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A força da literatura periférica em São Paulo. E como ela se organiza

Autor: Juliana Domingos de Lima Data da postagem: 10:00 18/11/2019 Visualizacões: 198
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MOMENTO ATUAL É DE PROLIFERAÇÃO DE EDITORAS INDEPENDENTES NAS PERIFERIAS/Imagem: Reprodução - Nexo

Movimento que formou leitores e escritores nas últimas décadas agora tem suas próprias editoras e festivais e forma um circuito autônomo

Entre 4 e 8 de novembro de 2019, a 10ª edição do Festival do Livro e da Literatura de São Miguel leva ao bairro da zona leste paulistana uma programação que inclui lançamentos de livros, conversas com autores, oficinas, saraus, shows, apresentações teatrais e slams. No último dia, acontece ainda a final nacional do Slam Interescolar, com estudantes de vários estados.

O evento não é o único festival literário realizado nas periferias de São Paulo. Há pelo menos outros cinco: a Festa Literária de Cidade Tiradentes, a Mostra Cultural da Cooperifa, a Feira Literária da Zona Sul e a Festa Literária do Grajaú.

Eles revelam uma movimentação estruturada desde o início dos anos 2000 em bairros distantes do centro da cidade, a partir da criação de saraus, slams, bibliotecas comunitárias, editoras independentes e coletivos, entre outras iniciativas.

Um dos precursores desses espaços, o sarau da Cooperifa comemorou 18 anos em 2019. Idealizado pelo poeta Sérgio Vaz, ele acontece toda terça-feira, às 20h30, no Jardim Guarujá, bairro da zona sul de São Paulo. O Sarau do Binho também é realizado há mais de 16 anos na zona sul da cidade, na região do Campo Limpo.

Um pouco anterior a esses encontros, a publicação de “Capão pecado”, em 2000, pelo escritor Ferréz, também foi um marco fundador da literatura periférica paulistana. Ferréz foi muito influenciado pela cultura hip hop, que ganhou força na década de 1990 sobretudo com a projeção do Racionais Mc’s. Foi outro elemento fundamental para a estética da literatura criada nas periferias de SP.

Um pouco anterior a esses encontros, a publicação de “Capão pecado”, em 2000, pelo escritor Ferréz, também foi um marco fundador da literatura periférica paulistana. Ferréz foi muito influenciado pela cultura hip hop, que ganhou força na década de 1990 sobretudo com a projeção do Racionais Mc’s. Foi outro elemento fundamental para a estética da literatura criada nas periferias de SP.

A formação de um circuito

Os “focos” da literatura periférica se multiplicaram na cidade desde o surgimento dos primeiros saraus: hoje há também o Sarau das Pretas, o Slam da Guilhermina, Slam do Grajaú e muitos outros.

Embora a efervescência da literatura periférica esteja presente em outras cidades brasileiras, o cenário em São Paulo é marcado por consistência e continuidade, tendo se fortalecido e expandido por meio de políticas públicas, segundo o coordenador da área de cultura da ONG Ação Educativa, Eleilson Leite.

Ao Nexo ele destacou a importância da criação de políticas que impulsionaram a cultura periférica, como o Programa Vai (Valorização de Iniciativas Culturais), em 2003; os CEUs (Centro Educacional Unificado), a partir de 2001, que inauguraram espaços de lazer até então inexistentes nas periferias; os editais, como o de Fomento à Cultura da Periferia, que chegou à sua quarta edição em 2019, e os Pontos de cultura, financiados pelo governo federal.

Somado às iniciativas já em curso, isso tudo levou, segundo ele, a um boom da cultura de periferia na cidade. O Programa Vai, por exemplo, abriu a possibilidade de que os poetas que vinham se reunindo nos saraus começassem a ser publicados. O que é hoje algo rotineiro para autores periféricos era um acontecimento excepcional naquele momento.

Se os projetos criados na década passada formaram escritores e leitores, o estágio atual é de proliferação de editoras independentes nas periferias. Um levantamento recente feito pela Ação Educativa apontou a existência de 18 editoras de periferia em São Paulo, como a Editora benfazeja, Edições Me Parió Revolução, Editora e Gráfica Heliópolis e Literarua.

Com seus próprios festivais, editoras, encontros regulares, escritores e leitores, Eleilson Leite observa que a literatura periférica se beneficia hoje de um círculo que ela mesma criou e que integra diferentes regiões da cidade, já que os eventos garantem a circulação de autores e de outras pessoas ligadas à literatura periférica entre os bairros.

Festivais mais antigos e cuja programação é maior, como a Mostra Cultural da Cooperifa e a Feira Literária da Zona Sul, também são frequentados por um público de fora das periferias. 

A questão do acesso

Divulgado na terça-feira (5) pela Rede Nossa São Paulo, o Mapa da Desigualdade de 2019 revela que entre os 96 distritos da capital, 23 não têm nenhum equipamento público de cultura, 44 não têm livros para a população adulta disponíveis em bibliotecas municipais e 45 não têm acervo de livros infanto-juvenis. A maioria dos distritos em questão está nas periferias.




 

A falta de espaços públicos de cultura desses territórios fez com que a população dessas regiões criasse suas próprias soluções. Se de um lado o Estado se ausenta nesse quesito, de outro esteve historicamente presente nas periferias por meio da polícia, que costuma reprimir festas de rua como os pancadões.

“Os saraus e slams acabaram florescendo porque nem o maior crápula do mundo seria capaz de justificar o fato de ficar jogando bomba em cima de uma galera declamando poesia. A literatura periférica acabou conseguindo passar por esses bloqueios”, disse ao Nexo Marcio Black, coordenador de mobilização social da Fundação Tide Setubal, que patrocina o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel.

Segundo Black, a fundação apoia projetos como o festival com o objetivo de fortalecer a formação política e valorizar a produção cultural nessas comunidades.

“A literatura periférica é fundamental para os territórios hoje porque o espaço de leitura, do sarau, do slam, é um espaço de sociabilidade, de complemento ao letramento e à alfabetização, de formação política muito forte para a juventude periférica. Também é o espaço onde se afirmam identidades de gênero, de raça e territorial. É a literatura do Sérgio Vaz e do Binho, que é Campo Limpo, da Maria Vilani, que é Grajaú, do Rodrigo Ciríaco, que é São Miguel, da Débora Garcia, que é Itaquera. Essa marcação é muito forte”, disse o coordenador.



                      

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