Estética do Afrofuturismo inspira artistas visuais no Recife

Autor: Emannuel Bento Data da postagem: 12:00 12/04/2019 Visualizacões: 325
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Estética do Afrofuturismo inspira artistas visuais no Recife / Fotos: Marlon Diego - Divulgação, Bruna Costa - Esp. DP e Bia Rodrigues - Divulgação

Corrente cultural e filosófica combina elementos de arte africana, ficção científica e tecnologia para exprimir o desejo por uma realidade utópica, onde preconceitos raciais não existem

As viagens lisérgicas da década de 1960 propiciaram um período fértil para cultura, tecnologia e movimentos sociais. Mergulhado nesse contexto de psicodelia e ativismo pelos direitos da população negra dos Estados Unidos, o músico afro-americano San Ra teve um sonho. Seu corpo viajava de Chicago até um planeta de tecnologia avançada, composto por uma população negra que não havia sido escravizada ou colonizada. A experiência cósmica transbordou da utopia e influenciou a produção de um jazz progressivo, com estética visual que evoca um negro futurista e espacial.

Essa perspectiva influenciou outros artistas, incluindo nomes do hip hop como Afrika Bambaataa. Apenas na década de 1990 que o crítico musical Mark Dery, branco, categorizou o movimento como “afrofuturismo”: uma estética cultural e filosófica que permeia várias linguagens artísticas, combinando elementos da ficção científica e da arte africana para exprimir desejo por uma realidade utópica, onde preconceitos não existem. Em meados dos anos 2010, o termo começou a pautar a cultura pop com álbuns das norte-americanas Janelle Monáe e Solange Knowles, além de figurinos e cenários do filme Pantera negra (2018) - afinal, o universo de Wakanda lembra bem aquele planeta do sonho de San Ra.

San Ra. Foto: Reprodução da Internet

A chegada no mainstream também esbarra com o surgimento de artistas que exploram o afrofuturismo em outras territorialidades onde as desigualdades de raça continuam prevalecendo, como no Brasil. São jovens cosmopolitas que, conectados na rede global da internet, absorvem referências e usam as plataformas digitais para propagar arte e discursos empoderadores. No Recife, existem exemplos de afrofuturismo ligados às artes plásticas.

Os retratos de Furmiga

 

Retratos de Furmiga / Foto: Bruna Costa - Esp. DP

Gabriel de Souza Silva, 21, assina como Furmiga e ingressou no curso de design na UFPE em 2015. Começou a pesquisar sobre negritude através de elementos não-tradicionais das artes plásticas na internet. O morador do bairro da Mustardinha, Zona Oeste, conheceu nomes de São Paulo e outras capitais globais, descobrindo as possibilidades estéticas do afrofuturismo.

"Comecei a desenvolver traços que, em geral, são retratos do meu corpo, mas sempre buscando destruir estereótipos negativos ligados ao corpo negro. Trago elementos da ficção científica, por isso os rostos têm um caráter meio ‘alienígena’. Também gosto de elementos da moda e imagino essas figuras como corpos de combate, algo que podemos encontrar no cyberpunk.”

Artista visual mora na Mustradinha, Zona Oeste do Recife / Foto: Bruna Costa - Esp. DP

Gabriel começou desenhando em papel A3 e fazendo pinturas digitais, mas também faz trabalhos em telas e intervenções em fotografias. “Tento sempre trazer os rostos em uma espécie de padrão de texturas e traços fluídos. Por isso, gosto muito de pintar escutando música. Os ritmos me ajudam a criar uma espécie de alfabeto visual”, conta. "Acredito que idealizar uma nova realidade através do afrofuturismo nos faz pensar num futuro não somente acolhedor aos corpos negros, mas também para outras sexualidades e gêneros. Meus retratos não trazem um padrão tão masculino, estou sempre trabalhando nisso". Seu trabalho é publicado na conta do Instagram: @furmig.

Os graffitis de .Bros

Graffiti Mural Balea / Foto: Mário Miranda - Divulgação

Outro pernambucano que faz autorretratos com traços de negritude em perspectivas abstratas e meio andrógenas é Mário Miranda (assina como .bros), jovem de 24 anos morador do município de Camaragibe. “Tento me colocar não de forma perfeitamente estética, mas sim característica, expressando minha personalidade de forma subjetiva e intuitiva. Também coloco frases do que geralmente estou pesquisando e escrevendo", explica. Seu portfólio está disponível no Instagram: @omariobros.

