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Rincon Sapiência: Para muitos, ainda é difícil reverenciar a genialidade periférica

Autor: Redação Folha de São Paulo Data da postagem: 10:00 25/10/2019 Visualizacões: 173
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Rincon Sapiência: Para muitos, ainda é difícil reverenciar a genialidade periférica/Imagem: Reprodução - Folha de São Paulo

O Brasil contemporâneo tem sido um objeto escorregadio para a maioria de seus analistas, historiadores e cronistas. Tem mostrado maior capacidade de entender nosso momento quem pensa o país a partir de suas periferias, e do ponto de vista do negro.

O rapper brasileiro Rincon Sapiência é um jovem poeta e fino intelectual que nunca erra o alvo. Em suas letras, diagnósticos são precisos e sugestões extraordinariamente transparentes.

Em 2017, lançou Galanga Livre, seu álbum de estreia, consagrado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA). Recentemente, o artista lançou o seu próprio selo musical independente, chamado MGoma, apostando em seu reconhecimento como um dos produtores musicais mais respeitados da cena.

Para o Quadro-negro, ele foi convidado para exercitar-se também no formato de prosa. É seu primeiro artigo publicado. Para ele, uma estreia. Para nós, uma honra. Para o leitor, um recado: a depreciação do que vem da periferia é, no fim de tudo, uma questão de manutenção de privilégios por parte de quem os tem.

O futuro da música brasileira é o gueto

Quanto mais o tempo passa, mais registros são incorporados à música brasileira. No mesmo ritmo em que a sociedade se transforma, a música acompanha seus rumos. O Brasil, que outrora ganhou atenção mundial com a bossa nova, por exemplo, hoje já caminha para outros lugares. Continuamos exportando música e o mercado pop vem crescendo de forma considerável no país.

Nesse contexto, nosso território se tornou referência para artistas internacionais, o que pode ser justificado pela dimensão do país e pelo grande volume de acessos às plataformas digitais de streaming. Naturalmente, o que vem sendo feito por aqui está no radar daqueles que procuram novas tendências, e a criação de novas linguagens continua sendo uma marca da música brasileira. Quando se trata do contemporâneo, porém, os protagonistas são outros, e esse movimento é muito interessante.

A tecnologia acompanha a crítica dos puristas, os quais afirmam que a música atual é pouco duradoura. Realmente, essa não é uma acusação absurda, mas precisamos considerar que essa mesma tecnologia permitiu que mentes criativas e com formação musical não acadêmica assumissem o protagonismo, sugerindo novas faces da brasilidade.

Do brega tradicional surge o tecnobrega, no Pará. Em Recife, surge o brega funk. O funk, ritmo mais popular do país atualmente, por sua vez, tem aumentado a velocidade de suas batidas, saindo dos padrões que giravam em torno de 130 bpm (batidas por minuto), e acelerando consideravelmente para 150 bpm, dando origem a mais um subgênero do ritmo.

Na Bahia, o pagodão tem adotado sonoridades digitais em suas produções, nas quais harmonias menores aparecem com mais frequência. Cantores e cantoras com vocais menos melódicos trazem uma onda mais próxima a dos MCs. Assim, o pagode baiano vem ganhando uma nova cara.

O rap, por sua vez, ainda adapta conceitos gringos de forma literal. Em contrapartida, muitos artistas do rap começaram a identificar essa importação e compreender a necessidade de se implantar signos da nossa cultura em suas produções. Nesse cenário, o gênero musical tem dado asas a um imaginário que o tem levado a ocupar um lugar cada vez mais central na música brasileira, como aconteceu com o rock nos anos 80.

No que diz respeito a novas linguagens, todo esse movimento me leva a refletir sobre como a periferia tem abastecido o cenário da música por aqui. É notável que toda criação recente tende a ser desclassificada, contexto em que percebo certo tom de repúdio por parte dos mais conservadores. Isso porque já não se trata mais apenas de dissonâncias nos acordes, vocais mirabolantes, letras complexas baseadas em literatura ou histórias que surgiram de vivências em Copacabana.

São músicas que surgem nas quebradas, onde a percussão é tão determinante quanto as harmonias, que são acompanhadas de gírias locais, passos de dança e sensualidade. Signos que, por questões preconceituosas, não são associados à arte de qualidade.

Órfãos de movimentos como a bossa nova, a tropicália e outros clássicos da MPB, argumentam que nada mais tem sido feito de novo em terras brasileiras. Reconheço que o contemporâneo não aponta para surgimento de obras incríveis e eternas, como de Milton Nascimento e do Clube da Esquina. Por outro lado, situando a arte musical contemporânea, coisas grandiosas ainda vêm sendo feitas nos dias de hoje.

É nesse processo que consigo notar como historicamente sempre foi difícil para muitos reverenciar a genialidade periférica. Nessa dinâmica, sempre nos colocam como “a voz de alguma coisa” ou relacionam o nosso sucesso a algo “espontâneo”. Com isso, desconsideram que existe muita pesquisa por trás da criação de um ritmo ou de um estilo de dança, que, definitivamente, não se tratam de caricaturas.

Há alguns anos, artistas como Carmen Miranda e João Gilberto levaram a música brasileira para além das fronteiras nacionais, e hoje não é diferente. Atualmente, temos representantes como Kevin O Chris, MC Fioti, Ludmilla e Anitta, que dão continuidade a esse processo e potencializam o alcance da nossa música internacionalmente.

O grande detalhe é a origem das produções e do gênero musical que trabalham. Analisando esses caminhos tão promissores, cada vez mais tenho me convencido de que a frase “O futuro é o gueto, ninguém nega” define os rumos que a música brasileira contemporânea tem trilhado.

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