Precisam parar de matar os negros também na dramaturgia, dizem atores da série ‘Sintonia’

Autor: Camila da Silva Data da postagem: 14:00 29/12/2021 Visualizacões: 64
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OS ATORES JEFFERSON SILVÉRIO (À ESQUERDA) E JÚLIO SILVÉRIO (À DIREITA) INTERPRETANDO RIVALDINHO E JASPION NA SÉRIE 'SINTONIA'/ Imagem: Reprodução - Divulgação - Carta Capital

Kethlen Romeu, João Pedro, Evaldo dos Santos e Gustavo Cruz são alguns dos jovens que perderam a vida por violência policial. Este é o cenário retratado pela segunda temporada da série brasileira Sintonia, exibida pelo Netflix.

Durante um baile funk em uma fictícia periferia da cidade de São Paulo, jovens são alvos de tiros. Entre os mortos está o barbeiro Rivaldinho. Do bálsamo da risada ao desconforto da reflexão, a arte também desempenha um papel para a luta antirracista. Para expor as faces desse compromisso social da cultura, CartaCapital entrevistou em live no Instagram os atores Jefferson Silvério e Júlio Silvério.

Os irmãos interpretam Rivaldinho e Jaspion, personagens que têm um papel bem diferente do cenário impactante da violência. “Eles trazem um alívio cômico na série. São personagens que carregam muita alegria na série e muita representatividade”, avaliam.

Representatividade que se interliga com as próprias vivências. Os gêmeos de 36 anos, nascidos e criados na Cohab II, periferia de Itaquera, em São Paulo, sentem as dores e as delícias de carregar a pele preta e o contexto periférico em suas jornadas.

“Falta os filmes e as séries mostrarem esses corpos, que já são marginalizados pela política, em outros lugares. O Jaspion e o Rivaldinho são barbeiros, não mostram eles como os traficantes”, explica Júlio Silvério.

Os irmãos destacam também a mudança que essa representatividade pode promover nos bastidores. Ali, a maioria ainda é branca: entre os diretores, os brancos somam 75,4% e entre os produtores, 59,9%, segundo a pesquisa “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016″, divulgada pela Agência Nacional do Cinema em 2018.

“Se é um roteirista preto que está ali escrevendo, será que ele iria escrever dessa morte do Rivaldinho? Será que ele não ia dar mais espaço para ele falar dos sonhos dele?”, questiona Jefferson Silvério.

Jefferson conta que a morte do personagem gerou uma repercussão dolorosa com alguns espectadores que se enxergavam nele. “Quantas mensagens eu recebi falando ‘a culpa é sua, eu entrei em depressão por causa de você’, e eu ligava para esses jovens para falar ‘fica bem, eu tô vivo. A culpa não é minha, é do sistema, e isso acarreta muitas outras coisas.'”

A preocupação, no entanto, vai além de seu papel. “Quando recebo a notícia de que o Rivaldo vai ser morto, a primeira coisa que penso é ‘putz, estou desempregado’. Eu, que sou preto, penso nisso”, pontua Jefferson. Júlio complementa: “Precisam parar de matar, de silenciar a gente na dramaturgia”.

A morte do personagem, em outro trabalho dos irmãos, fica nas mãos da plateia. Com a peça Ensaio para Dois Perdidos, inspirada em uma das obras mais importantes de Plínio Marcos – Dois Perdidos numa noite suja -, o público escolhe o destino de um jovem que se envolve com o tráfico de drogas.

Para a manutenção da peça, encenada em conjuntos habitacionais de São Paulo, os editais não foram uma opção. Os irmãos pretendem esperar um novo governo para buscar financiamento público.

Entre os motivos para o recuo estão a burocracia para conseguir o fomento e o desalento com a postura dos “cabeças” que representam a Cultura.

“É triste. Como eu vou entregar um espetáculo meu nas mãos desses caras [Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, e Mário Frias, secretário especial da Cultura] em um edital? Eles não vão aceitar uma peça em que a gente denuncia o racismo e a homofobia, então é muito triste. É só esperando 2022 com o Lula”, desabafa Júlio Silvério.

 

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