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Conhece a afrotopia? Os negros estão criando um futuro melhor e para todos

Autor: Pedro Borges e Lucas Veloso Data da postagem: 10:00 15/01/2020 Visualizacões: 129
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A artista Ingrid LeFleur é apontada como representante do afrofuturismo na política dos EUA/Imagem: Reprodução - Uol

Está enganado quem acha que o movimento negro mundial se contentou com a passagem de Barack Obama pela Casa Branca entre os anos 2009 e 2016. Ativistas estão imaginando muitas soluções para a sociedade atual, como, por exemplo, o conceito de afrotopia (a utopia negra), criado pelo intelectual senegalês Felwine Sarr e adotado pela artista norte-americana Ingrid LaFleur. Há nessa onda de reapropriação do futuro pelos negros também o afrofuturismo político e o afropolitanismo (cosmopolitismo a partir da África).

O afrofuturismo, movimento associado à cultura de maneira geral, está sendo agora aplicado no campo político. A expansão é apontada por pesquisadores e intelectuais. As experiências da artista Ingrid LaFleur, pré-candidata à prefeitura de Detroit (EUA), e Erica Malunguinho, deputada estadual (PSOL-SP), mostram que esse futuro já começou.

"Essa política é a de reimaginar novos mundos, sobre outras narrativas a partir da potência da África e dos negros em diáspora". A definição é de Thamyra Thamara, empreendedora do Complexo do Alemão, no Rio.

Em várias plataformas, o mundo tem presenciado uma série de obras do afrofuturismo, movimento que projeta mundos em que os negros e suas tecnologias sociais ganham protagonismo. No cinema, o filme "Pantera Negra". Na literatura, o livro "Kindred", de Octavia Butler. Na música, as obras de Sun Rá. A perspectiva, contudo, tem se ampliado e abarcado a política, como aponta o filósofo camaronês Achille Mbembe. A ideia é que as obras ficcionais prefigurem mundos para mostrar que as populações negras podem, na realidade, terem mais espaço e poder nas sociedades ocidentais.

Para a doutora em comunicação pela USP, Rosane Borges, o afrofuturismo colabora no sentido de dar outras dimensões no campo político. "Hoje, nossas reivindicações não são mais sobre políticas públicas, mas que Estado nós queremos, qual o modelo de desenvolvimento buscamos com ele", explica. "Que futuro queremos com as ruínas deste mundo em que estamos e na crise civilizatória que estamos vivendo hoje".

Segundo ela, o movimento é utópico no sentido de exigir a mudança total dos pilares que sustentam a sociedade atual, como as diversas formas de discriminação. Ao mesmo tempo, para Borges, o afrofuturismo não dialoga com os movimentos futuristas criados no início do século 20 na Europa (o mais famoso é o italiano Filippo Marinetti) que preconizavam a destruição de culturas antigas, inclusive as das civilizações negras.

As tecnologias sociais negras

O termo 'afrofuturismo' significa o movimento estético e político que mistura ancestralidade africana e tecnologia. O conceito surgiu em 1993, no artigo escrito pelo pesquisador branco Mark Dery, autor do artigo "Black to the Future". A partir do momento em que alguns personagens da cultura negra começaram a ter destaque na mídia, o movimento se expandiu e ganhou mais importância.

Kênia Freitas enxerga o afrofuturismo em outros campos: um exemplo é o pensamento do filósofo camaronês Achille Mbembe, que defende a ideia do 'afropolitanismo', concepção de que deve haver uma maior conexão entre os países do continente africano para romper com os limites nacionais construídos pelo colonialismo europeu e forjar uma política local mais consistente.

Para o estudioso, o pan-africanismo, ideologia surgida nos anos 1960 que acredita na união dos povos de todos os países do continente africano na luta contra o preconceito racial e os problemas sociais, e os movimentos nacionalistas anti-coloniais naufragaram e acabaram nas mãos do Estado, se tornando uma política governamental, sem núcleo ético.

O filósofo camaronês Achille Mbembe em cerimônia/Imagem: Reprodução - Uol

Neste sentido, Rosane Borges acredita que o afropolitanismo é uma perspectiva potente, por possibilitar uma soma de construções políticas do continente africano, a partir da solidariedade racial, internacional e anti-imperialista.

"O que ele [Mbembe] considera uma prática afropolitana é de uma perspectiva em que a África reconhece a tragédia da escravidão transatlântica, do imperialismo e do colonialismo, mas não faz disso uma determinante para se manter subjugada no mundo".

