No rastro da campanha "Machado de Assis Real", um panorama da literatura negra feita no Ceará

Autor: Diego Barbosa Data da postagem: 19:00 14/05/2019 Visualizacões: 130
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No rastro da campanha "Machado de Assis Real", um panorama da literatura negra feita no Ceará/Imagem: Reprodução - Diário do Nordeste

Autores e estudiosos destacam nomes e práticas no ramo e consideram: parece que não há um início desse segmento literário no Estado

"Que dia para a nação!": foram estas as palavras bradadas no texto da campanha "Machado de Assis Real" ao anunciar a entrega, na última terça-feira (7), da fotografia atualizada do Bruxo do Cosme Velho à Academia Brasileira de Letras (ABL).

O autor carioca, fundador e presidente da mais importante agremiação literária do País, na qual ocupou a cadeira de número 23, estava no retrato presente nas mãos do atual presidente da casa, Marco Lucchesi, exatamente como era: negro, bem distante da representação esbranquiçada diluída nos livros Brasil e mundo afora. Até hoje.

A iniciativa - gestada de forma a ser uma "errata histórica feita para impedir que o racismo na literatura seja perpetuado" - é capitaneada pela Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, cujo corpo discente é composto por 90% de estudantes negros. Desde o início deste mês, o projeto oferece uma foto colorida em alta resolução para download com o objetivo de substituir a imagem criada, do Machado "branco", em obras e representações oficiais. A intenção é que outras ações sejam realizadas com o intento de promover o objetivo primeiro.

 

Campanha "Machado de Assis Real" apresenta verdadeira face do autor/Imagem: Reprodução - Diário do Nordeste 

Visando estender o alcance da campanha, o Verso apresenta um panorama da literatura feita por negras e negros no Ceará, entrevendo os principais nomes e práticas no segmento em escala local, promovendo reflexões. Rodrigo Marques, doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que o reconhecimento e a valorização de um cânone literário afro-brasileiro é uma preocupação recente nos estudos literários. 

"Isso se deu pela luta de muitas vozes, ampliada também por força da Lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. E se nem mesmo a história da literatura nacional incorporou em definitivo nomes como Carolina Maria de Jesus ou Conceição Evaristo, que dirá as histórias das literaturas locais, que sofrem com o descaso da preservação pública de suas fontes e de pouco investimento em atualização e pesquisa".
Segundo ele, que também é professor adjunto de literatura da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), campus da Uece em Quixadá, parece que um início da literatura negra no Ceará talvez nunca será respondido, tendo em vista que a história dessa arte por aqui, da maneira que nos chegou, estabeleceu um cânone local sem essa preocupação.

"E não poderia ser diferente, uma vez que não se cogitava à época em que foi escrita tal tipo de critério historiográfico. Antônio Sales, Dolor Barreira e Sânzio de Azevedo (principais autores da história da literatura cearense) não tocaram no assunto, e como disse, não fazia parte dos seus horizontes epistemológicos".

Apagamento

Contudo, o panorama do apagamento do negro e da negra no Estado é possível de ser contado, a começar, conforme o estudioso, pelo romance que nos forma: "Iracema", de José de Alencar, no qual a presença do negro é nenhuma. 

"Contudo, podemos citar algumas obras da literatura cearense em que o negro aparece não como sujeito, narrador empoderado da própria história, mas como tema, objeto. À época da manumissão no Ceará, província pioneira na libertação dos negros escravizados, três poetas oficiais da campanha, Antônio Bezerra, Justiniano de Serpa e Antônio Martins, publicaram o livro 'Três Liras' (1883), a favor da libertação, por exemplo".
 
Oliveira Paiva também publicou poemas a favor da abolição, todos ao redor do jornal Libertador. Igualmente, seria o caso lembrar ainda alguns versos de Juvenal Galeno, como "A Escrava", "A Noite na Senzala", "O Escravo" e outros de "Lendas e Canções Populares" (1865).

Além dos autores citados, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha e Américo Facó contribuíram para engrossar o caldo nessa seara. "Mas, como disse, em nenhuma dessas obras, seus autores são negros ou assumem um lugar de fala do negro no Brasil", reitera Rodrigo Marques.

 

Gilmar de Carvalho é um dos confirmados na Bienal do Livro do Ceará deste ano, evento com ainda pouca representatividade negraFoto: Fernanda Siebra/Imagem: Reprodução - Diário do Nordeste 

 

Natalha Morais, graduada em Letras - Língua Portuguesa pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), complementa o debate ao afirmar que sempre existiu um discurso equivocado por essas bandas de que, em solo cearense, não há negros.

