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Escritos literários de negras e negros são evidenciados por pesquisadoras cearenses

Autor: Diego Barbosa Data da postagem: 12:00 18/06/2020 Visualizacões: 182
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Produção de escritoras e escritores negros expõe diferentes realidades e lutas/Foto: Arte: Jean Victor Cunha - Reprodução - Diário do Nordeste

Diante de movimentos antirracistas e reconhecimento de obras escritas por Machado de Assis e Carolina Maria de Jesus, professora Jacqueline da Silva Costa e poeta Ma Njanu refletem sobre a relevância das narrativas tecidas por negras e negros

Não foram poucos os gritos, ecoados e sentidos, ao redor do globo nas últimas semanas. Pela dor de perder alguém neste momento de pandemia do novo coronavírus; pelo alto grau de violência presente em distintas realidades; pela condição de ser quem é.

Considerando este último ponto, ganharam uma dimensão extra sobretudo reflexões ligadas a negras e negros, dadas as mortes brutais de George Floyd – afro-americano de 46 anos vítima da truculência de um policial nos Estados Unidos –; do menino Miguel Otávio, de apenas 5 anos, que caiu de um dos prédios de um condomínio de luxo, no Recife (PE), por negligência da ex-patroa da mãe e da avó; e de tantos outros acontecimentos que escapam à mão relacionados a vidas silenciadas por uma questão de cor de pele. Melanina. 

Não à toa, diversos foram os protestos pelo mundo – seja pondo o corpo na rua ou, em virtude do atual contexto, pela internet. O clamor veio e continua em uníssono: vidas negras importam. Tanto interessam que merecem estar sempre em voga, suas manifestações e modos de observar e presentificar a existência, suas formas de criar e tecer narrativas. 

Em inusitada sintonia, duas dessas histórias escritas por negros igualmente ganharam os olhos da audiência recentemente, contudo por edificante motivo. A nova tradução do livro de 1881, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis (1839-1908), esgotou em apenas um dia nos Estados Unidos; e, neste mês, se celebra os 60 anos de “Quarto de despejo - Diário de uma favelada”, obra visceral escrita por Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

Jacqueline da Silva Costa, professora adjunta do Curso de Pedagogia, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab-Ceará), no que toca ao feito do livro de Machado de Assis no exterior, situa que a obra inaugura o início do Realismo no Brasil e traz resquícios de um país escravocrata. 

“Talvez a curiosidade e interesse em ler a história esteja aí: primeiro pela notoriedade do autor e, segundo, por trazer detalhes desse passado brasileiro. A redescoberta do material pode estar na releitura de um país que se diz menos racista e que vive sob o manto da democracia racial. Machado de Assis desnuda a sociedade mostrando nossas mazelas e as relações desiguais vividas naquele período que perduram até hoje”, explica.

Avanços e deficiências

Segundo a professora, considerando a realidade em sala de aula, nos últimos 15 anos muito se foi feito em termos de legislação e políticas públicas para a inclusão de temas concernentes à população negra no Brasil.

Como exemplo, tem-se a Lei Federal 10.639/03, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases, garantindo a inserção da História e Cultura Afro-brasileira nos currículos escolares de instituições públicas, privadas e cursos de graduação de formação de professores (as). Infelizmente, porém, ainda há muito a se avançar nessa seara.

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

“Embora haja um enorme compromisso de pesquisadores (as), docentes da educação básica e superior, em manter esses temas, há pessoas que, dado o contexto político em que estamos inseridos, consideram os assuntos de menor valor, vistos até como temáticas ideologizantes e de esquerda. Os desafios para mantê-los no currículo, então, são enormes, tanto no Ceará como no Brasil. É um trabalho que não depende somente do professor e, sim, do empenho da escola como um todo e de uma política de governo que valorize e normatize cada vez mais a sua aplicabilidade”.

