Angélica e Carmen, a dupla leva que música clássica para fora das salas de concerto

Autor: RYOT Studio e CUBOCC Data da postagem: 17:00 08/02/2019 Visualizacões: 443
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Angélica e Carmen estão na 333ª história do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil. / Foto: Caroline Lima - Huffpost Brasil - Divulgação - Reprodução

Criadoras da Duoessence lutam para trabalhar profissionalmente com o que mais amam: o poder da música em emocionar.

Sabem que chamam atenção. Chegam tranquilas, mas não tão discretas. Duas mulheres jovens com instrumentos clássicos dentro do vagão do metrô em São Paulo. Geram olhares e algumas perguntas entre as freadas, paradas e solavancos do trem. Mas no fim das contas, acham tudo isso ótimo. “Estamos com um contrabaixo e um violino, que até tem mais alcance, mas o meu pouca gente conhece, as pessoas se assustam, perguntam que instrumento é e acaba sendo um modo de apresentar e levar algo da música instrumental para quem não tem acesso porque não é todo mundo que anda de metrô que vai a teatro, concerto”, explica Angélica Ribeiro, 25 anos, contrabaixista. Há pouco menos de um ano ela e a violinista Carmen Aguilar, 19 anos, começaram a somar suas notas musicais no transporte público da cidade.

As duas já tinham tocado na rua antes, mas estavam querendo algo diferente. E no vagão nasceu a dupla – e a amizade delas. “A gente se conheceu fazendo vagão, nunca tínhamos conversado e fomos apresentadas por um amigo em comum. Aí, no meio do ‘vuco vuco’ do vagão a gente foi conversando e se apresentando para a outra”, lembra Carmen. Disso nasceu a Duoessence e a vontade dessas musicistas em formação, como se definem, de levar o trabalho que fazem a pessoas que talvez não tivessem acesso e de diversificar as possibilidades de apresentação. Dois grandes desafios.

"As pessoas se assustam e é um modo de apresentar e levar algo da música instrumental para quem não tem acesso porque não é todo mundo que anda de metrô que vai a teatro, concerto."Angélica

Da vontade de levar o trabalho que fazem a pessoas que talvez não tivessem acesso nasceu a Duoessence. / Foto: Caroline Lima - Huffpost Brasil - Divulgação - Reprodução

Mas vão com calma, seguindo as pausas necessárias. No metrô, fazem mais músicas populares, mas somente instrumentais. Querem, aos poucos, apresentar trechos de músicas clássicas também. Mas o grande objetivo é conseguir tocar, de alguma forma, os ouvintes. E é isso que mais incentivam as duas no dia a dia. “Nos alimenta receber um sorriso, um choro, porque a música tem isso de ser um sentimento inexplicável, uma música é tocante para alguém e transmitir uma música é fazer ela sentir o que é bom para ela. É saber que ela sente aquela música daquele jeito”, diz Carmen. Angélica também acredita nesse poder que uma apresentação pode ter. “Cada música tem um significado para as pessoas. A gente toca Asa Branca e muita gente que vem do nordeste se emociona porque tem lembranças e a pessoa consegue sentir isso. É uma das músicas mais pedidas no vagão, todo mundo gosta”.  

Fora isso, é uma forma importante de dar experiência para as duas e de ajudar na tarefa de viver de arte. A dupla sabe das dificuldades do meio e enxergam o vagão como um palco importante hoje em dia. “A gente precisa disso porque não tem valorização da cultura, as orquestras estão acabando e não temos muita área de trabalho e precisamos ter outros meios de mostrar o que fazemos. Eu pago minha faculdade com o vagão. Tem músicos que são pais de família, que sustentam a família inteira com o trabalho em vagão”, avalia Carmen.

"A gente precisa do vagão porque não tem valorização da cultura, as orquestras estão acabando e não temos muita área de trabalho e precisamos ter outros meios de mostrar o que fazemos. Eu pago minha faculdade com o vagão."Carmen

No metrô, fazem mais músicas populares, mas somente instrumentais. / Foto: Caroline Lima - Huffpost Brasil - Divulgação - Reprodução

Para Angélica, a experiência também ajudou a ampliar o olhar sobre o papel do artista. “Eu achava que trabalhar na rua desvalorizava o trabalho do instrumentista e quando eu comecei eu gostei bastante porque tenho mais contato com a pessoa. Em um teatro eu toco e não consigo ver o que estou transmitindo porque estou com 50, 60, 70 músicos em volta e não consigo olhar para a plateia e no vagão é outra experiência. Amo concerto, mas tenho mais contato no vagão, vejo a pessoa se emocionar, falam que a apresentação mudou o dia delas e isso mexe comigo, vejo que faço algo mesmo”, comemora.

Mas é claro que nem sempre é fácil. As duas enfrentam alguns comentários preconceituosos e, por vezes, atritos com seguranças e vendedores ambulantes no vagão que se incomodam com a presença da dupla. Chegam a ouvir ameaças de que vão quebrar os instrumentos e ofensas. “Não são todos, mas tem quem se incomode com a gente fazendo arte. Ainda chamam artistas de rua de vagabundo e não sabem como é preciso estudar. [Quem fala isso] são pessoas que não valorizam a arte. Não precisam gostar do trabalho, mas arte é importante”, defende Angélica. Mas tem dias que são surpreendidas também. Carmen lembra que já recebeu elogios de guardas quando achou que ia ser xingada. “Ele veio falar que era incrível o que eu fazia e ficou admirando”.

"Não são todos, mas tem quem se incomode com a gente fazendo arte. Ainda chamam artistas de rua de vagabundo e não sabem como é preciso estudar."Angélica

As duas enfrentam alguns comentários preconceituosos e, por vezes, atritos com seguranças e vendedores ambulantes no metrô de São Paulo. / Foto: Caroline Lima - Huffpost Brasil - Divulgação - Reprodução

E não a toa. As duas estudam muito para poder fazer o que fazem. Carmen está no instrumento desde os 11 anos, por incentivo do pai. Apaixonou-se por violino e nunca mais parou. “Eu tive incentivo da família, o que nem sempre acontece. É difícil, já pensei em desistir porque não tem muitos recursos, não tem estabilidade. Mas sempre tive muito apoio e pretendo dar aula e ser uma instrumentista profissional”.

"Já pensei em desistir porque não tem muitos recursos. É um pouco triste, não tem estabilidade. Mas sempre tive muito apoio e pretendo dar aula e ser uma instrumentista profissional."Carmen

Carmen, à esquerda, toca violino desde os 11 anos. Angélica, à direita, desde os 17 anos. / Foto: Caroline Lima - Huffpost Brasil - Divulgação - Reprodução

Angélica começou na área em uma idade já considerada muito avançada para o instrumento. Foi aos 17 anos. “Sempre amei a vida artística, queria ser dançarina e não tive apoio familiar e participei de um coro na escola e me interessei por música e aprendei a amar o instrumento, mas eu não tinha acesso. Não sabia o que era um violino, um contrabaixo então...” Mas depois que descobriu, muita coisa mudou. Hoje, além de estudar em um conservatório da cidade, Angélica faz parte da orquestra jovem de Guarulhos.

E batalham assim para continuar a serem ouvidas. Tem dado certo. Podem dizer, com tranquilidade, que são notadas – e não só pelo inusitado de entrarem em um vagão com um violino e um contrabaixo. Mas porque conseguem, por meio deles, emocionar as pessoas. Pode até ser que o trem balance no caminho. Mas o palco continua ali. É só disso que elas precisam.

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