Mbembe acredita que o futuro do planeta esteja no continente africano. Ele aponta que nos próximos 30 ou 50 anos, uma em cada três pessoas na terra será africana ou afrodescendente.

"O afrofuturismo deixa de ser uma questão étnica ou continental e se torna planetária, é preciso entender que o futuro negro é o futuro da Terra", afirma Kênia Freitas, pós-doutoranda em Comunicação na UNESP, pesquisadora sobre afrofuturismo e autora do artigo "O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo versus Afropessimismo - as distopias do presente".

Influenciado pelos movimentos pan-africanista e as experiências socialistas na África, Mbembe acredita que essa aproximação precisa transpor o campo literário e cultural e se efetivar nos planos econômico e político.

Rosane Borges defende que os africanos e os negros da diáspora dispõem de tecnologias que, no decorrer da história humana, não foram acolhidas, tais como outros modelos políticos e formas de organizar comunidades.

Ainda, segundo Rosane, por mais que possa ser considerado utópico, o movimento tem que vir com a prática. "A gente não pode também fazer dessa utopia algo ingênuo. Achar que de fato o mundo está em nossas mãos, porque a gente tem no presente um neoliberalismo, que faz com que os condenados da terra, os despossuídos do mundo, sejam ainda mais destituídos, ainda mais espoliados. Agora é dessa força, do espoliado que está havendo uma grita".

Ela exemplifica que unir as experiências dos negros no mundo e pensar como gerar desenvolvimento a partir dos conhecimentos em prol de um mundo contemporâneo mais justo e igual é, de certa forma, uma prática afrofuturista.

Bairros com passado negro

"Nós somos os seres que possuem a capacidade e a sensibilidade para desconstrução das violências atuais, como o racismo e a transfobia", anuncia a deputada Erica Malunguinho, responsável pela criação da Aparelha Luzia, local de sociabilidade preta e de apresentação das artes e tecnologias negras.

Durante a campanha, em 2018, a hoje deputada estadual utilizou o lema da "reintegração de posse" como uma das principais bandeiras. Para ela, bairros centrais de São Paulo (como o Bela Vista e a Barra Funda) e símbolos culturais (como o samba e a capoeira) foram apropriados pelos brancos. A função da comunidade negra e do seu mandato é o de retomar esses espaços.

O bairro da Liberdade é um exemplo, e o nome é uma pista. Nos séculos 18 e 19, a região tinha um pelourinho, poste em que os escravizados eram castigados. Além disso, o local tinha uma forca e um cemitério (chamado Aflitos). A Liberdade também foi o bairro onde moraram as primeiras pessoas negras alforriadas.

A deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL) posa para retrato na Assembleia Legislativa de São Paulo/Imagem: Reprodução - Uol

No começo do século 20, o distrito começou a ser ocupado pelos migrantes japoneses, recém-chegados na capital. Com as novas pessoas, aconteceu um processo de gentrificação ali, que acabou resultando em exclusão de grupos sociais. A cidade expulsou os negros que moravam naquela região, uma das primeiras periferias da capital.

Na década de 1970, luminárias japonesas passaram a compor as ruas do bairro. O movimento japonês cresceu em eventos, turismo e atividades voltadas a essa cultura. Hoje, uma das demandas do movimento negro local é um espaço dedicado à história dos negros naquelas ruas.

No Brasil, vários movimentos, expressões e culturas passaram por esse mesmo processo: trazidas ou criados pelos negros, mas foram adotados e dominados pelos brancos, segundo Erica Malunguinho. Para ela, reintegração de posse é recuperar a herança. "É uma ação prática e uma disputa de conhecimento. Ela parte dos que construíram. É necessário reintegrar posse para que haja obviamente um processo de alternância de poder", aponta a deputada.

Reimaginar a cidade e o mundo

A eleição do advogado Barack Obama nos Estados Unidos, sendo o primeiro afro-americano a ocupar o cargo, pode ser considerada um marco para o movimento. "Ele pensou a partir de uma perspectiva plural. Foi a afirmação de uma potência negra no mundo. Esse foi um dos legados de Obama", explica. "A figura dele serve para repensarmos uma nova visão de transformação radical no mundo".

Uma amostra afrofuturista na política foi a campanha para a prefeitura de Detroit (EUA), do ano de 2017, de Ingrid LaFleur. Ela também é responsável pela curadoria de filmes, clube de leitura, sessões de meditação.