Da parte do setor do livro – ainda opressivamente branco – diferentes movimentos são realizados de modo a driblar essa lacuna. Embora falte um engajamento social muito maior, observa-se que mais obras escritas por negras e negros estão circulando, tendo em vista iniciativas como a da editora Malê (que busca dar visibilidade a autores africanos e afro-brasileiros) e de projetos como o Pretaria, primeiro serviço de assinaturas de livros especializado em literatura antirracista. O caminho, assim, fica menos nebuloso para que a diversidade reine.

Um dos mais recentes lançamentos do mercado editorial vai na mão dessa dinâmica – contemplando, mais uma vez, o Bruxo do Cosme Velho. Publicado pela editora Imprensa Oficial, do Governo do Estado de São Paulo, o box “Escritor por escritor - Machado de Assis segundo seus pares” reúne dois livros que analisam e registram a recepção de autores, artistas e críticos da obra do carioca.

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

Organizado por Hélio de Seixas Guimarães e Ieda Lebensztayn, traz textos de Mário de Andrade, Lima Barreto e outros, num necessário fluxo de valorização de um legado atemporal.

Profunda e existencial

Por sua vez, no que se refere ao ano em que se comemora as seis décadas de publicação de “Quarto de despejo - Diário de uma favelada”, escrito por Carolina Maria de Jesus, a escritora, poeta e educadora popular Ma Njanu evoca o apelido de infância da autora mineira para falar do alcance dela.

“É a menina Bitita quem, provavelmente, reescreveu ‘Quarto de despejo’ e nos trouxe de uma forma tão verdadeira, como nem os melhores livros de história do país escreveram, as chagas do racismo, tão enraizado em nossa sociedade. É ela quem traz reflexões profundas e existenciais sobre o sentido da vida, mas que o Brasil ainda se recusa a enxergar na obra de escritores negres. É esta a ressonância de sua obra em mim”, conta.

Para a artista cearense, o que Carolina nos diz é que é preciso ler a Carolina de verdade, sem estereótipos, tendo respeito por sua obra. “Considerando, principalmente, que a dor da fome não é um lugar de mártires, de fortalezas, mas representa uma realidade dura, que precisa ser enfrentada com justiça social. Não é bonita uma história que dói, não podemos romantizar os desastres coloniais. Sobretudo, é a inteligência e grandeza da menina Bitita que ressoam em mim, como uma jovem mulher negra que sou: muito além da dor”.

Ecos da vida e obra de Carolina Maria de Jesus podem ser sentidos de modo tão forte porque a trajetória dela foi de muita luta. Negra, catadora de papel e favelada, em sua obra-prima registra o duro cotidiano. Escreveu o texto nos cadernos encontrados em materiais recolhidos diariamente. Publicado em 1960, “Quarto de despejo - Diário de uma favelada” virou best-seller, traduzido para 16 idiomas. É a realidade crua de uma vida que, diante de tantas dificuldades, encontrou resistência pela literatura.

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

Pesquisa

Ma Njanu compreende isso muito bem. Tanto que, no posto de profissional da palavra, quer evidenciar o quanto o verbo se faz presente na vida de tantas mulheres em Fortaleza. Em setembro do ano passado, ela resolveu buscar conhecer mais a poesia feita por artistas negras da cidade, isto pelo fato de frequentar alguns saraus e não observar muito a presença delas ali, como também não haver muitas publicações delas na cena literária local.

“E pelo fato de me sentir sozinha, como poeta independente, nos espaços voltados para escritoras, onde dificilmente eu me deparava com mulheres negras. Foi aí que resolvi fazer algo”.

Iniciou um mapeamento de poetas negras da Capital que surge com a intenção de propor um coletivo para fortalecimento próprio e autoagenciamento. O levantamento busca mapear a existência das que nunca publicaram, com textos na gaveta ou começando agora. Também compõem o panorama as que já possuem trajetória poética consolidada.

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

A metodologia se organiza em duas frentes: divulgar o mapeamento pelas mídias sociais, e as mulheres que se autodeclaram negras ou indígenas enviam e-mail, com nome e contato; e por meio de um formulário digital, disponível nas redes – principalmente pelo perfil @ma_njanu, no instagram, e grupos de WhatsApp.

“Atualmente, o mapa conta com 49 nomes, principalmente de mulheres moradoras das periferias da cidade, de faixa etária entre 18 e 60 anos. Ainda estou em processo de coleta e aproximação com elas, uma vez que, por conta da pandemia, tive que paralisar a pesquisa. Isso faz parte de um projeto pessoal também para ingresso em outro mestrado, na área da literatura ou das ciências sociais”.

De acordo com Ma, um primeiro resultado da força do levantamento surgiu em novembro último, com o Pretarau - Sarau das Pretas, uma coletiva de artistas negras de Fortaleza e região metropolitana voltada para a celebração da literatura negra cearense.

Rompimento

Ainda que levando em conta essa iniciativa e um crescimento da difusão e consumo desse âmbito no Estado – vide a última edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará, em que se viu novos escritores surgindo, divulgando obras e projetos, bem como o fôlego apresentado pelas bibliotecas comunitárias e os próprios saraus das periferias, que oxigenam uma maior visibilidade de escritoras e escritores negros – há muito o que se romper.

“Se eu perguntasse a cada leitore da literatura cearense cinco nomes de escritores negres daqui, do Ceará e, pelo menos, um título de cada um deles, será que as respostas seriam positivas? Onde estão estas pessoas, especialmente as mais retintas, que escrevem neste Estado? Onde estão suas obras científicas e literárias? Tais questionamentos apontam feridas profundas, e ainda abertas, marcadas pela violência do projeto colonial pelo qual até hoje ainda atravessa nossa história”, diz Ma.

“Penso que muito antes de um problema de visibilidade, como as recentes movimentações antirracistas no Brasil querem fazer parecer, por exemplo, o que a gente enfrenta é uma questão estrutural. Também de visibilidade, mas principalmente do reconhecimento, da grande dívida histórica, da ausência de responsabilização por parte do Estado brasileiro e de fomento público, bem como um desastre em termos de concentração de renda. Mesmo em meio a todo este contexto, a literatura negra resiste e existe no Ceará”, completa.

Alguns nomes, como os de Sandra Petit, Hilário Pereira, Alex Ratts, Patrícia Matos, Jarid Arraes, Patrícia Cacau, Bicha Poética, Fran Nascimento, Lídia Rodrigues, Kinaya Black, Eduardo Africano, Ametista de Pinho, Elissânia Oliveira, Maria Raiane, Rômulo Silva, Gustavo Costa, Altemar di Monteiro, entre muitos outres, têm realizado um resgate importante de distintas escrevivências.

Também integra esse circuito a Academia Afrocearense de Letras, entre outros programas de difusão, circuitos literários e ações de coletivos e do movimento negro cearense em geral. "Por isso, conheçam! Comprem, paguem, empreguem, oportunizem, reconheçam, leiam, compartilhem, indiquem escritores negres!", convoca Ma.

Foto: Reprodução - Diário do Nordeste

A professora Jacqueline Costa corrobora a relevância de conferir repercussão a esses escritos ao contar que trabalha com as obras de Carolina Maria de Jesus em sala de aula, percebendo que a escrita da autora pode ser considerada como encorajadora.

“Muitas (os) estudantes se identificam com ela e passam a acreditar em si mesmas (os), que podem ser escritoras (es) com Carolina Maria”, explica. “A escrita dela deixa um legado importantíssimo para o Brasil e para todas as pessoas, independentemente de sua cor. Desmitifica o biotipo ‘ideal’ de escritora e de narrativas lidas até então”, complementa.

Carolina, Machado e tantos outros, insubmissos, plantaram essas sementes. Que venham ainda mais frutos.

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