É preciso encrespar! Marcha influencia cabeças no Centro da cidade

Autor: Alexandre Lyrio Data da postagem: 13:00 12/12/2018 Visualizacões: 406
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Vanessa Borges, Mister Armeng e o pequeno Ayan: consciência racial transmitida em família / Foto: Mauro Akin Nassor - Reprodução - Correio 24 Horas

De volta às ruas neste domingo, Marcha do Empoderamento Crespo aposta na estética black como forma de encrespar contra o racismo

Assim como a ignorância, a conscientização é algo transmissível. Ontem, uma nova e poderosa maneira de conscientizar as pessoas sobre as lutas contra o racismo voltou às ruas pelo quarto ano consecutivo. Cada vez maior, com público estimado em 3 mil pessoas pela organização, a Marcha do Empoderamento Crespo mostrou que a força não está só no cabelo, mas principalmente na cabeça. É preciso influenciar cabeças e encrespar de vez contra ideias racistas.

Cerca de 3 mil pessoas participaram da Marcha do Empoderamento Crespo

É preciso fazer como a cantora Vanessa Borges e o rapper Maurício Souza, o Mister Armeng, que levaram o filhinho Ayan Oluwá, de 9 meses, para marchar com eles. “A gente já começou a passar o bastão, né?”, disse Armeng. “Criança é a base de tudo. Desde pequenininho, já estamos ensinando para ele que é preciso lutar contra o racismo”, emendou Vanessa, que fez uma participação cantando no carro de som da manifestação, que saiu do Campo Grande e seguiu até a Praça Castro Alves, com apresentações culturais dos mais diversos tipos.

As amigas Ana Beatriz Oliveira e Enale Taiane Souza

É preciso trazer o namorado para a luta. O casal Thiago da Silva e Giovana Oliveira, ele de 14 anos e ela de 17, mostra que o empoderamento crespo chega cada vez mais cedo. A ficha da luta contra o racismo tem caído dentro de cabeças cada vez mais jovens. Aliás, a quantidade de adolescentes e pré-adolescentes presentes na marcha é vista como um sinal de esperança. É preciso garantir o futuro de lutas. “A minha ficha só caiu quando a gente veio no ano passado. Agora, estou junto com ela nessa”, garante Thiago. "A gente tenta influenciar lá no bairro. É difícil, mas a gente não desiste", disse Giovana.

As namoradas Kahh Rangell e Jackeline Souza

É preciso fazer como a assistente social Tamires Cruz, 30 anos. Todos os dias, aproveita o momento de pentear o cabelo da pequena Lua, de 7 anos, para educá-la sobre autoestima e sobre como enfrentar um mundo que tentará diminuí-la. "Lá fora ela vai encontrar muitas dificuldades e muita gente dizendo que ela é inferior. Na hora de pentear, digo que o cabelo dela é lindo e que ela não deixe ninguém dizer que o cabelo dela é pior que os outros", afirma Tamires. 

A pequena Lua Cruz e sua mãe, Tamires Cruz

É preciso acreditar na força da estética black, que, nesse caso, está no cabelo. A Marcha do Empoderamento Crespo de Salvador é um movimento político, criado por nove mulheres, que faz referência ao uso do cabelo natural como expressão de resistência. O cabelo é o símbolo da valorização do corpo negro. Na marcha, ele é a metáfora que reverte as construções negativas deste corpo. Por isso, é preciso fazer como a antropóloga Naira Gomes, umas da fundadoras da Marcha, que teve sua primeira edição em 2015.

Teve muito cartaz empoderado

“O Brasil vive um racismo fenotípico, de imagem, de aparência. Se você parece negro, você é tratado como eles acham que o negro deve ser tratado. Cabelo, boca, nariz, cor da pele são alvos do racismo. Para nós, o cabelo é o grande símbolo, é a metáfora para o corpo inteiro, tanto o corpo físico como o simbólico", explica Naira. " O crespo significa emancipação política", confirma Ivy Guedes, outra idealizadora do movimento.

Mas a galera também se jogou na dança

Elas sabem que é preciso extrapolar a Marcha, que não se restringe mais às ruas. O grupo participa de eventos, visita escolas, comunidades de bairros, universidades e viaja pelos interiores para discutir o racismo, o enfrentamento ao racismo e a importância da estética negra. “Estamos em tudo o que perpassa a experiência da mulher negra”, confirma Naira. Por isso, é preciso entrar em outras causas. A marcha levanta uma série de discussões que dizem respeito ao estado de opressão vivido por outras minorias. "Para enfrentar o racismo, é preciso enfrentar não só o racismo, mas também o machismo, a homofobia, a transfobia e outras formas de opressão", disse Fabya Reis, secretária de Promoção da Igualdade Racial da Bahia.

Foto de Mauro Akin Nassor

O casal Kahh Rangell, 23 anos, e Jackeline Souza, 22, sabe disso. Além de negras, gays. "É muito mais difícil. Enfrento problema por causa do cabelo, enfrento problema porque tenho uma namorada e não um namorado. Ficamos muito vigilantes e tomamos todos os cuidados. É tanta violência que a gente vê por aí...", disse Jackeline. Apesar de ter iniciado como um movimento de mulheres, a Marcha do Empoderamento Crespo convoca também os homens a lutar. Tanto que a marcha deste ano teve o seguinte tema: Feminismos e Masculinidades, por uma agenda de Emancipação Crespa".

Foto de Mauro Akin Nassor

"Não nos interessam masculinidades tóxicas. Estamos chamando os homens para chegar chegando neste debate. A gente conta com vocês para enfrentar o racismo e o machismo", disse Vilma Reis, ouvidora geral do Ministério Público da Bahia, em seu discurso durante a manifestação.

Por fim, a certeza de que é preciso usar a Internet, onde nasceu a própria Marcha. Foi fundada e potencializada nas redes sociais. Hoje, a marcha conta com quase 13 mil membros participantes. “É a nossa principal ferramenta para aglutinar as pessoas”, confirma Naira. Aglutinar e influenciar. O grande desafio é fazer com que a conscientização seja transmitida em escala maior que a ignorância.

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