste fim de Policarpo Quaresma, na qual o racismo passa enviesado. Recordações do escrivão Isaías Caminha, um testemunho da experiência subjetiva da discriminação racial, é um livro que fica sempre desprezado, pois o personagem-narrador dá uma visão de como a imprensa funciona na fabricação de notícias falsas em seus acordos com o poder instituído e como mudando o ponto de emanação o discurso é outro, ganha novos sentidos. A obra de Lima Barreto sendo promovida é um ganho. Mas, homenagem não abre caminho. Fecha. Funciona como uma espécie de enterro, um jogar flores no túmulo e virar as costas. E espero que não seja tão somente uma resposta às críticas contra o exclusivismo branco do evento, pois há a possibilidade de isso ser o mesmo processo de legitimação costumeiro: “Hoje vocês entraram, mas não apareçam mais aqui, pois negro ocupa muito espaço, além de trazer um espelho no qual não queremos nos ver.” Para o próximo ano vamos sentir se, de fato, resolveram tomar ciência da escrita negro-brasileira ou se foi apenas uma hipócrita atitude por terem sido acusados de exclusão racial no evento dos anos anteriores. Pela experiência, sou umtanto cético. Mas, o ano que vem dirá.

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