"Isso faz com que o povo negro seja invisibilizado; assim, sua produção literária também. Há também uma desvalorização no mercado editorial por escritores ainda não consagrados. Outro ponto é a questão do racismo, que ainda é muito presente na população brasileira e isso torna a literatura negra distanciada", dimensiona.

Nesse sentido, a pesquisadora explica que há um trabalho estrutural a ser desafiado, posto que o mercado editorial ainda não está totalmente aberto a esse público, assim com o trabalho nas escolas sobre literatura afro, considerado fraco. "Depois, deve existir no Ceará e no Brasil um processo de afirmação da negritude. Assim, conseguiremos um pouco de representatividade".

"A invisibilidade causa distanciamento da população negra, o apagamento da história e da cultura, alavancando ainda mais o racismo. Acredito que nosso papel seja o de conscientizar a campanha capitaneada pela Faculdade Zumbi dos Palmares. Tal atitude pode ajudar no processo de divulgação de escritores negros e de obras com temática africana e afro-brasileira".

Eco

Enquanto escritor negro integrante da recente safra de autores cearenses, Dércio Braúna, natural de Limoeiro do Norte, interior do Estado, ao ser questionado sobre como observa o atual cenário literário capitaneado por artistas negros e negras da palavra por aqui, afirma que a temática ainda é marcada mais por iniciativas que por uma lógica de mercado.

"Isso porque implica considerar essa literatura feita no Ceará - que é, em grande medida, uma arte independente, feita e bancada pelos autores - sem os aportes e suportes de editoras. Ou seja, falar de 'mercado' por aqui ainda é algo muito complicado", avalia.

Ele também reflete sobre uma importante questão levantada em uma publicação feita pelo Portal Ceará Criolo à época da divulgação dos autores e autoras convidados para a edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará neste ano: dos 70, apenas uma pequena parcela é negra.

 

Do interior do Estado, Dércio Braúna é enfático: "Precisamos, efetivamente, pensar nas 'cores' que associamos aos 'lugares'Foto: Arquivo Pessoal/Imagem: Reprodução - Diário do Nordeste 

"Precisamos, efetivamente, pensar nas 'cores' que associamos aos 'lugares'. Que quero dizer? Que, no Brasil 'não racista', esse 'não ser' relaciona-se a lugares e hierarquias. Alguns estudos já debateram que há 'lugares' sociais que não se importam com a presença de mulheres e homens negros. É 'normal', 'natural'. Já noutros 'lugares', não. Nesse sentido, penso que termos mais negras e negros num palco da palavra, como é a Bienal, é de grande relevância e deve ser buscado".

Representações

Confessando ser difícil elencar quais os principais nomes da literatura negra por aqui, Dércio afirma que essa própria complicação ésintomática. "Ela mostra os mecanismos que fazem funcionar todas essas questões que as suas perguntas colocam. Praticamente não conheço o trabalho de escritoras e escritores negros daqui".

Nina Rizzi é uma das citadas por ele, porém. A escritora, por sinal, compõe a cena juntamente a outros fortes nomes, como Jarid Arraes, Mikaelly Andrade, Airton Uchoa Neto, Renato Pessoa, e os já citados Gilmar de Carvalho e Descartes Gadelha, dentre tantos outros.

 

Nina Rizzi é uma das representantes da safra contemporânea de autoras negras no CearáFoto: JL Rosa/Imagem: Reprodução - Diário do Nordeste 

Rodrigo Marques complementa a visão do colega ao afirmar que, apesar do avanço do pensamento e de políticas de ultradireita no País, o momento é de muita resistência e luta a favor da cultura e beleza negra.

"Os saraus da periferia de Fortaleza e das praças do interior do Estado, com a poética do rap, da rua, gestam uma safra de poetas jovens, a maioria negros e negras, que mantém viva a chama da poesia e da literatura", sublinha, destacando que a superação para que a representatividade negra saia do escanteio virá de políticas afirmativas para essa população e da distribuição de renda, além de uma educação pública de qualidade.

"Ser negro no Brasil é risco de ser morto numa operação policial, risco de ser preterido numa entrevista de emprego, de ser tachado de marginal, de ser estuprada. Os números não deixam mentir. A arte, a literatura, não vive isolada, numa bolha de vidro, ela exprime e participa ativamente do momento histórico", salienta.

E finaliza, dimensionando a relevância da campanha cujo conteúdo otimizou as reflexões aqui apresentadas: "Evidentemente, se reconhecermos que o maior escritor brasileiro de todos os tempos era negro, Machado de Assis, estamos contribuindo para a nossa autoestima, principalmente se pensarmos que na sociedade brasileira poucas vezes associamos a imagem de um negro a profissões mais prestigiadas, como médico, advogado, professor universitário, escritores, artistas".

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