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Dia do Fotógrafo: O fotógrafo baiano que documenta a história afro-brasileira há 40 anos

Autor: Gislene Ramos Data da postagem: 17:21 08/01/2020 Visualizacões: 435
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Dia do Fotógrafo: O fotógrafo baiano que documenta a história afro-brasileira há 40 anos / Foto: Reprodução - VICE

Poucos reconhecem o importante trabalho de Lázaro Roberto, que hoje armazena cerca de 30 mil imagens no quintal de casa

Anos 1970, Salvador e um jovem negro com uma máquina fotográfica na mão, clicando homens e mulheres, também negros, em suas rotinas comuns. Um deles zomba: “Tá virando turista, é?” Essa era uma das situações vividas pelo fotógrafo baiano Lázaro Roberto, 60, nas suas tantas idas às feiras populares de Salvador, como Feira de São Joaquim, ou mesmo durantes as festas de rua.

Não precisa ser baiano para saber que, na verdade, esses homens e mulheres já estavam um tanto acostumados a serem objetos de registro de turistas e fotógrafos brancos, como o icônico Pierre Verger. Daí o fato de sentirem-se surpreendidos ao serem contemplados por um semelhante e, então, a empatia nos olhares era quase que instantânea.

Com quase 40 anos de carreira, Lázaro guarda cerca de 30 mil imagens que mostram o dia a dia de pessoas na Bahia e sonha um dia construir um museu digital. Mas apesar da preciosidade histórica e cultural, o baiano não tem nenhum apoio financeiro para a manutenção do acervo, que segue guardado em seu quintal, ao fundo da casa no bairro da Fazenda Grande do Retiro, em Salvador.

A VICE conversou com Lázaro a fim de conhecer mais sobre a sua história e potencializar o alcance da sua campanha de financiamento coletivo “Salve a memória do povo negro”, cuja proposta é digitalizar, catalogar e disponibilizar todo o acervo através da criação do museu digital chamado “Plataforma Zumvi”, que acontece até 19 de dezembro.

Lázaro Roberto, fotógrado baiana / Foto: Reprodução - Divulgação

VICE: Como começou a sua relação com a fotografia?

Lázaro Roberto: Eu não vim de uma família com parentes fotógrafos, mas nos anos 70 era muito comum grupos de teatro na periferia, época da ditadura; e tinha um grupo de padres italianos progressistas que eram contra a ditadura militar e que incentivaram trabalhos culturais na comunidade. Daí, usando o espaço da igreja criamos uma festa de arte anual com moradores do bairro, e numa dessas festas vi uma exposição em preto e branco do fotógrafo e cineasta Antônio Olavo [era Paixão e guerra no sertão de Canudos, 1993, nome do filme e da exposição], daí me apaixonei pela fotografia. Todos muito jovens lidando com a descoberta da arte, além do teatro, alguns faziam poesia, outros pintavam, além do contato com intelectuais da época, tudo isso aguçou meu amor pela fotografia.

E como foi o seu encontro com o Movimento Negro?

Nessa época, final dos anos 1970, eu praticamente vi o Movimento Negro em Salvador nascer. Eu estava sempre ali presente e absorvendo muita coisa dos encontros, debates raciais, acompanhando as primeiras manifestações, e isso tudo isso fortaleceu a minha consciência enquanto negro, no sentido de tomar conhecimento da nossa história. E como nada é por acaso, anos depois, Jônatas Conceição, um dos fundadores do MNU em Salvador, em 2006 me entregou todo o registro fotográfico da trajetória do movimento, pouco antes de morrer, em 2009, com câncer.

Quando você teve sua primeira máquina fotográfica?

Nesses anos, eu só ficava namorando a fotografia, lendo revistas e conversando com quem tinha máquina e me dava uns toques. Mas eu só tive minha primeira máquina em 1982. Eu comecei a trabalhar em uma gráfica dos padres, então consegui comprar uma Minolta, que fui pagando aos poucos (risos).

E como você aprendeu a fotografar?

Quando comecei, eu não conhecia quase nada de fotografia e praticamente fui autodidata. Desfocando muita foto e lendo revistas, em três anos eu estava dominando as técnicas. Meu exercício era ir pra rua, fotografar nas periferias, moradores de bairro, teatro e festa populares. Só nos anos 1980, fiz um curso de seis meses do Senac de fotógrafo laboratorialista, quando aprendi bastante.

Profissionalmente, como foi pra você ser negro e fotógrafo?

