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O Comandante Negro das Matas renasce nas telas

Autor: Flávio Carrança Data da postagem: 16:36 28/04/2014 Visualizacões: 6313
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Está em fase de finalização o longa-metragem “Onde está Osvaldão?”, documentário que conta história dessa figura mítica da guerrilha que o Partido Comunista do Brasil (PC do B) organizou na região do Araguaia (PA) entre o final dos anos 1960 e início do 70. Nascido na cidade mineira de Passa Quatro, em 1938, Osvaldo Orlando da Costa era um homem negro com mais de dois metros de altura, que chegou a ser campeão carioca de boxe pelo Club de Regatas Vasco da Gama, na década de 1950, carreira que abandonou quando surgiu a oportunidade de estudar engenharia em Praga, na antiga Checoslováquia, onde viveu por alguns anos.

Bernardo Joffly, no livro Osvaldão e a Saga do Araguaia (Expressão Popular, 2008), conta que foi em Praga que Osvaldo filiou-se ao PC do B, passando posteriormente por um treinamento militar na China, tendo voltado ao Brasil em outubro de 1964 para se tornar um dos principais guerrilheiros do país.

Primeiro combatente a chegar ao sul do Pará, em 1967, com a missão de implantar uma guerrilha junto com outros militantes, Osvaldão tornou-se o maior conhecedor da área entre os participantes. Morreu em 1974, com 35 anos, desarmado e faminto. Seu corpo foi pendurado em um helicóptero para provar ao povo que estava morto e tentar desfazer a lenda de imortal que ganhara junto ao povo da região. O título do filme “Onde está Osvaldão?” alude ao fato de que até hoje seus ossos não foram encontrados.

Líder do coletivo que dirige o filme, Vandré Fernandes conta que a decidiu fazê-lo quando recebeu imagens de Osvaldão feitas na Tcheco-Eslováquia. “Quando essas imagens chegaram a mim, no ano passado, - conta Vandré - eu pensei: dos grandes comandantes que lutavam contra a ditadura, - como Lamarca e Marighela - o Osvaldo surgia então como o primeiro que tinha imagens em movimento. Ele já tem essa simbologia, de ser o comandante da Guerrilha do Araguaia, feita no campo, diferente da urbana. E aí, com as imagens na minha mão, achei que dava para fazer um documentário.”

Também contribuiu para decisão de fazer o filme o desejo realçar a condição de comandante da guerrilha de Osvaldão, colocá-lo no mesmo patamar de outros dirigentes. Vandré também lembra que, diferente de todos os outros que lutaram, Osvaldo fincou certa raiz na região. “Hoje se você chega na região do Araguaia e pergunta quem é o Osvaldão, todo mundo lá responde, criou-se um mito em torno dele. Muita gente acredita que ele, quando ia lutar contra o exército, virava toco, bicho. Outra coisa que me motivou muito foi contar a história de um comandante negro. Geralmente os negros ficam fora quando se trata de ditadura militar. Ninguém fala que os negros lutaram contra a ditadura militar.”



Vandré afirma que se conta muito pouco a história de heróis negros no Brasil e lembra que, apesar de mais de 51% da população brasileira ser negra, as últimas referências são Zumbi e João Cândido. Diz que isso é uma motivação para o coletivo trabalhar um pouco mais o aspecto do Osvaldo ser negro e de ser comandante e informa, ainda, que estão buscando músicas que falem mais do negro para ilustrar o filme. De acordo com o diretor, as imagens destacam as cartas que Osvaldo escreveu de Praga para o pai, nas quais se refere muito à sua cor, e que Praga ficou encantada em ver um negro. Mas Vandré também faz questão de indicar que Osvaldo não tinha o racismo como principal preocupação. “O movimento negro para ele não existe, ele é um comunista, ele tem claro isso, ainda não está tão aflorada essa questão. Mas a gente traz no filme porque achamos importante colocá-lo como um herói brasileiro, um herói negro.”

Produzido por Renata Petta e dirigido pelo Coletivo A Margem, integrado por Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles, o documentário, gravado em digital, tem 1h30 de duração e cenas captadas em Passa Quatro, Araguaia e Rio de Janeiro. A realização é da Fundação Mauricio Grabois, Clementina Filmes e Estrangeira Filmes. A intenção de Vandré é, nos próximos quatro meses, colocar o filme em festivais, para torná-lo mais conhecido, prevendo o início da exibição em circuito de cinemas a partir do final deste ano ou início do ano que vem.

Veja o teaser do filme:

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