Resistência ao longo das eras

Autor: Redação Diário do Nordeste Data da postagem: 18:00 29/01/2018 Visualizacões: 1335
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Pantera Negra fará ponte entre os últimos filmes da Marvel e "Vingadores: Guerra Infinita" / Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

Diferentes artistas negros expressaram o desejo de imaginar grandes histórias com o Afrofuturismo

A ficção cientíca e a cultura negra, ambas tratadas como segmentos paralelos, podem, sim, gerar obras inspiradoras e consistentes. Logo, é possível traçar um inusitado paralelo entre histórias da cultura africana e contos recheados de viagens pelo espaço sideral. Através de patrocínio via edital de ocupação da Caixa Cultural, Kênia Freitas, em parceria com Thalita Oliveira, idealizou a mostra "Afrofuturismo: Cinema e Música em uma Diáspora Intergaláctica".

Realizada entre os meses de novembro e dezembro de 2015 em São Paulo, a iniciativa exibiu uma série de lmes que contam a história do movimento e, ao mesmo tempo, apresentavam ao público produções que estética e conceitualmente se inspiram nas propostas dos afrofuturistas. Reunindo documentários, cções e lmes experimentais, a mostra combinou elementos de cção cientíca histórica, fantasia, afrourbanidade e realismo fantástico, com cosmologias não ocidentais. Lançou luz sobre a diáspora África-América, presente no passado e ampliada no futuro.

Durante o evento, o tema também foi debatido a partir da sua transdisciplinaridade - no cinema, na música, na literatura e nas artes visuais. No debate que reuniu diferentes pensadores e defensores da negritude, a mostra adentrou as formas como os artistas e ativistas brasileiros dialogam com a estética e o conceito do Afrofuturismo.

Ao estimular a reexão sobre essa cinematograa, a pesquisadora destaca a inuência dos afrofuturistas ao longo das décadas. Investiga de qual maneira este encontro entre história, resgate da mitologia e cosmologias africanas, tecnologia e o inexplorado suscitam narrativas expressivas e libertadoras. Parte, assim, de um contexto real para elaborar toda uma simbologia crítica.

Em um exercício metalinguístico, o texto de apresentação da Mostra compara o processo de diáspora da população africana para o continente americano com a construção de uma narrativa de cção cientíca extraterrestre. Aponta como as populações negras do então chamado "novo mundo" são descendentes diretas de alienígenas sequestrados, levados de uma cultura para outra.

Estes antepassados, arrancados da terra natal, foram abduzidos como escravos. Na América, foram submetidos a um processo de constante apagamento das raízes. Separados das famílias e proibidos de falar a própria língua, viram-se impedidos de seguirem suas tradições. Seus descendentes, despossuídos da própria narrativa, continuam sendo caçados e assassinados pelo Estado e trancados em novas prisões.

Mais do que mais que previsões ou premonições do futuro, as narrativas afrofuturistas são formas especulativas de discutir o presente.

Raízes

O termo "Afrofuturismo" é creditado ao crítico cultural Mark Dery, que usou essa denominação para ilustrar o ensaio "Black to the Future", de 1994. Nesse estudo, descreve um grande número de análises desenvolvidas por universitários e artistas negros apreciadores de cção cientíca. Uma geração de realizadores que estavam revigorando as discussões sobre arte e mudança social através das lentes da ciência e da tecnologia nos anos 1980 e 1990.

Outros autores como Greg Tate, Mark Sinker e Kodwon Eshun mantinham perspectivas e interesses similares aos de Dery.

As raízes que desvendam este movimento brotam décadas antes. Ao precisar o Afrofuturismo enquanto um estudo losóco, as obras de realizadores como a lenda do jazz Sun Ra (1914-1993), o pioneiro do funk George Clinton e a autora de cção cientíca Octavia E. Butler (1947- 2006) passam a ser redescobertas e revalorizadas. Outra missão era resgatar as histórias ausentes de pessoas descendentes de negros e seus papéis na ciência, na tecnologia e na cção cientíca.

Inspiração

Um fato histórico é capaz de ilustrar essa necessidade de se investigar narrativas não só protagonizadas por negros mas também concebidas por autores e autoras negros. Em meio aos anos 1960, em pleno acirramento da famosa Corrida Espacial entre EUA e Rússia, uma notícia foi alvo de chacota e piada.

Precisamente em 1964, na Zâmbia recém-independente, o professor de ciências da Academia de Ciências e Tecnologia Espacial, Edward Makuka Nkoloso (1919-1989) tentou iniciar um programa espacial zambiano.

A missão incluía transportar 12 astronautas e dez gatos do País para a Lua e até Marte. Sem o devido cuidado, o projeto fracassou e cou nas margens da história. "Nós estamos indo para Marte", explicou o cientista em artigo publicado numa revista local. Um foguete já estaria pronto e só de dependeria de tempo e investimento de sete mil dólares - pedidos à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) - para que Lusaka se tornasse não só a capital zambiana, mas do universo. O aporte nanceiro jamais chegou e os primeiros passos de astronautas africanos na lua tornaram-se sonho distante.

