Marcus Garvey e o Pan-africanismo

Autor: Leonardo Silva Data da postagem: 17:30 06/06/2019 Visualizacões: 1795
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Marcus Garvey e o Pan-africanismo / Foto: Divulgação - Reprodução - Disenocasa

O legado de Marcus Garvey

Marcus Garvey é não só um herói nacional jamaicano e ícone do rastafari, mas também um dos maiores ativistas da história do movimento nacionalista negro. Assim como Bob Marley, ele nasceu na paróquia de Saint Ann e é considerado por muitos como um visionário e profeta, uma figura que conseguiu unir os negros dos mais diferentes países numa luta contra a opressão, liderando o mais amplo movimento de descendentes africanos até então.

Mesmo não tendo lido sobre, talvez você já tenha ouvido falar dele diretamente ou através de suas ideias, como o pan-africanismo. Incontáveis músicas de reggae abordam o legado de Garvey. Como alguns exemplos, podemos citar: “Redemption Song” e “So Much Things To Say”, de Bob Marley & The Wailers; “Marcus Garvey”, de Burning Spear; “Rally Round”, de Steel Pulse; “Garvey Rock”, de Culture; e “Silver Tongue Show”, de Groundation.

Em 1914, teve início a Associação Universal Para o Progresso Negro – conhecida como UNIA devido ao seu nome na língua inglesa. Logo em 1916, Garvey teve que se estabelecer nos Estados Unidos já que suas ideias desafiavam as ideias patriarcalistas e racistas dos muitos brancos que estavam no poder jamaicano e tampouco foram aderidas pela classe média negra do país. Curiosamente, suas ideias tiveram que alcançar uma aceitação internacional antes de serem largamente difundidas em seu próprio país.

Entre 1918 e 1930, ele esteve à frente da publicação de um jornal chamado The Negro World, em que tentava abordar a questão da opressão de maneira séria. Nela, eram proibidas publicações de anúncios de alisantes de cabelo ou branqueadores de pele, que constituíam a maior parte da renda com propaganda da maioria dos jornais negros norte-americanos. Ele ainda criou a Black Star Line, uma frota de navios tripulada e administrada apenas por negros, que serviria para dar força à volta destes para o continente africano.

A maioria dos empreendimentos liderados por Marcus Garvey não obteve sucesso econômico, seja por pressões políticas ou má gestão. Porém, no que diz respeito ao objetivo de unir as várias vertentes de defensores da diáspora africana e estimular o orgulho negro, foi sim muito bem sucedido. A UNIA, por exemplo, chegou a vender bonecas negras, pois, segundo Garvey, “Por que uma criança negra deveria brincar com uma boneca branca?”. Para que fossem mais efetivos, seus ensinamentos deveriam começar ainda na infância.

Obviamente, o potencial de mobilização da população negra nas mãos de um líder negro preocupou as autoridades e ainda na época de J. Edgar Hoover o FBI iniciou uma campanha para manchar a imagem de Garvey junto aos outros líderes negros e seus seguidores, o que culminou em diversas divergências e sua prisão, em 1922.

As ideias de Marcus Garvey são um dos pilares da fundação da Nação do Islã, que ganhou reconhecimento por revelar um dos maiores líderes negro da história, Elijah Muhammad, também conhecido como Malcolm X. Os próprios pais de Malcolm, Earl e Louise, se conheceram numa reunião da Associação Universal para o Progresso Negro. Earl chegou a ser presidente da unidade de Omaha da UNIA. Apesar de toda essa influência, muitos se esquecem de líderes como Garvey e atribuem somente Malcolm a ideia da volta do negro a África, de relembrar sua cultura, de lembrar que descendem de uma linhagem de reis.

Apesar de nunca ter visitado o continente africano, ele se tornou um símbolo da luta dos países africanos contra o colonialismo e por sua independência.  A estrela no centro da bandeira de Gana, por exemplo, se inspirou na Black Star Line, fundada por Garvey.

