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Livro da ex-escravizada Harriet Ann Jacobs detalha a perversidade da escravidão

Autor: ADRIANA FERREIRA SILVA Data da postagem: 14:00 24/01/2020 Visualizacões: 66
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Incidentes na Vida de uma Menina Escrava": livro narra a trajetória de Harriet Ann Jacobs desde a infância até a liberdade, aos 27 anos/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Revista Marie Claire G1

Lançado pela primeira vez no século 19 e recém-publicado no Brasil, "Incidentes na Vida de Uma Menina Escrava" traz relato de uma ex-escravizada que conquistou a liberdade aos 27 anos e conta como sobreviveu a um sistema no qual mulheres negras eram assediadas, estupradas, separadas de seus filhos recém-nascidos ou ainda crianças e tinham de abdicar da maternidade para amamentar e cuidar dos filhos das “senhoras”.

A escritora Harriet Ann Jacobs (1813-1897) abre seu livro dizendo aos leitores que, por mais inacreditáveis que pareçam ser as histórias contadas ali, todas são absolutamente verdadeiras, ou seja, trata-se de uma autobiografia. A explicação faz-se necessária tamanho são os absurdos narrados em Incidentes na Vida de uma Menina Escrava (Todavia, 277 págs., R$ 51), no qual sua autora descreve os anos passados como escravizada, desde o seu nascimento, na Carolina do Sul, até os 27 anos, quando consegue finalmente fugir para Nova York, cidade no norte dos Estados Unidos onde os afro-americanos eram livres _mas não menos oprimidos.

Harriet teve uma infância que, em sua inocência, não diferia em nada da de outras crianças. Criada na casa de sua avó, guarda memórias das deliciosas receitas preparadas pela matriarca e das brincadeiras com o irmão. Até que, aos 6 anos, com a morte de sua mãe, ela descobre ser escrava. Seu destino é morar com a “senhora” de sua mãe, que passa a ser sua “proprietária”. A mulher a ensina a ler e a escrever e, como havia prometido à mãe de Harriet, garante que ela “não sofra”. Isso, no entanto, não transforma a menina em uma “igual”. Quando a tal senhora morre, ao invés de garantir sua liberdade, ela a deixa de “herança” a uma sobrinha de 5 anos. A partir dessa mudança, Harriet passará a compreender e vivenciar todos os horrores de um sistema que transforma pessoas em bens materiais, submetidos a todos os mais absurdos desejos de seus proprietários.

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Harriet Ann Jacobs em foto sem data definida/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Revista Marie Claire G1

Na casa onde passa a morar, ela se torna adolescente e, por consequência, alvo de dr. Flint, pai da menina que a herdou. Ao mesmo tempo em que é vítima de violência e assédio físico e moral, Harriet conscientiza-se do sistema de terror em que está inserida, no qual mulheres negras são estupradas, separadas de seus filhos recém-nascidos ou ainda crianças, têm de abdicar da maternidade para amamentar e cuidar dos filhos das “senhoras”, muitas vezes dormindo no chão, ao pé da porta, para estarem disponíveis sempre que for necessário. Sua heroína, a avó, por sua vez, conquistou sua liberdade, mas padece de culpa por não conseguir o mesmo para seus filhos, leiloados e levados para lugares distantes. Como resultado, transforma em missão guardar o pouco dinheiro que ganha para comprar a liberdade dos filhos

Numa vida de sobressaltos, em que é preciso estar sempre atento e pronto para se esquivar de situações de risco, Harriet expõe todos os horrores da escravidão e as situações de extrema maldade a que é submetida até, finalmente, conseguir fugir para o Norte, onde descobre que ser uma mulher negra lhe trará outras tantas dificuldades, mesmo que em liberdade.

Incidentes na Vida de uma Menina Escrava insere-se numa tradição literária de narrativas feitas por afro-americanos escravizados como Harriet Tubman _tema do filme Harriet, cuja protagonista, Cynthia Erivo, concorre ao Oscar de melhor atriz_, que, ao conquistar a liberdade, se tornou uma aguerrida abolicionista, criando uma rota para ajudar outros negros escravizados do Sul dos Estados Unidos a fugirem para o Norte; ou Frederick Douglass, abolicionista conhecido por atuar ao lado do movimento das mulheres e um dos mais importantes pensadores norte-americanos. Em tempos de revisionismo, torna-se imprescindível reforçar a crueldade de um sistema que promoveu um dos maiores massacres da  história da humanidade _cujas consequências reverberam até hoje.

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Harriet Ann Jacobs na capa de uma das primeiras edições do livro/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Revista Marie Claire G1

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