Esta desventura nutriu o delicado ensaio fotográfico "Os Afronautas" (2012), da fotógrafa espanhola Cristina de Middel. Em entrevista à TV Folha, a realizadora explicou que seu trabalho foi uma forma de criar uma história positiva da África. "Confrontar as pessoas para que vejam africanos que sonham, que querem conseguir algo com que não se está acostumado. Pois há a ideia de que a África seja sempre retratada na imprensa como mortos de fome, guerras e toda uma miséria", explicou.

Inspirada nestes fatos reais, a cineasta ganense Frances Bodomo desenvolveu o curta-metragem "Afronautas". O filme foi uma das produções que integraram a mostra Afrofuturismo. Além de trabalhos de diferentes épocas, produzidos em nações como Estados Unidos, Reino Unido, Etiópia e Nigéria, a curadoria contemplou a produção brasileira com dois longas ("Branco Sai, Preto Fica", de Adirley Queirós; e "Bom Dia, Eternidade", de Rogério de Moura) e quatro curtas ("Beatitude", de Délio Freire; "Quintal", de André Novais Oliveira; "Rapsódia para um Homem Negro", de Gabriel Martins; e "Yansan", de Carlos Eduardo Nogueira).

Em 2018, uma produção hollywoodiana se lança como exploradora do Afrofuturismo. Programado para chegar aos cinemas do mundo em fevereiro próximo, o filme "Pantera Negra" desbrava as aventuras do personagem criado em 1966 por Stan Lee Jack "King" Kirby (1917- 1994). A jornada do príncipe T'Challa em defender o fictício reino de Wakanda se integra de vez ao Universo Cinematográfico Marvel.

Após os acontecimentos de "Capitão América: Guerra Civil" (2016), o jovem herdeiro volta a sua isolada e tecnologicamente avançada terra para assumir sua função como Rei. Porém, quando um antigo inimigo reaparece, sua coragem é testada quando ele é levado para um conito que coloca o destino de Wakanda e do mundo em risco.

Desafios

Sobre a perspectiva de "Pantera Negra" ampliar o leque de discussões ao redor do Afrofuturismo, Kênia Freitas argumenta que o movimento não vai se resumir ao lme da Marvel. "É legal pensar que o Afrofuturismo pode chegar a um público maior. Por exemplo, os gurinos do lme foram feitos à partir das expressões africanas, tudo se encaixa a partir de pessoas que estão trabalhando com esse universo a partir da perspectiva negra. É um momento bacana para o assunto entrar na roda".

Antes de encerrar a entrevista, a pesquisadora reete sobre o atual momento de realizadores afrofuturistas em território nacional. Ela cita uma série de criadores como a Senzala High tech, a literatura de Fábio Kabral e explica como o ambiente acadêmico tornou-se um espaço de discussão do assunto. A recente inclusão de jovens negros nas universidades públicas só melhora as discussões.

"Existe a pesquisa e mais estudantes negros na universidade querem discutir esse objeto através de dissertações e trabalhos de conclusão. Entretanto, ainda vivemos numa realidade de exclusão e violência racial no Brasil que é perversa. Daí, é claro que a arte deve pensar isso também. É um desao grande".

Referências:

Sun Ra

Considerado um dos pioneiros do movimento afrofuturista, Herman Poole Blount (1914-1993) foi o compositor de jazz, poeta e "lósofo cósmico" Sun Ra. Conhecido por sua "losoa cósmica" e performances, abandonou o nome de nascimento alegando que "Esta é uma pessoa imaginária, nunca existiu". O nome Sun Ra vem do inglês Sun, Sol, e Ra, o deus egípcio do Sol, o maior de todos os deuses daquela região.

Octavia E. Butler

Conhecida como "a grande dama da cção cientíca", Butler (1947-2006) foi a primeira autora mulher e negra a ganhar, ainda nos anos 1970, notoriedade no gênero até hoje predominantemente masculino e branco. Em 2017, "Kindred", seu quarto livro, ganhou versão brasileira 40 anos depois da publicação nos Estados Unidos. É a primeira obra da autora a chegar às livrarias do País.

Fábio Kabral

O carioca Fábio Kabral é autor de "Ritos de Passagem" (2014) e cofundador do site O Lado Negro da Força, que valoriza e fomenta a presença negra na cultura pop. Em seu livro "O Caçador Cibernético da Rua Treze", adentramos um rico universo fantástico. Nele, o jovem negro João Arolê caça espíritos malignos. Entre crises de consciência, torna-se herói quando ocorre uma série de assassinatos na cidade.

Parliament-Funkadelic

Durante o movimento black dos anos 1970, o Parliament-Funkadelic reunia apresentações explosivas e temas musicais que projetavam um futuro diferente daquele que a cultura branca idealizava. Liderados por George Clinton, inuenciaram numerosos grupos de música pós-disco e pós-punk das décadas seguintes. Nesse caldeirão sonoro contavam letras politicamente carregadas e losoa afrofuturista.

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