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4 livros que ajudam a pensar o Brasil e o mundo

Autor: Mariana Mesquita Data da postagem: 14:00 03/09/2019 Visualizacões: 250
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4 livros que ajudam a pensar o Brasil e o mundo / Foto: Sed Miles - Reprodução - Nexo Jornal

Como nova colunista do Nexo, a equipe do jornal me pediu que indicasse uma lista de cinco livros. Foi uma tarefa super difícil, pois mesmo em épocas de anti-intelectualismo muita coisa boa tem sido dita, escrita, pensada e pesquisada. Como historiadora, professora de uma universidade pública e intelectual negra das classes trabalhadoras (meu lugar de fala é esse), aqui vão obras que tenho usado em sala de aula, além de utilizar para me referenciar teórico-metodologicamente para pensar o Brasil e o mundo. Na medida do possível, estes livros também têm me ajudado a buscar beleza na experiência humana.

Abraços e axé!

Água de Barrela

Eliana Alves Cruz

Existem livros que nos arrebatam tanto que pensamos: esse, eu gostaria de ter escrito! Um desses livros, para mim, é o premiadíssimo “Água de Barrela”, da escritora Eliana Alves Cruz. A obra faz parte da tradição de escrita de mulheres negras da diáspora que é de contar, por meio da literatura, histórias de escravidão, de liberdade e de resistência a partir da vida de gerações de mulheres negras que, vindas da África, cruzaram o Atlântico na condição de escravizadas, começando aí uma saga pela liberdade que dura gerações. A partir dos relatos de sua tia-avó, além de muito diálogo com a historiografia da escravidão e análise de fontes historiográficas, Eliana reconta a história do Brasil do ponto de vista da literatura que narra as trajetórias daquelas que lavaram, passaram, engomaram, cozinharam, mas também traçaram planos de liberdade para si e suas gerações futuras. A história começa na África, desemboca no Recôncavo baiano e se conclui no Rio de Janeiro. Dessa forma, a autora nos faz refletir que a história das pessoas negras do Brasil pode estar dentro de nossas casas, é só estarmos atentas às memórias e narrativas das nossas mais velhas.

Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história

Giovana Xavier

No mês de julho deste ano, a professora e pesquisadora Giovana Xavier, colega de ofício e colunista aqui do Nexo até muito recentemente, lançou “Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história”. Esta é, sem dúvida, uma das grandes publicações deste ano. No campo da historiografia, Giovana tem diversos trabalhos entre artigos, livros e pesquisas, mas ousou em não se permitir “diluir” no ambiente acadêmico, trazendo debates de gênero, raça e classe como fatores que dão outra dimensão para a experiência de mulheres negras na academia. Maternidade, reflexões sobre política e sociedade, além da produção acadêmica e da realidade de ser uma professora doutora negra numa universidade pública brasileira, repleta de estudantes negras ávidas por acolhimento e saber acadêmico humanizado, são temas dos textos que compõem a obra. Ter essas situações cotidianas narradas pela Dra. Giovana Xavier nos faz lembrar que não estamos sós e que tudo, absolutamente tudo, no nosso cotidiano é objeto de debate, de reflexão e de transformação da realidade.

Ganhadores

João José Reis

No ano de 1857, os trabalhadores negros da cidade de Salvador dedicados ao ofício do ganho entraram em greve e pararam a cidade. Essa foi uma reação às diversas medidas que visavam controlar os corpos, à frágil autonomia com que organizavam seu trabalho e às medidas que tinham por objetivo “desafricanizar” a cidade de Salvador. A primeira greve negra do Brasil é o tema do recém-lançado livro do historiador e professor João José Reis. A pesquisa de João é sustentada por uma robusta coleção de fontes documentais que ele investiga há décadas. O resultado dessa empreitada é uma pesquisa que nos diz muito dos conflitos e disputas entre as elites locais em busca de uma cidade cada vez mais “europeizada”, cujos interesses divergiam daqueles de trabalhadoras e trabalhadores livres e escravizados, que tentavam imprimir suas vontades e valores ainda que numa sociedade escravista. O livro é muito importante não só para entender a história do Brasil para além da narrativa do paternalismo e da cordialidade histórica. Fazendo um exercício de pensar como se entrelaçam raça, gênero e classe, a obra também nos diz muito sobre o presente, sobre as reivindicações por melhores condições de trabalho e a resistência de trabalhadoras e trabalhadores do mercado informal (camelôs, vendedorxs de rua e seus conflitos com a polícia e o Estado).

Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade

Bell Hooks

Costumo dizer a minhas alunas e alunos que bell hooks é o modelo de intelectual negra e professora, além de militante e cidadã que me inspira e que quero ser. De todas as suas publicações, “Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade” é aquela que uso amplamente nos meus cursos na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em todos os semestres, em todas as disciplinas. É motivo de graça quando pergunto na sala: alguém já leu “Ensinando a transgredir”? E a turma responde num sonoro e bem humorado: “SIM, professora!!!” Bem, neste livro, bell hooks defende que a educação deve ser uma prática libertadora, sobretudo em salas de aula cujas alunos e alunos sejam grupos de classes pobres, mulheres e homens, trabalhadoras e negras. hooks (grafado assim mesmo, com letra minúscula), defende que o compromisso docente aconteça por meio de uma pedagogia engajada, que é um jeito de ensinar que protege e respeita a alma dos nossos alunos e alunas, que as fortaleça e empodere enquanto indivíduos e grupo social. A partir da sua experiência escolar na infância e na vida universitária, como estudante e como professora, bell hooks nos fala dos impactos das escolas segregadas na sua formação, da importância de professoras e professores negros comprometidos com o crescimento intelectual das suas alunas e alunos, mas também do choque cultural entre estudantes e docentes que usam a sala de aula para aprofundar desigualdades de gênero, raça e classe. Nesse debate, a autora registra a importância de Paulo Freire na formulação do seu pensamento, e o Brasil devia se orgulhar disso.

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