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Pixinguinha e outros grandes nomes da cultura negra são homenageados com painéis em muros do RJ

Autor: Filipe Brasil Data da postagem: 12:00 08/04/2021 Visualizacões: 196
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Pixinguinha é homenageado com painel na parede do MIS Rio, na Lapa, Centro do Rio/Reprodução: G1

O painel do maestro foi pintado na parede do Museu da Imagem e do Som, na Lapa. O trabalho entregue na última quinta-feira (25) foi realizado pelo projeto Negro Muro, responsável por outras 14 homenagens a figuras como João Cândido, Mussum, Marielle Franco, Cartola e Mãe Beata Iemanjá.

Um dos maiores compositores e instrumentistas da música popular brasileira, Pixinguinha foi homenageado na última quinta-feira (25) com um painel de 150 metros quadrados, pintado na parede do Museu da Imagem e do Som do Rio (MIS Rio), na Lapa, no Centro da cidade. A obra faz parte de um projeto que tem como objetivo fortalecer a memória de importantes figuras negras do Rio.

O desenho conta com duas imagens do músico: uma tocando o saxofone e outra usando um chapéú, que segundo o artista urbano Cazé, foi executada para parecer que olha na direção da Escola de Música da UFRJ, próxima ao museu.

Maestro, flautista, saxofonista e arranjador brasileiro, Pixinguinha é considerado uma das figuras mais importantes do que se entende hoje como Música Popular Brasileira (MPB).

Nascido em Piedade, na Zona Norte do Rio, o músico tem forte relação com a Lapa, onde foi homenageado. Sua primeira experiência profissional na música, aos 14 anos, foi na casa de chope La Concha, localizada no bairro.

A homenagem retrata ainda o conjunto musical Oito Batutas, formado em 1919, por Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, e seu irmão Otávio Vianna (o China), Donga, Raul e Jacob Palmiére, Nelson Alves, José Alves e Luís Silva.

A arte foi finalizada após 18 dias de trabalho: seis de reforma da parede e 12 de pintura. Foram usados 54 litros de tinta para preparar a superfície e 80 tubos de spray.

Projeto Negro Muro

O painel é o maior já realizado pelo projeto Negro Muro e foi concebido em parceria com o MIS, que tem um acervo importante da trajetória do maestro Pixinguinha. Um dos saxofones do compositor faz parte deste acervo.

O produtor cultural Pedro Rajão e o artista Fernando Sawaya, conhecido como Cazé, responsáveis pelo projeto, contam que o desejo de pintar o músico já vinha de algum tempo e a oportunidade de imortalizar Pixinguinha no museu na Lapa foi "um dos momentos mais importantes, se não o mais importante do Negro Muro".

"É um projeto que tem um vínculo com o território e o objetivo de fortalecer uma memória social com relação às figuras negras da nossa cultura. E o museu foi muito receptivo nesse sentido, apesar de toda a complicação de ser um prédio tombado. Então acho importante evidenciar esse formato de arte, porque arte é sempre relacionada a museus e galerias. E o grafite, sendo uma forma de arte negra, que vem do hip-hop, não deve ser vista como arte inferior. Então a gente faz esses muros no intuito de chamar a atenção pra isso, para a negritude da nossa história e esses personagens que ainda não estão em monumentos, em lugares de exaltação", afirmou Rajão em entrevista ao G1.

O produtor cultural Pedro Rajão e o artista urbano Cazé estão à frente do projeto Negro Muro/Reprodução: G1

O produtor relembra ainda a importância de Pixinguinha e seu grupo musical no momento posterior à gripe espanhola no Rio, em 1918, quando a cidade se recuperava da pandemia e os estabelecimentos sofriam com a ausência de público.

"É um muro que traz à tona muitas histórias. O Pixinguinha, Os Batutas, o choro, o samba tiveram um papel muito importante na retomada da cidade, no pulsar das atividades, das ruas, depois da gripe espanhola. E ele está lá como um farol pra gente, naquele lugar gigante, imponente dizendo 'isso vai passar, eu estou aqui, eu sei o que vocês estão passando'", disse Pedro Rajão.

O conjunto Oito Batutas realizou a primeira apresentação em 7 de abril de 1919, como principal novidade do antigo Cine Palais, na Avenida Rio Branco, no Centro, durante a reabertura das portas após o surto de gripe espanhola.

Outras homenagens

Pelo projeto Negro Muro, o artista Cazé foi responsável por outras 14 intervenções urbanas no Rio com o mesmo intuito de resgatar a memória de personagens negros.

Entre os homenageados, estão João Cândido, líder da histórica Revolta da Chibata, Marielle Franco, a cantora Clementina de Jesus, o ator e humorista Mussum, o maestro Moacir Santos, a líder religiosa Mãe Beata de Iemanjá e o grande compositor Cartola.

"Sem dúvida, sempre foi nosso objetivo dar a esses personagens o tamanho que eles merecem. Enaltecer e trazer essas figuras como monumentos. Tornar um mural de arte urbana um monumento público, com história e conhecimento, sendo público e explícito, como essas figuras devem ser. Então entendo que o projeto cumpre um papel cultural e educacional no quesito de interferência de artes urbanas espalhadas pela cidade", afirmou o artista.

João Cândido

Outro retrato produzido pelo projeto ainda este ano, em fevereiro, foi o da figura histórica de João Cândido. Ele foi um militar negro da Marinha Brasileira, que liderou, em 1910, o movimento que ficou conhecido como Revolta da Chibata.

A mobilização dos oficiais aconteceu em resposta aos castigos físicos aplicados aos marinheiros, que, apesar de proibidos, ainda permaneciam como herança do tempo da escravidão.

Muro em homenagem a João Cândido, em São João de Meriti, na Região Metropolitana do Rio/Reprodução: G1

O produtor Pedro Rajão fala sobre as interferências que as pinturas têm no território onde são realizadas.

"Determinados lugares onde a gente pinta se tornam até mesmo um tipo de atração turística. Nós pintamos na própria casa do João Cândido em São João de Meriti. Teve inauguração e, inclusive, o local ganhou uma placa dada pela Alerj, em homenagem ao personagem que foi considerado herói estadual. E toda essa mobilização também reativou um projeto que já tem 13 anos, de criar um museu do personagem ali no Morro do Embaixador, em São João de Meriti", contou o produtor cultural.

Marielle Franco

O painel com o desenho da vereadora Marielle Franco, criada na favela da Maré e assassinada em março de 2018, foi pintado na rua André Cavalcante, na Lapa, onde Marielle transitava entre os compromissos na Câmara dos Vereadores e os eventos acadêmicos, culturais e políticos na região.

"Pintar a Marielle foi muito importante, porque a notícia da morte dela impactou muito a gente. A primeira versão do desenho nós fizemos logo no dia seguinte ao assassinato. E já foi bem tenso na rua, muita hostilidade, pessoas xingando e sem entender o por quê da intervenção. E quando passou um ano do falecimento, atualizamos o retrato e foi a mesma pressão na rua, vários carros de polícia passando, bem intimidador e desafiador. Mas acabou dando tudo certo e a parede não sofreu nenhuma danificação", contou o artista Cazé.

Muro em homenagem à Marielle Franco, na Lapa, no Centro do Rio/Reprodução: G1

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