COMUNICADO

LEIA

Festival de contos “Lamparina de Histórias” destaca o valor do narrar na cultura afro

Autor: Diego Barbosa Data da postagem: 12:00 21/02/2019 Visualizacões: 588
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Evento tem primeira edição internacional neste ano com programação no CCBNB, em Fortaleza / Foto: Divulgação - Reprodução

Acesa há mais de uma década e cada vez mais vigorosa: assim é a luz que brota do Festival de Contos “Lamparina de Histórias”.

O evento – cujo início foi ontem (14), no Pecém, e segue nesta sexta-feira (15) e sábado (16) com programação no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza – comemora o aniversário de 11 anos estreando a edição em que se torna internacional.

Para a festa, a homenagem contempla a tradição oral africana e a cultura afro-brasileira, tendo como um dos destaques a presença de Boniface Ofogo, que oportunizou o novo formato do projeto.

Abaixo, ouça trechos de histórias narradas por artistas convidadas para o festival:

Natural de Camarões, país localizado na África Central, o escritor e narrador participará de três momentos no festival, ampliando as perspectivas sobre o narrar no continente africano.

Em entrevista por e-mail, Ofogo – que desde 2005 tem visitado frequentemente o Brasil em palestras e encontros pelo País afora – comenta que o Lamparina firma-se como um importante evento para a nação, especialmente considerando o momento político pelo qual atravessa.

“Nunca pensei que o Brasil poderia se perder tanto, tendo em vista que é o país mais diversificado do mundo. A arte de contar histórias pode ajudar as pessoas, então, a recuperar a sensatez perdida”, destaca.

“Os contos fazem pensar, transmitem um sentimento de equilíbrio e de tolerância. É a filosofia mais profunda dos povos. Neste momento, o Brasil necessita mirar em seu passado, sua história, para saber para onde vai”, completa.

Detalhes

Sublinhando que, em seu interior, “traz o espírito da África, uma cultura muito presente no Brasil”, Boniface dá detalhes do que realizará em cada uma das atividades nas quais estará à frente no festival.

No bate-papo “Raízes dos contos africanos no mundo”, o escritor trabalhará a universalidade dos contos africanos, em como eles têm influenciado as literaturas orais de todo o mundo.

Boniface Ofogo é a presença estrangeira confirmada para o festival

Por sua vez, na oficina “Como se forma um contador de histórias na África”, ele dará destaque à vigência da oralidade nas culturas africanas e como, desde muito pequenos, os africanos aprendem a contar histórias.

“É uma iniciação que dura toda a vida e os anciãos ocupam um papel muito importante”, conta. “Na África, quando morre um ancião, é uma biblioteca que se queima”.

Finalizando as atividades, no espetáculo “O elefante que perdeu seu olho”Boniface convida o público a realizar uma viagem inicial pelo continente de onde vem, seguindo os passos de um elefante que perdeu o olho. “Ao perder seu olho, o animal perde também a calma. Até que aprende que apenas com calma poderá recuperar o que perdeu”.

Amplitude

Além de Boniface, outros convidados para além da fronteira cearense estarão à frente de atividades. A escritora e arte-educadora Madu Costa (MG) e a narradora Linete Matias (AL) integram esse time.

Madu Costa (MG) participará de três momentos durante o evento

A primeira atribui dimensão ao verbo narrado ao evocar a relevância do conteúdo que será repassado ao público. “A palavra é uma arma poderosa. Precisamos utilizá-la para denunciar, gritar, reivindicar e esse momento é totalmente favorável para que esse grito soe diuturnamente”, afirma Madu, que participará de bate-papo, fará contação de histórias sobre orixás femininas e lançará o livro “Outra vez Mariana”.

“Os movimentos negros e nós, negras e negros, já estamos bem mais conscientes de que a luta é nossa. Na verdade, é do povo brasileiro como um todo, mas quem vai puxar somos nós. Eu, como escritora e arte-educadora, tenho como militância a minha produção literária, minha contação de história, o meu próprio corpo, com meu cabelo natural, minha fala, minha pesquisa e forma de espalhar essa verdade de que somos afro-brasileiros, somos afro-descendentes, e que a África está muito viva em nós. Não tem como frear ou negar isso”, complementa.

