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67 Anos de Luiz Silva: conheça sua trajetória literária como pseudônimo de Cuti, escritor, poeta e dramaturgo brasileiro

Autor: Redação Literafro Data da postagem: 13:00 31/10/2018 Visualizacões: 2054
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67 Anos de Luiz Silva: conheça sua trajetória literária como pseudônimo de Cuti, escritor, poeta e dramaturgo brasileiro / Imagem: Reprodução - YouTube - Preto Tu

Um dos mais destacados intelectuais negros contemporâneos – poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta – Cuti, pseudônimo de Luiz Silva, nasceu na cidade de Ourinhos, São Paulo, em 31 de outubro de 1951. Formou-se em Letras pela USP em 1980. É Mestre e Doutor em Letras pela UNICAMP, tendo defendido dissertação sobre a obra de Cruz e Sousa, em 1999, e tese sobre Cruz e Sousa e Lima Barreto, em 2005. Militante da causa negra, é um dos fundadores e mantenedores da série Cadernos Negros, a qual dirigiu entre 1978 e 1993. É, também, um dos fundadores da ONG Quilombhoje Literatura, além de membro atuante entre os anos de 1983 e 1994. Desde então, faz questão de estar sempre nas edições anuais dos Cadernos, tanto em prosa como em poesia, apenas com uma exceção no número 17, publicado em 1994, do qual não participa. Cuti teve também atuação relevante no Jornegro, órgão da extinta Federação das Entidades Afro-brasileiras do Estado de São Paulo. A partir de 1978, esteve entre os organizadores de várias edições do FECONEZU – Festival Comunitário Negro Zumbi – realizados no interior do Estado.

O autor enquadra-se no perfil do intelectual moderno, atuando na criação, na crítica e no trabalho de agitação político-cultural junto à comunidade. Nesse sentido, ganham importância os questionamentos que faz aos conceitos de “Literatura afro-brasileira” e “Literatura afrodescendente”, formulados em palestras e artigos e reunidos no livro Literatura negro-brasileira, publicado em 2010. A militância marca sensivelmente as reflexões e a escrita do autor, como no trecho abaixo, apresentado no III Congresso de Cultura Negra das Américas, realizado na PUC São Paulo em 1982, e publicado no volume coletivo do Quilombhoje Reflexões sobre a literatura afro-brasileira.

Blitz no sentimento do negro é uma constante. Acusado de rancor, resta a alternativa de viver acuado em si mesmo, enquanto aprende as regras da vista grossa e do escamoteamento da expressão. Na pauta do permitido todos devem se esforçar para o sustento de todas as notas de hipocrisia nas relações raciais.

A bibliografia do “problema do branco” sobre o negro é imensa. Nela, como não podia deixar de ser, o negro é o problema. As exceções – sinal dos tempos! – estão aumentando, infelizmente, a regra, idem. Hoje há um dado considerável na transformação, a presença dos descendentes, mais visíveis, dos escravos. O texto escrito começa a trazer a marca de uma experiência de vida distinta do estabelecido. A emoção – inimiga dos pretensos intelectuais neutros – entra em campo, arrastando dores antigas e desatando silêncios enferrujados. É a poesia do negro brasileiro consciente. (CUTI, 1985, p. 16)

Em outra linha de atuação, o escritor empenha-se igualmente em atuar no resgate da memória do movimento negro. Em 1992, trouxe a público o volume E disse o velho militante José Correia Leite, fruto de um paciente trabalho de pesquisa em parceria com o biografado, liderança emblemática da Frente Negra Brasileira, que fez história na década de 1930.

Em seu livro Literatura negro-brasileira, Cuti, além de teorizar sobre a escrita negra e apresentar os principais grupos e autores, discorre com precisão sobre o contexto histórico do racismo no Brasil e sobre o papel da literatura no processo discriminatório:

A luta entre escravizados e escravizadores mudou sua roupagem no biombo do século XIX para o século XX, mas prossegue com suas escaramuças, porque a ideologia de hierarquia das raças continua [...].

Com a democracia jurídica, o esforço para alterar as mentalidades encontrou grande apoio, porém as noções cristalizadas de superioridade racial mantêm-se renitentes, e os argumentos de exclusão racista persistem para impedir a partilha do poder em um país étnica e racialmente plural. E a literatura é poder, poder de convencimento, de alimentar o imaginário, fonte inspiradora do pensamento e da ação. (CUTI, 2010, p. 12).