Na minha trajetória, eu percebia que não havia fotógrafos negros na Bahia. Havia muitos fotógrafos brancos, entre turistas e profissionais. E eu não tinha pessoas com quem compartilhar sobre as questões raciais e conversar de fotografia. E os próprios negros, quando algum me via com a máquina fotográfica, dizia: "Tá virando turista, é?" Eu percebia que as pessoas estranhavam um negro fotógrafo.

E o processo de consciência racial com relação à fotografia?

A junção do Movimento Negro com a fotografia... Digo que a fotografia me ajudou na construção da minha consciência racial, porque o discurso teórico era constatado na prática. Nas minhas idas pra rua, nas festas populares, nos festejos, sobretudo na Bahia, os corpos que eu via, principalmente nos lugares pobres, eram negros. E tudo isso passou a ser evidenciado nas minhas fotos.

Como nasceu o coletivo Zumvi Arquivo Fotográfico e qual era o seu objetivo?

No final dos anos 1980, eu já estava com um material considerável. Então, depois do curso, eu criei junto com mais dois colegas, Raimundo Monteiro e Ademar Marques, um coletivo do fotógrafo negro, pra gente se ajudar e criar um grande arquivo. Eu sempre tive a mentalidade de fotografar o hoje para o amanhã.

Você já tinha a noção da importância daqueles registros na Bahia?

Com certeza. Principalmente enquanto negro fotógrafo. A minha fotografia me ajudou muito. Porque pessoas que não são fotógrafas passam por aquela realidade todos os dias e não a enxergam. Com a fotografia você passa a perceber muito mais a sua volta.

Quando foi a sua primeira exposição fotográfica?

Após a criação do coletivo, eu tinha muitas fotos da Feira de São Joaquim, maior feira livre da América Latina, daí um amigo historiador, Jorge Antônio do Espírito Santo Batista, viu e disse que daria um bom trabalho. Então, com a ideia de questionar a situação do negro no mercado de trabalho, junto com a pesquisa historiográfica de Jorge, tive a minha primeira mostra, O negro e seu trabalho na Feira de Água de Meninos a São Joaquim em 1992, durante a semana da Consciência Negra. Foi o meu primeiro trabalho que teve visibilidade, e daí não saí mais da feira – com outros trabalhos na temática.

Como era pra você, sendo negro, fotografar outros negros?

Mesmo com a máquina fotográfica na mão, sendo negro, ao fotografá-los, eu me sentia o outro também. Pude desenvolver um olhar bem mais específico, pois o olhar do negro para um outro negro é bem diferente, compreendo as particularidades e respeito a estética. É um olhar totalmente diferente do branco, que muitas vezes busca somente sensualizar os corpos negros.

Você tem algum apoio financeiro para a preservação do material?

Além dos meus trabalhos, o acervo conta com doações de outros fotógrafos. Atualmente, meu sobrinho, José Carlos, que conheceu o Movimento Negro na universidade, está me ajudando na campanha de financiamento coletivo. E esse projeto é também sobre a minha trajetória e a minha invisibilidade na Bahia, porque depois de quase 40 anos de profissão, poucos me conhecem em Salvador.

A que você atribui essa invisibilidade?

Primeiro que fotografia é uma arte cara e não tem muitos fotógrafos negros em Salvador que fotografam a própria raça, o próprio povo. As pessoas já me falaram surpresas coisas como "Eu sempre vi branco fotografando negro" ou as que não me conhecem e ao ver minhas fotos pensam que sou branco. Meu caso é um pouco diferente. Talvez eu seja o único fotógrafo negro que tenha esse olhar. E só agora, depois de 40 anos de trabalho, que estou sendo descoberto. Isso é um pouco triste.

Pra finalizar, qual o seu maior desejo atual?

Eu costumo dizer que as coisas não acontecem por acaso. Acredito que não tenho como fugir dessa temática, da luta do povo negro, de guardar essa memória. O que eu mais sonho é colocar esse trabalho dentro das escolas, principalmente por conta da Lei 10.639/03, além de criar o que chamo de Casa da Memória Negra. Pois percebo que a gente ainda não se vê, pois quando um negro se vê, mesmo que na forma mais pobre possível, ali tem uma reflexão, tem um crescimento. Além do registro de importantes momentos da luta negra, como os encontros do MNU e até a visita de Mandela a Salvador. Precisamos não somente registrar a nossa história, mas também preservar a nossa memória.

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