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Zimbabwe: a música de Bob Marley que embalou, há 40 anos, a libertação de um país

Autor: Gilson Jorge Data da postagem: 12:00 18/02/2020 Visualizacões: 408
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Dora Tompkins organiza, todos os anos, um tributo a Bob Marley, em Washington, Estados Unidos/Imagem: Reprodução - A Tarde

No próximo dia 18 de abril, o Zimbábue comemora 40 anos do reconhecimento internacional de sua independência do Reino Unido. Foi um livramento e tanto. O país, na verdade, havia sido declarado independente em 1965, à revelia de Londres, pela elite branca local. 

O objetivo era combater os guerrilheiros marxistas negros e a derrocada do regime segregacionista. Depois de 15 anos de guerra civil, a antiga Rodésia se tornava um dos últimos países do continente africano a se livrar da subjugação estrangeira.

Convidado a fazer um show histórico no dia 18 de abril de 1980, na capital Harare, Bob Marley, pagou do próprio bolso as despesas da viagem de sua banda. Astro de renome na Europa e nas grandes cidades dos EUA, o maior reggaeman da história era praticamente desconhecido na África, assim como o movimento rastafári.

Mas incendiou a plateia em festa do novo país que surgia quando começou a cantar Zimbabwe, música gravada no ano anterior, que conclamava à autodeterminação dos povos, à revolução, à luta pelos direitos individuais.

“Essa canção é poderosa porque, embora Marley sempre mencionasse o pan-africanismo, pela primeira vez tratava de uma luta em particular”, explica a bibliotecária biomédica e produtora musical Dera Tompkins, que estava na plateia em Harare, com a emoção à flor da pele. Presenciava um país celebrar os soldados da revolução que seu amigo descrevia em canções.

Dera, que ouviu a gravação da música em Kingston, Jamaica, foi apresentada em 1974 ao ativista político Bob Marley antes de ouvir suas canções. Estava interessada em discutir socialismo e pan-africanismo, poder negro e um amigo comum os colocou em contato.

“Era uma luta em que não se esperava a vitória dos negros”, afirma Dera sobre a guerra civil no Zimbábue, lembrando que os brancos, embora fossem minoria, estavam muito mais armados. “Estar em Harare naquele momento era como estar em mil carnavais de uma vez. As pessoas cantavam a cappella pelas ruas”.

Ela ainda chora ao lembrar da notícia da morte de Marley, 13 meses depois do show em Harare, vítima de um câncer de pele. “Ele deixava a porta do quarto no St. James Hotel sempre aberta, pois queria se aproximar das pessoas”, recorda.

PopularEm setembro daquele mesmo ano, em uma tentativa de se tornar popular entre os negros dos Estados Unidos, o cantor e compositor aceitou abrir um show da banda The Commodores, em Nova York. Mesmo debilitado, Bob manteve seu último show, em Pittsburgh, antes de viajar à Alemanha, onde fez um tratamento alternativo.

Quando Dera e Marley se conheceram, Salvador já havia se rendido ao reggae. Gilberto Gil, que voltou do exílio em Londres em 1972, trouxe discos de Marley que eram sucesso absoluto na capital londrina e se tornaram a trilha sonora ideal para a “Roma negra”, que estava em busca de sua identidade, e que começava a engatinhar na valorização de uma nova estética, na afirmação do cabelo crespo e do legado africano.

Enquanto Marley e Dera se tornavam amigos, o Ilê Aiyê, primeiro bloco afro da cidade, comemorava sua estreia no Carnaval, com menos de 100 jovens negros dispostos a cumprir o objetivo de desfilar do Curuzu ao Campo Grande, mesmo com a ameaça de repressão policial.

Dera, que produziu o sul-africano Lucky Dube e a banda britânica Steel Pulse, conheceu Salvador em 1999, em uma viagem com 18 pessoas organizada por um amigo de Washington. Decidiu se juntar ao grupo depois de ser informada sobre a força do reggae na cidade. 

 

Salvador e Jamaica são meus lugares preferidos no mundo, diz Dera Tompkins/Imagem: Reprodução - A Tarde

No avião, uma amiga lhe entregou um artigo sobre o bloco e, ela acabou indo ver a saída do Ilê no sábado de Carnaval e, 15 dias antes, a Noite da Beleza Negra. Chorou ao ver o primeiro concurso de misses que exalta a beleza da mulher negra, não a sensualidade como no Carnaval do Rio, que tem forte ênfase nos corpos. “É legal, mas não é isso que estou procurando”, pontua.

Em uma conversa com Vovô, soube das apresentações que o Ilê faria em Nova York e Miami e, em 2000, conseguiu autorização para produzir um show extra em Washington, sua cidade. “Eu me impressionei com o Ilê Aiyê porque eles têm uma força cultural e política e não buscam apenas diversão”, explica. 

Além da influência musical de Bob Marley, o Ilê havia surgido com um discurso em favor do poder negro (nome originalmente proposto para o bloco por Vovô) e com a defesa da libertação das colônias europeias na África. Angola, por exemplo, só conquistou a independência de Portugal em 1975.

Dera Tompkins conheceu em 1999 Lazzo, de quem se tornou amiga, após um show dele no Pelourinho/Imagem: Reprodução - A Tarde

Ainda na primeira de suas cinco visitas à cidade, conheceu o cantor Lazzo, de quem se tornou uma amiga quase irmã. Foi um encontro casual. Dera se preparava para ir dormir depois de um dia de Carnaval quando uma argentina que estava hospedada no mesmo hotel que ela a convenceu a ir ao Pelourinho para um show que seria, segundo descreveu a sul-americana, imperdível. Não se arrependeu. Gostou tanto da música e foi falar com o cantor, de quem se tornaria hóspede em viagens seguintes. 

“O que? Você não conhecia minha música?”, pergunta Lazzo, como se estivesse decepcionado. Dera ri e tenta se explicar. Durante a conversa, alguns sinais da relação quase fraternal, como a menção que a norte-americana fez de que iria dar um pisão no pé do cantor depois da cobrança. 

“Eu quero ser como as pessoas daqui. Nos Estados Unidos, meus exemplos são europeus. O espírito africano é muito mais evidente e visível aqui”, declara.

Lazzo e Dera vão juntos hoje à Festa de Yemanjá, a primeira de Dera. Uma nova ida à Noite da Beleza Negra estava prevista, mas o concurso que sempre acontece duas semanas antes do sábado de Carnaval, este ano foi adiado para o dia 16 de fevereiro. 

Amanhã, 3, Dera volta para os Estados Unidos, a tempo de participar dos eventos que celebram em Washington a data de nascimento de Bob Marley, dia 6 de fevereiro. Mas diz que vai voltar em breve.

Em um curto vídeo que fala sobre ativismo político, Dera deixa claro, através de imagens, a importância de Salvador para ela. Seu apartamento em Washington está repleto de obras de arte da Bahia. “Em Salvador, sinto-me em casa. Salvador e a Jamaica são, para mim, os lugares mais importantes do mundo”.

 

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