O reconhecimento da literatura negra: uma parte da questão

Autor: Ronald Augusto Data da postagem: 11:00 11/06/2019 Visualizacões: 159
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Machado de Assis/Imagem: Reprodução - Sul 21

 Diante de um processo cultural-planetário em curso, cujas margens avançam para o interior das realidades regionais e que, a cada novo lance, parece se confirmar como um fato consumado, o sujeito contemporâneo se vê compelido a considerar uma série de questões a propósito de tal situação. Por exemplo, em que medida o pertencimento a uma cultura local mais ou menos delineada e, ainda, a afirmação de uma identidade étnica, não poderiam se converter em uma reação conservadora do tipo xenófoba, capaz de fazer perder o valor da diferença, isto é, na perspectiva de representá-la como uma barreira de incomunicabilidade? Quais as consequências de uma nova ordem cultural mundial de feição híbrida? Existe, de fato, o trânsito não tutelado entre as diversas realidades socioculturais? A mestiçagem cultural constitui um efetivo ecumenismo? O estatuto dessa mestiçagem, congenial ao suposto apagamento de fronteiras, se caracteriza pela fusão, apropriação ou deglutição? Frente a esse quadro, quem tem o apetite dominante?

Com efeito, a emergência de uma cultura virtual-planetária, com todas as implicações ligadas às disjunções e conjunções tanto de interesses, como de crenças dos envolvidos, põe em causa, logo de saída, o mito da cultura autêntica, a ser preservada por todos os meios – o traço local e o viés do pitoresco associados a essa autenticidade, de resto, construída –, o tradicionalismo como camisa de força que, por outro lado, não tem nada que ver com a concepção de uma tradição viva, revitalizada e atualizada no presente e que nele se projeta modificando-o, por seu turno.

Tendo em vista tal campo de leitura a propósito do quadro esboçado, porém restringindo nosso foco à esfera da criação verbal, isto é, a poesia e a prosa, entendemos que a análise das condições de possibilidade da vertente negra na literatura brasileira ou, sendo menos modesto, o interesse pela literatura negra enquanto construto estético suficientemente comprovado, conquanto em processo – ou em trânsitos exusíacos –, implica em levar em consideração algumas questões. Com efeito, ainda que em um trecho indecidível, localizado entre o racismo estrutural e o renitente discurso da “democracia racial”, leitores-sujeitos negros e brancos vêm deparando já há algum tempo com formas de linguagem que põem em cena o desejo de escritores negros de falar a propósito de – e transfigurar poeticamente – sua interação tanto com o estado de coisas do seu tempo, quanto com a necessidade de sua transformação. Nas últimas três décadas, mais ou menos, por força desse movimento, percebemos um aumento de visibilidade da representação negra na sociedade brasileira – seja nos meios de comunicação, seja nas artes, na literatura, seja no âmbito acadêmico – e a tal ponto que seu caráter “marginal” diante das formas de expressão consagradas vem sendo ao mesmo tempo colocado em questão e redimensionado em uma perspectiva de afirmação.

Precisamos adiantar ao leitor que, no interior desse debate, ele observará que há alguns modos de apelar à produção dos escritores negros; às vezes acontece a expressão “vertente negra na literatura brasileira”, outras vezes apenas “literatura negra”. De outra parte, é importante frisar que neste quesito não há acordo entre os estudiosos e pesquisadores da produção literária de autoria negra, cada qual justifica, com sobras de argumentos, a sua opção por essa ou aquela forma de nomear e/ou definir tal série literária. Entretanto, esse estimulante dissenso, resultante do conceito em progresso, nos parece proveitoso e congenial a um corpo poético que, enfim de contas, permanece aberto e poroso às forças e reflexões envolvidas.  Assim, na tentativa de ser fiel ao recorte estabelecido, observamos ainda que uns usam a noção de “literatura afrobrasileira”, outros preferem falar em “literatura afrodescendente”, enquanto já outros, mais recentemente, começam a experimentar o termo “literatura negro-brasileira”. Os que se opõem aos qualificativos afro-brasileiro e afrodescendente, na abordagem dessa literatura, argumentam que tal tratamento alarga desnecessariamente o campo a ponto de, por exemplo, podermos considerar, caso seja conveniente, Jorge Amado como um autor afro-brasileiro. A questão é que não é suficiente ao escritor negro a mera identificação com a cultura afrodescendente, importa que ele se reconheça como negro; em outras palavras, o escritor que se predica negro o faz na perspectiva de que essa auto-declaração (ou essa luta por autorreconhecimento e por reconhecimento) se converta também numa categoria política e que, entrelaçada ao vetor estético, seja capaz de operar uma revisão crítica do cânone dado e de um correlato círculo de consagrações.

Para dar continuação a essa discussão, é necessário afirmar que essa literatura, além de se comprometer, o quanto possível, com a instauração de um idioleto literário, com suas linguagens, inflexões e temas irredutíveis e com os riscos decorrentes de tal empreitada, ou seja, os variados objetos poéticos enfeixados no corpo da literatura negra até agora, mais do que se constituírem em um ismo, têm colocado no centro da discussão o conceito de uma literatura universal. Universalidade esta que, enquanto conceito – e do ponto de vista da vontade de estabilização de um determinado estado de coisas –, leva em seu bojo a presunção de falar sem sombra de ruído a todos os homens e mulheres, visando passar a cavaleiro por sobre todas as diferenças.


Conceição Evaristo. Foto: Joana Berwanger/Reprodução - Sul21

A este propósito, uma das consequências da aposta na ideia de universal – como uma sorte de óbice interposto à noção de literatura negra – desemboca na justificação de uma hierarquia e de um cânone que servem em boa medida apenas à manutenção do sistema literário e dos modelos consagrados. O que há de potencialmente falacioso sob a noção de universal acaba por suportar expressões como “alta literatura”, “poesia pura”, “poeta maior”, “escritor menor”, “literatura periférica”, ou seja, expressões cunhadas com o objetivo de fazer perdurar um determinado arranjo de controle e prestigiamento dos grupos envolvidos, seja em relação aos que compõem o acervo (o legado), seja em relação à produção contemporânea. Mas não se segue da verificação objetiva de que há obras clássicas que o peso-valor delas sobre o nosso pensamento deva ser louvado ininterruptamente e sem questionamentos ou que, em relação a essas obras, não seja possível nem tolerável o surgimento de empreendimentos críticos e criativos capazes de propor interpretações e fruições novas a seu respeito.

Quando nos referimos à universalidade dos clássicos ou simplesmente a ratificamos, desprezamos em boa medida uma espécie de anti-tradição que forçosamente resta à margem e, ao mesmo tempo, não damos tanta importância à recepção cuja função, além de conquistar para o presente o que de melhor se produz no presente, é a de atualizar a parte viva dos clássicos, isto é, proceder a uma espécie de intervenção transversal no tecido do passado tendo em mira as condições e as contingências do nosso tempo. Em outras palavras, tal angulação interpretativa pode revelar que os clássicos são importantes não porque falam desde elevadas plataformas universalistas, mas, pelo contrário, que são importantes porque também foram (e são) parciais e interessados em coisas particulares. Na verdade, os admitimos como clássicos porque suas obras representam, principalmente, realizações de excelentes artistas em seus respectivos domínios de linguagem e porque respondem a algum impasse poético-político irredutível a uma configuração histórica de que são emanações, mas onde não cabem inteiramente.

De acordo com essa acepção, são clássicos sem dúvida e – a um só tempo –, negros, Machado de Assis, Lima Barreto e Cruz e Sousa. E em vias de, mais recentemente, Conceição Evaristo.

 

 

 

 
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