Cinema joga luz em escritor negro e gay que marchou pelos direitos civis

Autor: Folha de São Paulo Data da postagem: 19:00 11/02/2019 Visualizacões: 177
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
O escritor James Baldwin em retrato feito em 1964 / Foto: Jean-Régis Roustan - Roger-Viollet - Divulgação - Reprodução

É a cadeia a grande agrura da trama. Tish e Fonny são jovens namorados que se conheceram ainda pequenos no Harlem. Ao se mudar para o Village, área de maioria branca em plena ebulição da contracultura, o rapaz acaba sendo incriminado por um policial racista, que o acusa do estupro de uma imigrante latina.

Tish, a narradora, está grávida. Por meio das observações da moça sobre o entorno —os abismos da cidade, o papel da religião na comunidade, a rotina das famílias negras—, o escritor trata da desigualdade que perdura mesmo após o fim da a segregação racial.

É natural que um romances desses tenha chegado às mãos do cineasta Barry Jenkins. Seus filmes anteriores, como o vencedor do Oscar “Moonlight”, mostram preocupação em apreender as várias camadas da vivência dos descendentes de africanos nos EUA.

No longa premiado, ele desconstrói estereótipos da masculinidade, valendo-se do signo do “gangsta”, o estilo que flerta com a marginalidade, embutido em um traficante homossexual criado num bairro depauperado de Miami.

Cenas do filme 'Se a Rua Beale Falasse' / Foto: Reprodução - Divulgação

É um esforço que marca a produção de diretores negros surgidos nas últimas décadas, como Dee Rees (“Pariah”, “Mudbound”) e Rashaad Ernesto Green (“Gun Hill Road”), e que, não por acaso, foram alunos de Spike Lee na Universidade de Nova York.

No filme de Jenkins, KiKi Layne e Stephan James interpretam o casal central da trama. Regina King, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante pelo papel, faz a mãe de Tish, Sharon, a sogra que assume a função de provar a inocência de Fonny enquanto a mãe dele sucumbe à religiosidade.

Após interpretar Tish, Layne foi escalada para “Native Son”, recém-exibido em Sundance, outro longa inspirado na obra de conhecido escritor negro, Richard Wright. A história, que fala sobre um rapaz que comete assassinato após ser acossado pelo racismo estrutural, produziu impacto em James Baldwin.

Seu livro de ensaios mais famoso, “Notes on a Native Son”, que em breve será publicado no Brasil, faz referência ao romance de Wright, que o autor chamava de “estereotipado”.

Para “Se a Rua Beale Falasse”, Barry Jenkins trocou o hiper-saturado das ruas banhadas pelo sol da Flórida de “Moonlight” por um registro outonal de Manhattan e suas casas de tijolo, as “brownstones” imortalizadas nas fotografias de Roy DeCarava, apelidado de Cartier-Bresson do Harlem.

Com o bairro cada vez menos negro, fruto da gentrificação que modificou o horizonte da cidade, o diretor disse ter penado para achar rastros da Nova York de Baldwin. Ficou restrito a algumas ruas.

Pouco restava daquilo que ele tinha lido nas páginas do livro: os bares de esquina em que as balconistas eram galanteadas, as janelas de onde as mães gritavam pelos filhos e as barbearias onde as garrafas passavam de mão em mão.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: