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Ô sorte a nossa: ‘AmarElo – É tudo pra Ontem’ conta história brasileira que tentam apagar, por Paulo Victor Melo

Autor: Paulo Victor Melo Data da postagem: 10:00 24/12/2020 Visualizacões: 228
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Ô sorte a nossa: ‘AmarElo – É tudo pra Ontem’ conta história brasileira que tentam apagar/Reprodução: Revista Fórum

Documentário já é uma obra histórica e mostra o papel fundamental de negros e negras em todo o processo de formação da maior metrópole do Brasil, nas mais diferentes áreas e épocas.

Com um rigoroso trabalho de pesquisa, o documentário situa a contribuição fundamental da intelectualidade negra na cidade de São Paulo. Sem deixar de mencionar o já relativamente conhecido e também importante papel dos negros e negras que carregaram vigas e colocaram cimento na construção de cada prédio que povoa a maior cidade do país, Emicida nos conta outra história. Esta, mais silenciada. A de que São Paulo também não existiria sem o protagonismo de intelectuais negros e negras.

E Emicida ajuda cada um de nós a não ter dúvidas sobre isso quando narra que boa parte da região central de São Paulo foi pensada e planejada por Tebas, arquiteto negro escravizado, alforriado apenas aos 58 anos. Foi Tebas (Joaquim Pinto de Oliveira) o responsável, por exemplo, pelos projetos de restauração do Mosteiro de São Bento (1.766 e 1.798) e da Catedral da Sé (1.778).

Com uma apurada lupa para a sua cidade que o formou, Emicida não esquece, porém, de ir além e mostrar que, na real, não existiria Brasil sem o pensar negro.

Como falar de forma crítica dos aspectos da nossa formação, das desigualdades históricas do nosso país e do racismo como estruturante das nossas relações sem conhecer Luiz Gama, Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez?

É para isso que Emicida nos chama a atenção, ao contar um pouquinho da história do baiano que ficou conhecido como o advogado da liberdade, do paulista que ousou criar o Teatro Experimental do Negro e da mineira que foi reconhecida por Angela Davis como mais importante que ela própria, para falar sobre a articulação raça-gênero-classe. Está tudo documentado em AmarElo.

E mesmo ressaltando alguns/mas intelectuais, como Tebas, Gama, Abdias e Lélia, Emicida nos diz o seguinte: a história do povo negro brasileiro é uma história essencialmente coletiva.

Por isso que ele se emociona e nos emociona ao homenagear o Movimento Negro Unificado, seja contando parte da história de fundação do grupo, seja fazendo o público que lotou o Teatro Municipal no seu show em novembro de 2019, cenário por onde se desenvolve o documentário, aplaudir de pé integrantes do MNU que resistiram à ditadura militar e que estavam na plateia.

Falando em Teatro Municipal, Emicida demonstra que nada é por acaso em sua obra. Em diversos momentos, ele justifica a escolha daquele lugar específico para o show/documentário. Pede que ali não seja jamais um espaço distante dos negros e negras.

E foi justamente nas escadarias do Teatro Municipal, em julho de 1.978, que aconteceu o ato público de fundação do Movimento Negro Unificado.

E quem foi a primeira mulher negra a atuar no palco do Teatro Municipal? Emicida nos faz saber: Ruth de Souza.

Em minha opinião, Ruth dividia com Fernanda Montenegro um degrau superior em relação a todas as outras atrizes e atores do nosso país. E se o documentário já nos faz arrepiar quando Fernanda Montenegro declama parte da música Ismália, do disco AmarElo, imaginemos qual seria a sensação ao vermos Ruth e Montenegro juntas? Essa era a intenção de Emicida, como ele mesmo diz no documentário, o que não foi possível pela morte, em julho de 2019, da primeira brasileira indicada ao prêmio de melhor atriz em um festival internacional de cinema.

A música feita por negros e negras, que inclusive inspira a sua própria produção musical, tem também destaque no documentário de Emicida. Mateus Aleluia, Johnny Alf, Wilson Simonal, Leci Brandão, Oito Batutas, Paulinho da Viola e outros e outras são citados do início ao fim, nos deixando com uma responsabilidade: fazer chegar aos mais jovens a certeza de que não haveria música no Brasil, nos mais variados estilos e ritmos, sem o papel preponderante de artistas negro(as).

O documentário é recheado de outros momentos emocionantes, como o choro do pastor Henrique Vieira ao ouvir Principia, música que ele participa no álbum AmarElo, as gargalhadas de Emicida e Fabiana Cozza no estúdio, os diálogos sobre opressões e interseccionalidade e a espetacular interpretação de Emicida, Pablo Vittar e Majur ao cantarem Sujeito de Sorte, de Belchior, além da homenagem a Marielle Franco.

Um “capítulo” especial do documentário (e da vida de Emicida) é a relação de amizade constituída com Wilson das Neves, que, como cantado em Quem tem um amigo tem tudo, foi um orixá que o menino pretinho nascido e criado na Zona Norte de São Paulo teve a honra de conhecer em vida.

Com Wilson das Neves, mas também com o MNU e com Dona Jacira, que ele orgulhosamente chama de “mãe”, Emicida agradece aos mais velhos e pratica o que nos ensina a filosofia africana Ubuntu.

“Eu sou porque nós somos. Eu só existo porque nós existimos.”

Ô sorte a nossa, Emicida.

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