São verdades que se refletem nas mãos, olhos e boca: tudo vira instrumento para que as narrativas vistam-se de luz. “Quando eu vou contar histórias africanas ou afro-brasileiras, eu procuro vestir uma roupa que remeta ao imaginário africano. Uso um turbante, uma roupa colorida, colar, pulseiras, e uso muito o recurso de mudar a voz para chamar a atenção para um ou outro personagem e outros recursos que eu não vou contar agora para deixar um pouquinho de expectativas para a minha apresentação”, brinca.

Relevância

Linete Matias (AL), ao refletir sobre as mesmas questões, sublinha que “falar da cultura africana em tempos de tanta intolerância é fundamental para que os ouvintes e falantes desse festival rememorem os saberes e belezas do povo que foi e ainda é base de nosso povo”.

Linete Matias contará a história "Encantados das Águas" Foto: Benita Photos

Ela estará à frente da contação de histórias intitulada “Encantados das águas”, em que rememora a infância vivenciada às margens do Rio São Francisco. “Hoje, essa narrativa tem o objetivo de relembrar esse rio tão poderoso, que dominava o mar. Na foz do São Francisco, chegava a entrar 10, 20, 50 metros de rio dentro do mar e a gente conseguia tomar água doce dentro do oceano. Hoje é o processo inverso”.

“Encantado das águas”, então, é o manifesto de Linete, forma de educar ambientalmente e deixar a memória, especialmente a do Rio, viva. Com larga experiência no ofício que executa, a narradora conta qual o retorno que tem recebido pelas incursões que faz pelo Brasil realizando seu trabalho.

“Algumas pessoas chegam depois do processo da narração e dizem que estavam comigo sentadas na esteira, na porta da minha casa. Ou que estavam pescando, mergulhando comigo no rio. Quando tenho esse retorno, sinto e sei que realizei o meu ofício. É o retorno que eu mais gosto de ouvir. E o narrador sabe quando as pessoas mergulharam na história. Quando isso acontece, digo: ‘Hoje realmente eu fui instrumento para a palavra. E a palavra chegou, então que bom’".

Amplitude

Júlia Barros, narradora e educadora que idealizou o festival em 2008, explica que a escolha pela temática se deu pela relevância do legado africano.

“A cultura desses povos é muito rica e diz muito sobre nossa história. A África está em nosso sangue, acho que é muito justo reverenciar essa cultura tão nossa”, sublinha.

Ao mesmo tempo, dá dimensão da satisfação em observar o crescimento de um evento que nasceu sob sua tutela. “Eu sou uma pessoa muito positiva, mas confesso que não imaginei que o projeto ia ter uma vida tão longa e tão bonita como essa. Estou super orgulhosa, especialmente por todas as pessoas que já passaram pelo Lamparina de Histórias”.

“Esse projeto não é meu, é de todos os narradores daqui do Estado do Ceará e dos que chegam junto conosco. São eles que me dão força e que movimentam, fazem todo esse pulsar que é o festival”, completa.

Não à toa, diferentes africanidades integrarão o evento. Feirinha, espetáculos teatrais, oficinas, bate-papos e apresentações de bandas e grupos de dança marcarão os dois dias de programação por aqui.

Serviço

Festival Internacional de Contos “Lamparina de Histórias”
Nesta sexta-feira (15) e sábado (16), das 10h às 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste (Rua Conde D’Eu, 560, Centro). Gratuito. Contato: (85) 3252-3343

Programação

  • Dia 15 de fevereiro (sexta-feira)

10h às 19h - Feirinha Criativa
10h - Maratona de Contos Africanos (UNILAB)
12h - Apresentação da Banda Cabaçal Palmares
14h - Contação de histórias com Linete Matias (AL)
15h - Bate-papo com Hilário Ferreira (CE), Madu Costa (MG) e Boniface Ofogo (Camarões)
16h30 - Apresentação do Maracatu Rei Zumbi
18h - Contação de histórias com Madu Costa (MG)

  • Dia 16 de fevereiro (sábado)

10h às 19h - Feirinha Criativa
10h - Maratona de Contos Africanos (UNILAB)
12h - Grupo de dança Vozes d’África
14h - Oficina com Boniface Ofogo
15h - Espetáculo teatral da Cia Camarim de Teatro
16h - Lançamento do livro “Outra vez Mariana”, de Madu Costa (MG)
17h - Contação de histórias com Boniface Ofogo
18h - Apresentação do Tambor de Crioula Filhos do Sol

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: