“O samba foi e ainda é fomentado em grandes frentes femininas”

Autor: Carta Capital Data da postagem: 13:00 14/03/2019 Visualizacões: 79
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Samba de Roda do Recôncavo Baiano / Foto: Reprodução - Festa de Casamento

A coleção Sambas Escritos, formada por quatro livros, oferece um panorama rico do ritmo e da cultura negra

A coleção Sambas Escritos (Editora Pólen) oferece um panorama rico do samba e da cultura negra. O conjunto com quatro livros é um dos grandes lançamentos recentes sobre o gênero e seu contexto histórico, com ênfase na participação da mulher negra na consolidação da manifestação popular.

“O projeto foi todo estruturado na presença de mulheres negras. O que notamos ao longo de nossas ações e ativismos é de que, para nós, mulheres negras, além da história, do racismo e do machismo destituírem a nossa humanidade, também nos tiraram o direito de produção intelectual”, expõe uma das três organizadoras da coleção, a mestranda em Estudos Culturais, jornalista e produtora, Maitê Freitas.

Para ela, o samba não foge a esse processo de marginalização. “Sem a presença feminina não há samba”, afirma.

A coleção conta com texto de 84 autores, sendo 67 de mulheres negras. Formam a coleção quatro livros: Desde que o samba é SampaSambas e dissembasMassembas de Ialodês: vozes femininas em roda e Samba em primeira pessoa.

A segunda organizadora da coleção, a especialista em História da África e Cultura Afro-Brasileira, Carmen Faustino, explica que o “o samba foi e ainda é fomentado em grandes frentes femininas”.

As tias baianas – como a Ciata – que se se instalaram no fim do século 19 no Rio de Janeiro, com suas casas funcionando como centro de expressividades e manifestações de matrizes africanas, dão início à jornada das mulheres negras no samba, passando pelas inesquecíveis Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e muitas outras, até as rodas atuais nas comunidades cuja presença da mulher é fundamental para sua realização.

“Muitas das artistas do samba, para além de cantar, dançar ou compor, se encarregam também de toda uma articulação e trabalho para que o samba aconteça”, conta Carmen. “E mesmo atuante em várias iniciativas, o reconhecimento ainda é negado às mulheres.”   

Tia Dodô e Madrinha Eunice

No texto de Angélica Ferrarez, no livro da coleção Massembas de Ialodês, traz-se um resgate importante: Tia Dodô, porta-bandeira aos 14 anos da Portela em 1935, quando a agremiação ganhou o primeiro título. Falecida em 2015, foi por décadas referência viva do desenvolvimento da escola de samba na sua presença na comunidade, muito além do Carnaval.

Outra referência nessa linha é tratada no mesmo livro da coleção, só que dessa vez por Ligia Fernandes e Coletivo de Mulheres do Kolombolo diá Piratininga. Trata-se da Madrinha Eunice, uma das fundadoras da escola de samba mais antiga de São Paulo: a Lavapés.

Em outra direção da Tia Dodô, criada no Morro da Providência no Rio, um dos berços do samba urbano carioca, Madrinha Eunice frequentava os batuques de Bom Jesus de Pirapora (SP), origem do samba rural e referência do samba paulista.

Um fato importante da coleção é a transcendência dos estudos sobre o assunto além do eixo Rio-São Paulo. Das diversas menções na coleção ao Recôncavo Baiano, local precursor do samba como conhecemos hoje, cita-se o trabalho de Suane Brazão, no livro Sambas e dissembas, aos festejos de marabaixo, o carnaval quilombola do Amapá.

Primeira pessoa

O livro Samba em primeira pessoa apresenta texto de mulheres negras no fortalecimento da cultura e do samba. A crueza dos relatos mostra, ao mesmo tempo, as dificuldades de afirmação em uma sociedade de preconceitos e a força da resistência.

Essa publicação em primeira pessoa é um compilado de textos e poesias produzidas por mulheres negras que participaram de um ciclo de oficinas, que envolveu canto e escrita.

O conjunto literário Sambas Escritos se originou do livro da coleção Desde que o samba é Sampa, textos com um dessecamento do gênero em São Paulo, parte escrita por personagens que circulam com desenvoltura pelas rodas da cidade – vozes atentas às reais demandas e dificuldades da rica manifestação cultural.

De acordo com a terceira e última organizadora da coleção, Patrícia Vaz, jornalista e mestre em Imagem e Som, O Coletivo Samba Sampa e o projeto Desde que o Samba é Sampa já vêm pesquisando a história e memórias do samba no Estado de São Paulo desde 2012.

“Ao longo desses anos foi possível conhecer uma gama de pessoas incríveis, que trabalham com samba na cidade e interior. Então, de certa forma, já tínhamos em mente alguns nomes que gostaríamos de reunir para a coleção”, explica Patrícia.

Durante o período de produção da coleção, ela conta que quando Leci Brandão enviou seu texto, com ele, “milagrosamente” (risos) vários autores que não tinham ainda respondido, enviaram seus textos. “Por isso, brincamos que Dona Leci é a ‘madrinha da coleção’”.

Patrícia Vaz, no entanto, enfatiza: “Os desafios são imensos e diários, mas não paralisantes”. Segundo ela, o mercado editorial também precisa reconhecer a importância das mulheres negras.

“Quando convidamos uma mulher negra para contar sua história ou publicar suas poesias, músicas e pesquisas, estamos falando de ocupar um espaço comumente negado a elas”, diz.

Nos primeiros convites para algumas mulheres enviarem textos, as três organizadoras tiveram respostas de medo, apesar do desejo de se expressarem.

“Cada pessoa carrega um mundo de histórias e vivências, mas é olhando o que nos angustia que, no futuro, podemos ajudar às próximas gerações”, conclui Patrícia.

Mangueira

A vitória da Mangueira no Carnaval do Rio reacende de certa forma o histórico envolvimento do samba contra a opressão – e a coleção Sambas Escritos é acima de tudo um brado de resistência.

Maitê Freitas analisa esse momento: “O samba-enredo e o desfile da Mangueira trouxe de forma contundente e bela uma contranarrativa, tensionando com as páginas oficiais da história que coloca negros e indígenas como coadjuvantes da construção deste país. É um samba que cria tensão com vários aspectos da história brasileira e que ao ser cantando, além de uma catarse coletiva, provoca a reflexão de qual história não queremos mais ver replicada e qual história queremos contar”.

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