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Prof. Ivanir dos Santos: “Temos histórias muito bonitas, não temos só a história do negro criminoso”

Autor: MARIA GAL Data da postagem: 16:00 23/08/2021 Visualizacões: 211
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Prof. Ivanir dos Santos/Foto: Brunno Rodrigues - Reprodução - Vogue

Refletindo a presença e visibilidade de pessoas negras no audiovisual, a atriz Maria Gal, em nova coluna de Vogue Gente, entrevista o babalawô, professor, doutor em História Comparada e conselheiro estratégico Ivanir dos Santos

Como sabemos, o movimento negro no Brasil existe desde sempre. Apesar da pauta ter ganhado grande proporção a partir do ano passado, infelizmente, por conta do assassinato do George Floyd.

Sem dúvida, um dos nomes mais importantes do movimento negro atual é o professor e doutor Ivanir dos Santos, com um legado de mais de 40 anos na luta antirracista e que também está à frente da produção de um importantíssimo documentário na Globoplay sobre o movimento negro. 

Então, pra mim é uma grande honra poder compartilhar na coluna trechos da nossa conversa e parabenizar a Globoplay pela excelente iniciativa.
 
Com vocês, o professor doutor Ivanir dos Santos.   

Professor, como você vê a questão do audiovisual no Brasil, pensando que 56% da população é negra, e em contradição há uma imensa invisibilidade negra à frente e por trás das câmeras nas grandes produções?

Vamos primeiro observar o audiovisual do Brasil, por em questão dos negros e negras no debate racial, a sua representação. Você sabe que tem uma pesquisa da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), sobre diversidade de gênero e raça, de 2016, que mostra que, em torno de 2,1% das produções tinham diretores e roteiristas negros. E também, naquele momento, disse que não haver nenhuma diretora negra nas chamadas “as grandes produções”. Isso demonstra, sob o ponto de vista estatístico e empírico, o problema, da relação do negro no audiovisual. 

Qual a diferença entre hoje e os anos 1960, por exemplo?

Não mudou muito. Tinha uma novela que se chamava A Cabana do Pai Tomás e o principal ator era um branco pintado de preto. Isso levantou uma crítica na época, os atores, o pessoal envolvido com a novela, naquele período, Milton Gonçalves, Jorge Coutinho, Ruth Souza e outros artistas que faziam parte da novela, criticaram muito, fizeram um movimento público.

Posteriormente, a emissora fez uma novela que colocava o Milton Gonçalves como um psicólogo que não tinha família. Nos anos 1990 houve, justamente, uma novela em que o Tarcísio Meira chamava um negro e o destratava de forma grosseira, o que levantou uma crítica séria, pública na época. Logo depois teve pela primeira vez uma família negra numa novela liderada pelo Pitanga. Ainda assim, como era essa família? De caráter duvidoso. Nesse tempo as produções se davam muito no tempo da escravidão, os escravos, depois passaram a aparecer um pouco mais, algum profissional liberal solo.  E por aí vai...  

Como você enxerga as consequências dessa invisibilidade negra no audiovisual brasileiro?  Pergunto porque o Abdias Nascimento falava que a invisibilidade simbólica é tão cruel quanto a invisibilidade física e gostaria que você falasse um pouco sobre isso.  Quais os reflexos negativos que isso traz para nossa sociedade?

Abdias diz isso com muita propriedade, o Fanon também fala muito sobre isso. Que você tem uma invisibilidade e quando tem visibilidade, tem uma visão estereotipada, parece que o negro é só aquilo. É o que você observa que normalmente as produções dos audiovisuais desde os anos 1940/1950, os papéis estereotipados, na religiosidade do candomblé e da umbanda ou do futebol e do samba

Nos grandes sucessos do cinema nacional, somos produtores de violência, o filme Cidade de Deus é isso, embora a intenção do Paulo Lins ter sido outra. Não tem negros nas outras produções, por exemplo, no fundo da história como organizador da resistência política. E na verdade, a configuração abolicionista era organizada porque tinham operários, alguns brancos abolicionistas, e a princesa Izabel ficou como se fosse a grande redentora, essa construção é histórica e esse apagamento reflete no audiovisual.

E quanto ao reflexo disso na sociedade?

Primeiro, o impacto na comunidade negra. Se você não se vê refletido, se você não se vê numa construção positiva... Não é à toa que na comunidade negra, o menino quer ir para as escolas de samba. Que também são importantes, mas não são o único lugar. Ninguém conhece a história de Juliano Moreira, um cara importantíssimo para o Brasil, o Rebouças, Antonieta de Barros... 

E pra finalizar, o Spike Lee já falava dessa questão do lugar de fala no audiovisual, de ter roteiristas, produtores, diretores negros. E queria que você falasse um pouquinho sobre isso. 

Sim, é muito comum ver nas produções, normalmente, o diretor negro e o roteirista branco, ou vice versa, ou então o protagonista é negro e toda equipe branca.

Aqui no Brasil, com esse negócio da democracia racial sobre todos, cada vez mais vai contra nossa comunidade. Essa construção é muito ruim para nós. Então como é que podemos chegar, de fato, a ter uma narrativa voltada para as nossas representações associadas aos vários campos? Seja na economia, na política, seja cultural, tem personagens importantíssimos para serem contados e contada por nós mesmo. Não quer dizer que será exclusiva nossa, não é isso.

Mas tem que ter nosso olhar, se fizermos o Zumbi dos Palmares, vai ser diferente, se nós formos fazer um filme sobre Cidade de Deus, com certeza vai ser diferente, com certeza vai aparecer aquela mãe batalhadora, que não quer que o filho se envolva com a criminalidade, porque isso também existe. Essa discussão não cabe para nosso grupo sem levar em conta das lutas do cotidiano das mulheres negras nas comunidades.

Então a narrativa é importante, tem que ter diretores e roteiristas e o cara da câmera, tem que ter o olhar do cinema brasileiro, cada vez mais. Eu tenho dialogado muito com o campo internacional também. Agora mesmo no meu almoço, com a Ivy da Fundação da Beyoncé, com a produtora dela, eu falei sobre isso. Na minha conversa com ela, falei de várias coisas e também sobre essa questão das produções nossas, de contar nossas histórias, tem histórias muito bonitas, não temos só a história do negro criminoso.

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