Escritora reconstrói a identidade negra dentro de projetos artísticos

Autor: Vinícius Veloso Data da postagem: 10:00 18/12/2019 Visualizacões: 259
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Escritora reconstrói a identidade negra dentro de projetos artísticos/Imagem: Reprodução - Correio Braziliense

Radicada em Brasília, a atriz e escritora Cristiane Sobral tem história entrelaçada com a questão racial e reconstrói a identidade negra dentro dos projetos que desenvolve

A luta pela população negra e a relação com a arte e o teatro são os mantras que direcionam a vida da atriz, escritora e professora Cristiane Sobral, 45 anos. Ela defende os ideais desde a infância. Adotada, nunca conheceu os pais biológicos, mas encontrou naquelas que a criaram uma grande inspiração. “As primeiras referências de luta que tenho são da minha mãe, líder comunitária preocupada com as ações coletivas, e do meu pai, um homem caseiro que realizava as tarefas domésticas”, lembra.

Criada no subúrbio do Rio de Janeiro, onde a maioria da população é negra, ela conviveu desde criança com uma realidade difícil. Cristiane viu a vida mudar quando, aos 8 anos, a mãe, Marina Sobral, morreu. Por isso, ainda criança começou a entender, em partes, por que o cotidiano era tão difícil para aquele povo excluído socialmente. “Após a morte da minha mãe, pela primeira, vez me deparei com as questões de ser uma criança negra e órfã. Eu sentia o racismo incindir no meu corpo negro”, conta.

À época, sem o entendimento real do tamanho da discussão racial, ela conseguiu formar uma visão de mundo a partir de observações da realidade. “Minha mãe não me deixava ver televisão. Após a morte dela, comecei a assistir e entendi o motivo. A televisão representava o negro em papéis terríveis: de bandidos, malandros e prostitutas. E, ao olhar para as pessoas ao meu redor, eu via muita sabedoria e alegria, mas essas histórias não eram retratadas”, lembra.

Esse ponto foi essencial na trajetória de Cristiane. Ali, ela percebeu que seria escritora e atriz, com a intenção de retratar um mundo no qual os negros seriam melhor representados. Na adolescência, após um curso profissionalizante de teatro em terras cariocas, embarcou para Brasília, onde construiu uma trajetória de sucesso artístico e cultural.

Na capital federal, formou grupos de artes cênicas no ensino médio e foi aprovada para o bacharelado em interpretação teatral na Universidade de Brasília. Anos depois, foi a primeira atriz negra a se graduar no mesmo curso na cidade.

Conhecimento para todos

Em Brasília, Cristiane entrou para um projeto na Embaixada da Angola no qual recebia para ler sobre a História da África. Durante seis meses, conciliou esse papel com a direção da companhia de arte negra Cabeça Feita — que completou 20 anos em 2019 — e acabou juntando todos os conhecimentos.

Palestras sobre a cultura angolana se misturaram às peças teatrais que abordavam a temática racial. A artista começou, também, a explorar o lado literário com a produção de livros infantis, poéticos, históricos e teatrais. Neste ano, foi a Guiné-Bissau, Moçambique e a oito universidades dos Estados Unidos para falar sobre o próprio trabalho.

Entretanto, ter acesso às produções de Cristiane, apesar do esforço da autora, não é tarefa tão fácil. Nas grandes livrarias, por exemplo, não se encontram exemplares das obras dela. Mesmo com a dificuldade de alcançar um público mais amplo, ela continua a produzir para desmistificar a questão racial.

“Escrevo com o sonho de constituir na literatura e no teatro a humanidade de pessoas negras, contando essas histórias e os legados delas. Com a escrita negra, surge a questão do meu fortalecimento feminino, social, materno e de cidadã, percebendo que essa representatividade é cada dia maior e inspiradora”, afirma Cristiane. “Realizo trabalhos nas escolas, nas penitenciárias e em outros locais. Essa discussão contribui para negros e não negros. São produções que denunciam uma sociedade ainda racista, mas que falam para leitores heterogêneos”, acrescenta.

Mudança

Para Cristiane Sobral, existem maneiras de se reverter a questão da discriminação e do racismo na sociedade brasileira, reconhecendo a existência de um apartheid e percebendo que, mesmo a passos lentos, muita coisa mudou. Partindo desse pressuposto, dois pilares são fundamentais nessa reconstrução histórica, acredita.

O primeiro é o reconhecimento social da existência do preconceito. “Vivemos em uma sociedade que ainda tem preconceito de ter preconceito, que tem dificuldade de assumir o nosso racismo de cada dia e que tem dificuldade de admitir que a população negra não está inclusa na vida pública do país. Não temos pessoas negras nos espaços de poder do país e da nossa cidade”, argumenta.

O segundo é a educação. “O Estado precisa de ações afirmativas para que possamos ter um desenvolvimento social melhor. A educação étnico-racial é uma grande ferramenta no combate ao racismo. Precisamos de uma educação antirracista. Nós não nascemos racistas. O racismo é aprendido, então ele pode ser desaprendido e combatido”, explica.

Para ela, faltam conteúdos sobre as vitórias, a ancestralidade e a intelectualidade do povo negro. “Precisamos falar da negritude e pensar em um contexto de positividade. A partir do momento em que você visualiza a história do seu povo de maneira positiva, você prepara o cidadão ao ingresso no campo social de outra maneira. Ele estará muito mais preparado para contribuir com o país.”

A artista diz, ainda,  que os livros de história e os meios de comunicação contribuem para uma construção social racista quando apresentam uma imagem estereotipada e negativa da população negra. “O processo de tornar-se negro, de ter uma consciência da  negritude não acontece quando nascemos biologicamente. Como temos o racismo em um sistema institucionalizado, muitas vezes nós, negros, passamos pelo processo de um segundo nascimento. A negritude não é dada como 

valor de positividade a nenhum negro. O negro tem que aprender a gostar mais de si mesmo, amar a sua cor, amar o seu cabelo e seus traços”, argumenta.

  

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