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A atualidade e a urgência de Lélia Gonzalez em 2020!

Autor: PATRÍCIA MAEDA Data da postagem: 10:00 14/02/2020 Visualizacões: 66
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A atualidade e a urgência de Lélia Gonzalez em 2020/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Carta Capital

Homenageada essa semana no Google, Lélia González é uma das mais importantes pensadoras brasileira de todos os tempos.

No dia 1º de fevereiro, a Google homenageou com um Doodle em sua página inicial o 85º aniversário de Lélia Gonzalez, antropóloga e ativista negra brasileira. A Casa da ONU no Brasil leva o nome de Lélia Gonzalez desde 2015. Por que ela é tão importante a ponto de ser reconhecida internacionalmente? Pretendo neste texto trazer um breve panorama sobre a produção acadêmica e a militância de Lélia, marcadas pela experiência de ser mulher negra, oriunda da classe baixa. Sua vida é retratada na biografia escrita por Alex Ratts e Flavia Rios[1], fonte principal dos dados biográficos a seguir. Os textos de Lélia Gonzalez foram consultados no livro publicado pela União dos Coletivos Pan-Africanistas[2], um primoroso trabalho de pesquisa.

Nascida Lélia de Almeida em 1935 em Belo Horizonte/MG, penúltima filha de uma família com 18 filhos, de pai negro e ferroviário e mãe indígena e empregada doméstica. Em 1942 a família mudou-se para o Rio de Janeiro, pois o irmão Jaime de Almeida começou a jogar futebol no Flamengo. Em razão da ascensão social e acadêmica, de um lado, Lélia Gonzalez desafiou o “lugar de negro” – o lugar social estabelecido com base na hierarquização por sexo e raça –, o que lhe reservou experiências como ser confundida com a empregada doméstica em sua própria casa, quando lhe perguntavam: “a patroa está?”. De outro lado, levou-a também à experiência do “embranquecimento”, inclusive com um casamento inter-racial, que lhe marcou profundamente com preconceito e discriminação por parte da família do esposo, que se suicidou pouco tempo depois. Lélia manteve o sobrenome Gonzalez em homenagem ao marido e esta experiência a “enegreceu” e a impeliu a entrar na luta política contra o racismo.

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INTELECTUAL LÉLIA GONZALEZ, UM DOS PRINCIPAIS NOMES DO MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Carta Capital

Para superar a dor da perda, Lélia Gonzalez se valeu da psicanálise e do candomblé, cujos elementos aparecem em seus textos. Foi fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN) e do Colégio Freudiano no Rio de Janeiro, enquanto graduou-se em comunicação no nível de mestrado e iniciou o doutorado em antropologia. A produção acadêmica de Lélia Gonzalez iniciou-se na década de 1970 com a análise da formação do capitalismo brasileiro com recorte racial, com influência marxista.

Lélia Gonzalez participou ativamente do movimento negro, sendo fundadora, por exemplo, do Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978. Lá dentro, Lélia Gonzalez registrou as dificuldades enfrentadas pelas mulheres negras a partir de sua própria história pessoal, em tom intimista e informal de escrita que a caracterizou em grande parte de seus trabalhos (o “pretuguês”). Segundo ela, homens negros não entendiam a necessidade de discutir nem reconheciam a dominação masculina sobre as mulheres, acusando as feministas de divisionistas.

No interior do movimento feminista hegemônico, Lélia Gonzalez percebeu que não se problematizava que a emancipação econômica e social das mulheres brancas foi à custa da exploração das mulheres negras no trabalho doméstico, mal pago e sem direitos trabalhistas ou previdenciários nem se correlacionava a condição social de exploração do trabalho doméstico e a exploração sexual da mulher negra. Ao falar sobre isso, Lélia Gonzalez foi acusada pelas feministas brancas de revanchismo e de ter um discurso emocional.

As experiências em ambos movimentos contribuíram para que ela participasse da criação do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga, pois “ser mulher e negra (ou negra e mulher?) implica em ser objeto de um duplo efeito de desigualdade muito bem articulado e manipulado pelo sistema que aí está”.

Para Lélia Gonzalez, no Brasil vigorava o racismo por denegação, ou seja, o racismo cuja existência é negada, embora seja uma realidade. Além disso, o mito da democracia racial era um dos mais eficazes mitos de dominação, porque impedia a consciência objetiva do racismo e o reconhecimento de suas práticas cruéis, já que a crença historicamente construída sobre a miscigenação voluntária criou o mito da inexistência do racismo em nosso país.

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