Sem experiência nem grana, sete jovens criaram conferência nerd da quebrada

Autor: Peú Araújo Data da postagem: 14:00 09/10/2019 Visualizacões: 76
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A Perifacon propõe uma alternativa periférica e acessível à tradicional ComicCon/Imagem: Reprodução - Ecoa

O que era uma ideia modesta de fazer uma versão periférica da ComicCon, evento nacional de cultura pop sobre quadrinhos, games, filmes e séries de TV, acabou se transformando em um encontro gigantesco: a PerifaCon reuniu 7 mil pessoas no Capão Redondo, em São Paulo, e deixou lições importantes para os criadores.

Autodenominada "conferência nerd da quebrada", a iniciativa colocou na agenda paulistana o projeto de sete jovens negros e periféricos. A feira teve sua primeira edição em março de 2019 e deve repetir a dose em abril de 2020. Os criadores, no entanto, pretendem não cometer novamente erros importantes.

"A gente não tinha a dimensão do evento que nós criamos. Por isso, no começo, pensamos em fazê-lo em um lugar pequeno ou até mesmo em uma praça. Acabamos perdendo tempo e quase não conseguimos um espaço capaz de nos abrigar", conta Andreza Delgado, de 24 anos, que criou e produziu o evento junto com Igor Nogueira, Mateus Ramos, Matheus Polito, Luíze Tavares, Gabrielly Oliveira e Pedro Okuyama.

Experiência alternativa

Na primeira edição da PerifaCon, 7 mil pessoas lotaram sete andares da Fábrica de Cultura do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, em busca de quadrinhos, debates e oficinas sobre a cultura geek e pop, concurso de cosplay, show de comic songs, k-pop e até disputando lugar na fila para sentar no imponente trono de ferro da série Game of Thrones (HBO).

"A ideia era trazer uma experiência de ComicCon para as pessoas que não têm acesso a ela", explica Andreza. "A gente nunca conseguiu entrar em um desses grandes eventos, então nós fizemos um pra gente mesmo", completa Igor Nogueira.

Da ideia, em setembro de 2018, à realização da PerifaCon, foram seis meses de longas reuniões até que o projeto ganhasse força, nome, investidores, patrocinadores e repercussão.

Tal qual uma Liga da Justiça da quebrada, os sete produtores uniram seus superpoderes (determinação, vontade, curiosidade e uma dose de empreendedorismo nato) e entraram em ação. Tudo isso com R$ 25 mil arrecadados em uma vaquinha virtual. "Esse é o preço de bolsa de grife que muita mulher usa", compara Andreza. "Ou o valor do metro quadrado de exposição em outras feiras", alerta Igor.

Dificuldades do percurso

Apesar do inegável sucesso e até da presença de nomes importantes do cenário nerd - como os quadrinistas Marcelo D'Salete e Load Morales -, eles sabem que era possível ter realizado um evento mais organizado e até lucrativo.

Para isso, seria preciso minimizar alguns erros. Por exemplo: ir atrás de patrocínio desde o início e garantir alguma remuneração pelo tempo de trabalho de cada um dos organizadores.

Não valorizar o próprio produto e aceitar produzir um evento sem remuneração ou mesmo arcar pessoalmente com custos

Entender que uma ideia inovadora vale dinheiro e buscar patrocínio antes de começar a produzir o evento

No decorrer do processo, o grupo percebeu também que as falhas de planejamento têm, na verdade, uma origem mais profunda. "Nunca tivemos aula de empreendedorismo, nunca aprendemos a fazer algo desse tipo", lembra Andreza. "Somos todos jovens negros de periferia, na escola não aprendemos a empreender, criar nosso negócio ou fazê-lo ser rentável e continuar vivo", diz Igor.

"Para a próxima edição, já temos uma estimativa de público de até 15 mil pessoas", conta Andreza. Com essa projeção, o grupo está em busca de um ambiente adequado desde já e definiu que a feira será em outra região da cidade e com uma programação mais bem planejada.

Fazer um dia só de evento, com uma programação muito extensa e uma atividade colada na outra

Dividir o evento em mais de um dia e ter uma programação com os horários menos apertados

PerifaCon x ComicCon

"A PerifaCon vai na contramão das grandes conferências nerds porque é voltada para uma população 'invisibilizada'", acredita Igor. Enquanto a ComicCon reúne artistas do mundo todo, movimenta milhões e cobra ingressos estratosféricos (de R$ 90 a R$ 8 mil, em 2019), a PerifaCon privilegia artistas ligados à periferia, não deu lucro (nem prejuízo) e não cobrou ingresso dos visitantes.

De semelhante, as duas buscam agradar quem gosta do chamado universo nerd, geek e pop - que reúne quadrinhos, game, cosplay, RPG, música, séries, filmes. "A gente não existiria se eles não existissem", acredita Igor. "Mas não somos concorrentes, como algumas pessoas acreditam. Basta olhar o tamanho deles e o nosso. A proposta é outra."

Além de trazer para a periferia a possibilidade de o público desfrutar desse universo e até conhecer nomes badalados (como dos quadrinistas Gabriel Bá, Ivan Reis e Adriana Mello), a PerifaCon também deu palco a artistas da quebrada, como Flávia Borges, Marilia Marz e Jhoncito, que, do beco dos artistas da PerifaCon, foi aprovado para o concorrido Artists'Alley da ComicCon Experience, onde vai dividir espaço com nomes do mundo todo.

"Mexe com a autoestima ser reconhecido, ver alguém comprando seu trampo, jogando o jogo que você idealizou dentro de uma garagem", comemora Andreza. "E dá uma satisfação enorme proporcionar tudo isso a tanta gente."

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