O autor explicita sua consciência de sujeito produtor de imagens e sentidos, sempre atento aos aspectos retóricos, ligados ao convencimento do leitor, presentes nas formulações discursivas. E deixa visível seu distanciamento dos conceitos de “arte autônoma” e/ou de “arte pela arte”:

Certa mordaça em torno da questão racial brasileira vem sendo rasgada por sucessivas gerações, mas sua fibra é forte, tecida nas instâncias do poder, e a literatura é um de seus fios que mais oferece resistência, pois, quando vibra, ainda entoa loas às ilusões de hierarquias congênitas para continuar alimentando, com seu veneno, o imaginário coletivo de todos os que dela se alimentam direta ou indiretamente. A literatura, pois, precisa de forte antídoto contra o racismo nela entranhado. (CUTI, 2010, p. 13).

O autor denuncia a existência de toda uma “formação discursiva, um jeito coletivo de encarar os fatos no tocante à questão racial”. E nela destaca o “sujeito étnico brancocêntrico” (2010, p.18, grifo do autor) presente na sociologia, na antropologia, na história e na literatura feitas em nosso país. Sujeito esse que chega ao século XXI “com forte poder de convencimento” (idem). Reflete em seguida sobre o legado do movimento modernista:

Já na segunda década do século XX, o Modernismo retoma veementemente as ideias de se caracterizar uma nacionalidade literária, buscando na população pobre e nos índios a sua inspiração. Mas desses segmentos sociais quer tão somente as manifestações folclóricas, não seus conflitos. Assim, encontra motivos para experimentações de linguagem restabelecimento de mitos, superstições, danças, músicas e religiosidade. (CUTI, 2010, p. 18).

O autor arremata seu pensamento mais adiante quando afirma:

a produção literária de negros e brancos, abordando as questões inerentes às relações inter-raciais, tem vieses diferentes por conta da subjetividade que a sustenta, em outras palavras, pelo lugar socioideológico de onde esses produzem. (CUTI, 2010, p. 33).

[...]

Os sentimentos mais profundos vividos pelos indivíduos negros são o aporte para a verossimilhança da literatura negro-brasileira. [...] O sujeito étnico negro do discurso enraíza-se, geralmente, no arsenal de memória do escritor negro. E a memória nos oferece não apenas cenas do passado, mas formas de pensar e sentir, além de experiências emocionais. (CUTI, 2010, p. 87, 89).

Ficam, pois, delineados os pontos de sustentação que constituem, na visão do autor, a vertente negra da literatura brasileira. Por sua vez, Maria Nazareth Soares Fonseca destaca a convivência, em sua obra, de uma forte tendência à experimentação formal em paralelo à construção de uma literatura “fazedora de cabeça”, como o próprio Cuti define em texto de 1986. E acrescenta:

A escrita literária explora com maior vigor a força do significante e se preocupa com os variados efeitos de sentido que as palavras podem suscitar. Mas o questionamento das estratégias que a sociedade brasileira elabora para fortalecer – ainda que através de subterfúgios – as facetas do racismo e do preconceito percorrem seus textos, muitas vezes, procurando não abafar o excelente trabalho com a linguagem que o escritor privilegia. (FONSECA, 2011, p. 12)

Deste modo, as questões inerentes à problemática das relações raciais no Brasil são constantes em sua atuação como intelectual, sobretudo no que toca ao combate às formas de preconceito e discriminação. Mas Cuti vai além e exerce importante papel ao refletir sobre a própria escrita, bem como de seus companheiros de projeto estético e literário. Além de poeta, contista e dramaturgo, revela-se um arguto estudioso da produção literária passada e presente. Autores como Luiz Gama, Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Lino Guedes e vários dentre os contemporâneos são objeto permanente de seu olhar atento às transformações das formas literárias no Brasil e no exterior.

Referências

CUTI. Literatura negra brasileira: notas a respeito de condicionamentos. In: QUILOMBHOJE (Org.) Reflexões sobre a literatura afro-brasileira. São Paulo: Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra Brasileira do Estado de São Paulo, 1995.

CUTI (Org.). E disse o velho militante José Correia Leite. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.

CUTI. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro Edições, 2010.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Cuti. In: DUARTE, Eduardo de Assis (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. v. 3, Contemporaneidade.

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