Durante o lançamento da candidatura, LaFleur reuniu negros e brancos, em uma cidade ainda segregada e anunciou estar cansada da existência de "Duas Detroits". Ela diz que é uma das poucas moradoras da cidade que conhece todo o município. Depois da separação dos pais, teve de conviver com as diferentes zonas de Detroit.

Ingrid LeFleur é destaque política do afrofuturismo nos EUA/Imagem: Reprodução - Uol

"Eu acho que esse é o nosso momento de reimaginar nossa cidade e sua governança", disse em entrevista ao jornal norte-americano New York Times. A cidade de Detroit vive uma crise econômica desde o declínio de empresas automobilísticas. De acordo com números apresentados pela campanha, nos próximos 15 anos, 38% dos empregos da cidade serão perdidos pela automatização.

Para solucionar essa questão, LaFleur propôs a entrega de uma quantidade de recursos para cada cidadão, no valor de US$ 2 mil, com uma parte em uma moeda digital, com o objetivo de movimentar a economia do município. A prefeitura poderia taxar essas transações digitais, o que para LaFleur poderia gerar receitas, aumentar a transparência financeira e diminuir qualquer possibilidade de corrupção ou desvio de verba.

Ao fim, a campanha não contou com a participação de LaFleur por problemas burocráticos. Para Kênia Freitas, a campanha de LaFleur cumpriu um papel importante, de ser a primeira a se denominar afrofuturista no plano político.

"Ao mesmo tempo que você tem toda uma plataforma que vem da arte, do afrofuturismo, ela está falando de coisas muito concretas. Ela está falando de desencarceramento, do desemprego. Você tem essa população negra que está fora de um lugar de produção e você precisa criar propostas fora de um certo lugar para imaginar e implantar políticas".

O prefeito da cidade e vitorioso na campanha de 2017, Mike Duggan é o primeiro prefeito branco desde 1973. Detroit é uma cidade com mais de 80% de população negra.

Em São Paulo, a candidatura de Erica Maluguinho ao cargo de deputada estadual, apesar de não ter se autoproclamada como afrofuturista, também pode ser descrita dentro desse contexto.

Malunguinho, além de política, é artista e idealizadora da Aparelha Luzia, espaço é descrito como um "quilombo urbano". Com um orçamento de campanha enxuto, se comparado aos demais deputados estaduais, Erica Malunguinho conseguiu uma expressiva votação, na primeira vez que concorreu ao pleito, com 50 mil votos.

Kênia Freitas pensa ser rico avaliar a candidatura de Erica Malunguinho dentro do contexto afrofuturista. Para a pesquisadora, Erica também rompe com a ideia de que política e arte estão separadas.

Já Rosane Borges acredita que essa reconstrução dos rumos da história está em curso no Brasil. A crise vivida pelas esquerdas têm sido superada pela articulação desses segmentos sociais, em especial o negro.

"Por isso dizem que se tivermos alguma revolução ela será preta e feminina, porque são dessas duas variáveis, extremos de diferenciação negativa, que a gente ouve uma radicalidade e uma crítica contundente do que se tornou o Estado brasileiro, a política nacional, o cotidiano das relações institucionais e políticas", conclui.

Favela do futuro

O Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, abriga um laboratório afrofuturista, organizado pelo coletivo de comunicação Gato Mídia. O curso tem formações para todos interessados em três linguagens: artes visuais, programação e realidade virtual focada em 360°.

Thamyra Thâmara, uma das fundadoras da Gato Mídia, acredita que o curso tem o objetivo de potencializar moradores da região, de maioria negra, a contar a própria história, a partir de uma perspectiva diferente. Para ela, trata-se de uma ação afrofuturista na prática. "A gente está formando pessoas que vão produzir outras narrativas sobre corpos negros a partir não mais da dor, mas a partir do renascimento.", afirma Thâmara.

Durante o curso, são convidados intelectuais, ativistas, moradores da própria comunidade, a fim de reconstruir o pensamento político e criar possibilidades de superação dos problemas da humanidade.

"É pensar a escravidão no Brasil, a de pessoas negras no mundo, e como essa violência hoje está sendo não só em pessoas negras, mas na população indígena, palestinos etc. O Mbembe traz o devir negro e quando ele fala sobre o futuro do planeta ser negro, ele traz como uma possibilidade de transformação", argumenta Thâmara.

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