'Eu tenho um sonho': Lembre o lendário discurso de Martin Luther King

Autor: Redação O Globo Data da postagem: 16:23 28/08/2019 Visualizacões: 506
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Em 1963, Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis nos EUA, acena para multidão em durante a Marcha em Washington / Foto: AFP - Reprodução - O Globo

A histórica “Marcha sobre Washington”, realizada no dia 28 de agosto de 1963 e liderada pelo ativista social Martin Luther King, deu força ao movimento dos direitos civis e para um projeto concreto de igualdade social nos EUA. Na época, foi a tentativa mais contundente em séculos contra as marcas da segregação racial e da exclusão social das minorias norte-americanas. No final da passeata, que reuniu mais de 250 mil manifestantes, King Jr. bradou um dos mais marcantes discursos de todos os tempos.

O ativista pelos direitos civis Martin Luther King Jr. foi símbolo da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. Nascido na Geórgia, um dos estados americanos mais afetados pelas exclusão dos negros, ele proclamou, em 28 de agosto de 1963, aos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, o seu mais famoso discurso, intitulado " Eu tenho um sonho " ("I have a dream", em inglês). Estas palavras entraram na História para definir o sonho de um futuro mais justo para a comunidade negra daquele tempo — e, até hoje, inspiram os defensores da igualdade racial no país.

Leia abaixo a íntegra do discurso, em versão traduzida para o português:

“Estou feliz em me unir a vocês hoje naquela que ficará para a História como a maior manifestação pela liberdade na História de nossa nação.

Cem anos atrás um grande americano, em cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a Proclamação da Emancipação (dos escravos). Este decreto momentoso chegou como grande farol de esperança para milhões de escravos negros queimados nas chamas da injustiça abrasadora. Chegou como o raiar de um dia de alegria, pondo fim à longa noite de cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, o negro ainda não está livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro ainda é duramente tolhida pelas algemas da segregação e os grilhões da discriminação. Cem anos mais tarde, o negro habita uma ilha solitária de pobreza, em meio ao vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro continua a mofar nos cantos da sociedade americana e se encontra exilado em sua própria terra. Então viemos aqui hoje para dramatizar uma situação hedionda.

Em certo sentido, viemos à capital de nossa nação para sacar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória de que todo americano seria herdeiro. Essa nota era a promessa de que todos os homens, negros ou brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade. É evidente hoje que os Estados Unidos não pagaram esta nota promissória no que diz respeito a seus cidadãos de cor. Em lugar de honrar essa obrigação sagrada, os Estados Unidos deram ao povo negro um cheque que voltou marcado “sem fundos”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da Justiça esteja falido. Nós nos recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação. Por isso voltamos aqui para cobrar este cheque – um cheque que nos garantirá, a pedido, as riquezas da liberdade e a segurança da Justiça.

Também viemos para este lugar santificado para lembrar aos Estados Unidos da urgência ferrenha do agora. Não é hora de dar-se ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo. Agora é a hora de fazermos promessas reais de democracia. Agora é a hora de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o caminho ensolarado da justiça racial. É hora de arrancar nossa nação da areia movediça da injustiça racial e levá-la para a rocha sólida da fraternidade.

Agora é a hora de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. Seria fatal para a nação passar por cima da urgência do momento. Este verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará enquanto não chegar um outono revigorante de liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo. Os que esperam que o negro precisasse apenas extravasar e agora ficará contente acordarão sobressaltados se a nação voltar à normalidade de sempre.

Não haverá descanso nem tranquilidade nos Estados Unidos até que o negro receba seus direitos de cidadania. Os turbilhões da revolta continuarão a abalar as fundações da nossa nação até raiarem os dias iluminados da Justiça.

E isso é algo que preciso dizer a meu povo posicionado no morno liminar que conduz ao palácio da Justiça. No processo de conquistar nosso lugar de direito, não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos saciar nossa sede de liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.

