Brasil, chegou a vez

Autor: Bruna Toni Data da postagem: 14:00 14/03/2019 Visualizacões: 312
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Brasil, chegou a vez / Foto: Reprodução - Scala Rio

'A história que a história não conta', tema do samba-enredo da Mangueira, está por todo o País: fui conhecer parte dela em Tiradentes

Um coração azul e branco pode se transformar em verde e rosa vez ou outra. Não me leve a mal você que é Portela, assim como eu, ou você que considera um desaforo mudar de escola, de time, de opinião. Às vezes, as circunstâncias exigem um abre-alas para algo diferente do que estamos acostumados. Pois foi assim que me senti quando, ainda no ano passado, ouvi o samba da Mangueira. E quando vi a Estação Primeira atravessar a Sapucaí neste 2019 não me arrependi. Aquele era mesmo o samba campeão.

Levar à avenida “a história que a história não conta”, em tempos de contestações sobre o próprio papel do ensino e do estudo de História, como disciplina mas, sobretudo, como forma de compreensão da vida humana e do mundo, foi um ato de coragem. Ao longo de 75 minutos, sob a forma de alegorias criativas e inteligentes, a Mangueira fez das arquibancadas do sambódromo carioca uma sala de aula viva, intensa, necessária, de arrepiar.

O samba da Mangueira, contudo, não é o único a contar um pouco daquilo que os documentos e livros oficiais muitas vezes não contam – porque, obviamente, os sujeitos que os produziram decidiram assim. Duas semanas atrás, na cidade histórica mineira de Tiradentes, por exemplo, fui apresentada a muitas histórias que não estão registradas ou que ainda são de difícil acesso mesmo a pesquisadores, por terem sido negligenciadas pelos grupos sociais e políticos à frente da produção de narrativas no País durante anos.

Em geral, histórias de mulheres e homens negros escravizados. Histórias de Marias, Marielles, Mahins e malês.

Congada

Uma dessas histórias chegou a mim por meio das palavras de Mestre Prego, o primeiro capitão da congada tiradentina. À procura de lugares onde fosse possível conhecer mais sobre a trajetória da população negra e afrodescendente na região, fui parar na casa deste senhor com energia impactante.

Antes de nossa conversa, pouco sabia sobre a congada, manifestação folclórica brasileira cujas origens exatas são de difícil precisão, mas que historiadores e participantes consideram estar presente desde o Brasil colonial.

O festejo é ainda atribuído à figura de Chico Rei e, desde o início, associado às irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Nessas irmandades, diferentes nacionalidades africanas se encontravam, dando corpo ao sincretismo religioso entre o catolicismo dos brancos e as figuras e ritos sagrados trazidos pelos negros.

À frente do cortejo, a imagem de Nossa Senhora do Rosário segue em um dos mastros e, num segundo, está a imagem do santo particular de cada grupo. Em Tiradentes, Mestre Prego trouxe a figura de Santa Efigênia para a conversa.

Para louvar, para agradecer, para criticar, para contar as dores do cotidiano, cantam e dançam ao som das batidas de tambores e do chacoalhar das gingas. Parte da nossa história está nesse festejo autenticamente brasileiro.

Há também hierarquia e muita organização dentro de um grupo de congada. Como o tema da bateria da Mangueira mostrou, trata-se de ressaltar não só a força, mas a sapiência de negras e negros nas manifestações culturais.

Mineiro de outras partes, Mestre Prego diz que foi um chamado que o levou a Tiradentes e que o fez resgatar a tradição familiar de guardas de congo. Enquanto posiciona o tambor no corpo, prestes a tocá-lo, diz que ainda persistem os preconceitos: “acham que é macumba”.

É na luta que a gente se encontra, disse a Mangueira. Luta para que essa cultura sobreviva, para que seus sujeitos não sejam esquecidos, tampouco oprimidos. Mestre Prego, como tantos outros, é dono de uma sabedoria que só mostra o quanto a história precisa ser recontada e continuamente aprendida.

E se não há registros escritos, que busquemos na tradição oral. Brasil, chegou a vez de ouvir.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: