Afrofuturismo: direito à imaginação

Autor: Roberta Souza Data da postagem: 16:00 29/01/2018 Visualizacões: 940
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Darwin acredita que o Afrofuturismo fantasia sobre lacunas históricas / Foto: Eduardo Barrosa - div - Diário do Nordeste (Editada)

O DJ cearense Darwin Marinho identifica o conceito do Afrofuturismo em seu trabalho musical e nas conexões com sua origem

Reconhecer-se como negro e ir em busca de suas origens foi um processo tão forte quanto recente na vida do cearense Darwin Marinho, 30. Natural de Tauá, mas morando em Fortaleza há 17 anos, são de 2015 as incursões mais significativas do DJ pela própria história, quando se deu conta, por exemplo, que sequer tinha algum documento de sua bisavó. O mergulho veio acompanhado do contato com os conceitos e práticas do movimento afrofuturista, que, de certa forma, já existiam em sua experiência, mas se intensificaram ao longo dos últimos três anos.

"À medida que aumentava minha percepção de como eu vivenciava o racismo, de como o racismo operava na minha vida, eu ia tendo contato com histórias de ficção escritas por pessoas negras, com músicas que falavam sobre herança cósmica, que levavam a imaginar um futuro negro, protagonizado por pessoas negras", lembra.

A reflexão sobre o passado e o presente ajudaram Darwin a compreender esse futuro. "Afrofuturismo é uma estética que passa muito por essas lacunas deixadas pelo processo de diáspora africana, escravidão, perda de conexão. Tem todo esse passado e um presente que ainda sofre essas consequências, com o encarceramento em massa da população negra, a violência racial. O Afrofuturismo fantasia em cima dessas lacunas", conceitua o DJ.

Na visão dele, a realidade já não pertence à população negra, foi tirada e o que se pode fazer é imaginar, ccionalizar em cima disso, ainda que até esse direito também insistam em tirar. "Alguma coisa precisa ser feita, preciso me mobilizar, destruir essas estruturas que estão tirando meu direito à vida, e até o meu direito à imaginação", critica.

Trabalho

Ainda que seja explícito o interesse de Darwin por diferentes linguagens artísticas, tais como audiovisual e quadrinhos, foi na música que ele expressou imediatamente essas inquietações. Isso porque a atividade prossional como DJ, que já desempenha há seis anos, aproximou-o de inúmeras referências, antes mesmo que elas zessem o sentido que hoje assumem para ele.

Em 2010, por exemplo, ele teve contato com o álbum de estreia da norte-americana Janelle Monáe, "The ArchAndroid (Suites II and III)", que incorpora elementos conceituais de música afrofuturista e cção cientíca.

O disco funciona basicamente como o conto ccional da série de um androide messiânica, e conta com temas líricos característicos sobre o amor, identidade e autorrealização. O álbum chegou a ser comparado ao de artistas como David Bowie, Outkast, Prince e Michael Jackson, e conta com colaborações de Saul Williams, Big Boi, of Montreal e Deep Cotton.

A obra de Janelle o fez pensar em algumas metáforas recorrentes nesse universo, entre elas a de negros como alienígenas ou robôs (escravizados). E aos poucos ele foi buscando mais músicas que dialogassem com esses temas. Como DJ, o processo de catalogação se intensicou, e em 2015 ele apresentou as primeiras mixtapes voltadas especicamente ao Afrofuturismo.

Catalogação

"No começo fui bem nas letras, e depois nas sonoridades. Kelela, por exemplo, fala muito do relacionamento dela nas letras, mas as batidas têm uma coisa muito etérea. Quando se pensa nesses artistas, a gente pensa muito no Herbie Hancock, jazzista, multi-instrumentista, que lida com tecnologia, engenharia, é bem atrelado a isso. O álbum 'Future Shock' (1983) tem bem essa sonoridade, e as letras também, porque falam sobre você pensar o futuro e como reconstruí-lo", cita Darwin.

O músico americano de jazz Sun Ra (1914-1993) é outro que serviu de referência para Darwin. O compositor, arranjador e pianista americano era uma espécie de guru filosófico que mesclava ficção científica, textos religiosos, mitologia e história do Egito Antigo em suas canções. Ele se proclamava um viajante interestelar vindo de Saturno.

Do Brasil, Darwin bebeu de Jorge Ben Jor, Martinho da Vila, Olodum, e, mais recentemente, de cantoras como Tássia Reis, Ellen Oléria e Xênia França, da banda Aláfia. "Às vezes as músicas nem estão falando de um viés social, mas de ancestralidade, história, mito dos orixás, criando outras narrativas, contando a mitologia negra", observa.

Quando resolveu disponibilizar as mixtapes, o retorno foi imediato. É possível encontrar seis delas no Mixcloud e uma no Spotify. "Logo que postei a primeira, uma menina do Rio de Janeiro que estava produzindo uma revista sobre o tema Afrofuturismo entrou em contato comigo. Colaborei com uma ilustração da Nina Simone cheia de referências espaciais", lembra ele, que também é graduando em Publicidade e Propaganda.

Outras linguagens

Depois da música, é ao cinema que Darwin mais dedica sua vivência e pesquisa. Cita, por exemplo, o curta "Kbela", da realizadora Yasmin Thainá, como uma experiência em performance, cinema e música. O lme esteve na Mostra Negritude Innita, que aconteceu em novembro do ano passado, na Vila das Artes.

"Fui convidado pra fazer o cartaz da mostra e acabei entrando na organização. 'Negritude Innita' coloca narrativas negras em evidência e uma das sessões trabalha com esse realismo fantástico presente no Afrofuturismo. Ainda no primeiro semestre a mostra vai circular no interior do Ceará", comenta.

Além disso, Darwin também está participando da equipe de fotograa do lme "Cartuchos de Supernintendo em Anéis de Saturno", dirigido por Leon Reis. "Ele se encontra em processo de nalização e conta a história de um garoto que transita entre o Vila Velha e a Aldeota, trata e usa elementos de cção cientíca e terror para abordar tensões raciais", contextualiza.

Das Artes Visuais e Performance, ele lembra os trabalhos de Jota Momabaça (RN), Michelle Matiuzzi (BA) e Grada Kilomba. Já da terrinha, o DJ cita a peça "Todo Camburão tem um pouco de navio negreiro", do grupo Nóis de Teatro, e o som experimental de Arquelano. Este, aliás, por meio do trabalho em programas de computador, lançou um projeto homônimo, no qual cria músicas com diferentes bases, samples e distorções.

No próximo dia 18 de fevereiro, Darwin fará uma discotecagem afrofuturista no Fuxico do Dragão. Acompanhado pelas projeções de Lilian do Rosário, o DJ tocará a partir das 19h no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC). Essa é mais uma oportunidade para descobrir esse universo onde ele certamente não está sozinho.

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