Temos de conduzir nossa luta para sempre no alto plano da dignidade e da disciplina. Não devemos deixar nosso protesto criativo se degenerar em violência física. Precisamos nos erguer sempre e mais uma vez à altura majestosa de combater a força física com a força da alma. A nova e maravilhosa militância que tomou conta da comunidade negra não deve nos levar a suspeitar de todas as pessoas brancas, pois muitos de nossos irmãos, conforme evidenciado por sua presença aqui hoje, acabaram por entender que seu destino está vinculado ao nosso destino.

Eles perceberam que a liberdade deles está vinculada indissociavelmente à nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. E, enquanto caminhamos, precisamos fazer a promessa de que caminharemos para frente. Não podemos retroceder. Há quem esteja perguntando aos devotos dos direitos civis 'Quando vocês ficarão satisfeitos?’. Jamais estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos desprezíveis horrores da brutalidade policial.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados da fadiga de viagem, não puderem hospedar-se nos hotéis de beira de estrada e nos hotéis das cidades. Não estaremos satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for apenas de um gueto menor para um maior. Jamais estaremos satisfeitos enquanto nossas crianças tiverem suas individualidades e dignidades roubadas por cartazes que dizem ‘Exclusivo para brancos’.

Jamais estaremos satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que não tem nada em que votar.

Não, não estamos satisfeitos e só ficaremos satisfeitos quando a Justiça rolar como água e a retidão correr como um rio poderoso.

Sei que alguns de vocês aqui estão, vindos de grandes provações e atribulações. Alguns vieram diretamente de celas estreitas de prisões. Alguns vieram de áreas onde sua busca pela liberdade os deixou feridos pelas tempestades da perseguição e marcados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês têm sido os veteranos do sofrimento criativo.

Continuem a trabalhar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem ao Mississippi, voltem ao Alabama, voltem à Carolina do Sul, voltem à Geórgia, voltem à Louisiana, voltem aos guetos e favelas de nossas cidades do Norte, cientes de que de alguma maneira a situação pode ser mudada e o será. Não nos deixemos atolar no vale do desespero.

Digo a vocês hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá ao verdadeiro significado de seu credo: ‘Consideramos essas verdades manifestas: que todos os homens são criados iguais’.

Tenho um sonho de que um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade. Tenho um sonho de que um dia até o estado do Mississippi, um estado desértico que sufoca no calor da injustiça e da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e de justiça.

Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter. Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que um dia, no estado do Alabama, com os seus racistas cruéis e com o seu governador que tem os lábios pingando palavras de rejeição e anulação, um dia lá meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos.

Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que um dia cada vale será elevado, cada colina e montanha será nivelada. Os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortos serão endireitados. E a glória do Senhor será revelada e todos os seres a enxergarão juntos. Essa é nossa esperança. Essa é a fé com a qual retorno ao Sul. Com esta fé poderemos talhar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar os acordes dissonantes de nossa nação numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé podemos trabalhar juntos, orar juntos, lutar juntos, ir à cadeia juntos, defender a liberdade juntos, conscientes de que seremos livres um dia.

Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com novo significado: “Meu país, é de ti, doce terra da liberdade, é de ti que canto. Terra em que morreram meus pais, terra do orgulho do peregrino, que a liberdade ressoe de cada encosta de montanha”. E, se quisermos que a América seja uma grande nação, isso precisa se tornar realidade. Então que a liberdade ressoe dos prodigiosos picos de New Hampshire. Que a liberdade ecoe das majestosas montanhas de Nova York. Que a liberdade ecoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia. Que a liberdade ecoe das nevadas Rochosas do Colorado. Que a liberdade ecoe das suaves encostas da Califórnia.

Mas não só isso – que a liberdade ecoe da Montanha de Pedra da Geórgia. Que a liberdade ecoe da Montanha Sentinela do Tennessee. Que a liberdade ecoe de cada monte e montículo do Mississippi, de cada encosta de montanha. Que a liberdade ecoe.

E quando isso acontecer, quando deixarmos a liberdade ecoar, quando a deixarmos ressoar em cada vila e vilarejo, em cada Estado e cada cidade, poderemos trazer para mais perto o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, 'livres, enfim! Livres, enfim! Louvado seja Deus Todo-Poderoso. Estamos livres, enfim!”.

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