A questão de Garvey com a cultura rastafári não se resume apenas a suas ideias. Em alguns discursos ele teria mencionado que um rei negro seria coroado na África e este seria o responsável por unir o continente e reinar sobre um povo unido outra vez. Para muitos, isso é interpretado como uma profecia da coroação de Haile Selassie I, em 1928. Há também pontos controversos na ligação deste líder com as ideias dos rastafáris. Garvey teria criticado como uma covardia a atitude de Selassie em buscar exílio na Inglaterra após a invasão da Etiópia pela Itália. Vale lembrar que o uso de maconha também era considerado por ele um dos maiores perigos para a sociedade negra.

Como a maioria dos grandes líderes, Marcus Garvey apresentava pontos contraditórios. Isso não diminui, porém, sua importância na luta por igualdade racial, já que este lutava para que o negro se reconhecesse como uma raça forte, riquíssima culturalmente e digna de um passado e presente de luta. A própria questão de uma terra para os negros, no caso dele, a África, pode ser discutida de forma menos extrema. Hoje, os negros, sejam eles brasileiros, jamaicanos ou sul-africanos, vivem como estranhos dentro de suas próprias casas, já que mesmo quando constituem maioria, são tratados como uma minoria desprivilegiada. São vítimas de um sistema que coloca como belo, o ideal de estética branco, seja em uma revista voltada para o público negro ou para um país de maioria negra.

Enquanto existir desigualdade racial, as ideias de Garvey continuarão sendo atuais e de muita importância não só para aqueles que escutam reggae, como também para todos que desejam viver num mundo mais justo. Devemos sempre buscar compreender uma parte de nossa história que teima em ser apagada pelos donos do poder.

Marcus Garvey disse: “o povo que não conhece a sua história, a sua origem e sua cultura é como uma árvore sem raízes.”

Para você que domina o inglês, recomendamos assistir The Story of Marcus Garvey:

A Origem do Pan-africanismo

Apesar de elencar como uma de suas prioridades a união entre os diferentes países africanos, a ideia de união pan-africana não nasceu no continente negro. Aliás, teve sua origem muito longe: no continente americano. Um de seus principais líderes foi Sylvester Willians, um advogado de Trinidad que conseguiu organizar a Primeira Conferência Pan-Africana em 1900, na cidade de Londres. Essa conferência teve como objetivo primordial a criação de um movimento que gerasse um sentimento de solidariedade com relação às populações negras das colônias. Sylvester Willians era um dos vários intelectuais negros da região do Caribe e sul dos Estados Unidos que juntos buscavam uma condição mais digna para as populações negras das áreas colonizadas.

Uma das primeiras resoluções dessa conferência realizada em Londres foi em defesa dos negros da atual África do Sul que estavam sofrendo com o confisco de terras por parte de ingleses e de descendentes de holandeses (africânderes).

Outro líder importante nos primórdios do pan-africanismo foi Burghart Du Bois, que fundou a Associação Americana para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP) e, em seguida, organizou o Primeiro Congresso Pan-Africano em Paris, no ano de 1919.

Já em 1945, outro líder de Trinidad organizou na cidade de Manchester o V Congresso Pan-Africano, no qual foi aprovado um lema que mostrava bem o objetivo do movimento: “Resolvemos ser livres; povos colonizados e subjugados do mundo inteiro, uni-vos”.

A partir desse congresso tais ideias já criavam raízes e eram adotadas por vários líderes que viviam em território africano, sejam eles políticos ou intelectuais, que as colocariam em prática, numa luta em geral sangrenta contra os até então poderosos impérios colonialistas europeus, em especial França e Inglaterra. Entre esses novos líderes, destacam-se: Jomo Kenyatta (Quênia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Sellasié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia) e Kwame Nkrumah (Gana).

Memória

Marcus Garvey, mais do que ações em si, promoveu e instigou a emancipação do pensamento nas mentes dos próprios negros, os quais deveriam deixar de aceitar a ideia de inferioridade sofrida e reconhecer seu próprio potencial. Com seu ideal do “novo negro”, o pan-africanista gerou entre as massas negras o pensamento e o sentimento de “libertação”. Portanto, Garvey foi mentor de uma consciência libertadora.

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