Mário começou a produzir artes visuais com o graffiti, sua manifestação favorita até hoje. “É a democratização da arte, a curadoria é a rua. Também posso trabalhar com oficinas e aulas em ONGs ou escolas”. Ele também trabalha fazendo tatuagens de forma profissional e costuma escrever poemas - estes menos ligados a questões raciais. “O que chamamos de afrofuturismo é uma linguagem surrealista com estéticas negras, o que não é necessariamente novo. Acredito que sejam pessoas negras pensando o futuro da sua própria arte. Como podemos seguir no ramo com essa ausência da estética negra em determinados espaços gentrificados? É como se o movimento fosse a possibilidade da continuação do nosso ser artístico dentro dessa lógica eurocêntrica”, define.

.Bros em frente da obra Saudade de que (2018), graffiti que foi resultado de uma performance na Rua da Saudade / Foto: Thallyta Tavares - Divulgação

O jovem tem realizado algumas performances com recorte racial, misturando artes visuais, teatro e poesia. Uma delas foi feita na Avenida Conde da Boa Vista, Centro do Recife, para denunciar o caso de Mário Andrade, jovem negro de 14 anos morto por um policial militar em 2016, no Ibura. "Me venti todo de preto, com o nome 'PRETO' escrito na minha camiseta e uma sacola preta cobrindo meu rosto. Na mãos, segurei outra sacola e uma caixa de som que ficava reproduzindo som de uma viatura policial", explica.

Apesar do teor alarmante de obras como essa, ele também procura usar a estética negra em perspectivas positivas. “Não queria submeter todo meu desempenho para falar de dor, morte e tragédias. É bom enaltecer o negro, porém infelizmente de uma forma meio utópica. A realidade é outra, basta pensar no que ocorreu no Rio de Janeiro nesta semana (o assassinato do músico Evaldo Rosa dos Santos, cujo carro foi alvejado por militares do Exército com 80 tiros). Isso mexe com o próprio afrofuturismo: o futuro se constrói no presente, mas eu continuarei vivo hoje?”, indaga.

Gifs e Projeções de Biarritzz

Beatriz durante fala no Lulisoni, espaço de tecnologia em São Paulo / Foto: Amanda Carolina - Divulgação

A recifense Beatriz Rodrigues, 24, diz ter sido uma criança solitária. Ao passar muito tempo na frente do computador, aprendeu a mexer em programas de edição de vídeo e, principalmente, em criadores de gifs - formato popular na internet, com imagens que se movimentam repetidamente. "Os gifs ficaram na minha memória afetiva. Só aos 18 anos comecei a enxergá-los como linguagem artística. Descobri mais plataformas que criavam esses arquivos, inclusive com minha com minha webcam", explica a artista, que assina como Biarritzzz - portfólio no Instagram (@biarritzzz) e no site biarritzzz.hotglue.me. Hoje, ela trabalha com o new mídia, termo que se refere à soma de novas tecnologias e novos métodos de comunicação.

Suas obras podem ser divididas em duas vertentes. Uma mais festiva, com gifs e videoarts que englobam linguagens da web como emojis, junto a ícones da cultura pop periférica local (como a dançarina de brega-funk Dani Costa e MC Loma) e outros nomes internacionais. Essas produções são exibidas em projeções em festas como a Batekoo, que tem enfoque na cultura negra urbana.

Sua outra faceta é mais política, com temáticas de raça, gênero e sexualidade. “Esses assuntos foram chegando se e misturaram. Como uso bastante a webcam, tenho imagens que levantam reflexões sobre meu próprio cabelo afro". Outro exemplo desse lado mais militante foi a projeção no monumento Tortura Nunca Mais, na Rua da Aurora, no evento Urbe-se, em janeiro deste ano. A projeção mostrava máscaras indígenas, fotos de Marielle Franco, entre outras imagens.

Projeção no monumento Tortura Nunca Mais, durante o evento Urbe-se / Foto: Ingrid Abreu - Divulgação

Biarritzzz chama esse viés político de Seja Bruxa. "A magia foi um dos principais argumentos que o ocidente usou para se colocar como superior aos demais povos. Ela é tida como algo ruim, mas a trago para dialogar ancestralidade negra e indígena. Acho que isso tem muita ligação com o afrofuturismo: as manifestações são baseada em energia, no improviso, tendo uma liturgia bem própria. Isso aparece não só na estética, mas no próprio processo de usar a tecnologia para falar de temáticas negras", finaliza.

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