Tássia Reis: a força da mulher negra no rap

Autor: Anna Beatriz Anjos Data da postagem: 17:00 04/08/2015 Visualizacões: 925
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25 anos e considerada uma das promessas do rap nacional

Aos 25 anos e considerada uma das promessas do rap nacional, a artista fala sobre carreira, feminismo, racismo e destaca a importância da estética como caminho para a compreensão de sua identidade enquanto mulher negra: “Sou negra e sou maravilhosa porque, sim, essas coisas estão na mesma frase”

Tássia Reis é dona de uma voz de veludo e de um flow sofisticado, que se fundem em melodias ao mesmo tempo poderosas e suaves, daquelas tão gostosas de se ouvir que, quando nos damos conta, já as escutamos por vezes seguidas. Aos 25 anos, a rapper, natural de Jacareí, no interior de São Paulo, levou com a reportagem da Fórum um papo descontraído, sintonizado à trajetória de quem já alcançou conquistas significativas – como um EP próprio, em meio ao cenário da música independente –, e vislumbra no horizonte planos e sonhos ainda maiores.

Tássia tem riso fácil, mas endurece ao tocar em assuntos sérios, que lhe são caros. Num discurso articulado, em que convergem reflexões diversas sobre o mundo ao seu redor e sua vivência enquanto mulher negra, dispara “pencas de textos”, como gosta de dizer, sobre racismo, feminismo, afirmação da identidade negra, machismo no rap e outros temas mais.

O resultado dessa soma de fatores é uma entrevista tão autêntica e forte quanto a própria artista, que confessa sentir o peso da discriminação racial estruturante de nossa sociedade, mas se orgulha de cada um dos traços que revelam sua ancestralidade. “É muito louco quando a sociedade te impõe uma parada, e aí você fica refém e tenta se adequar, mas nunca consegue, porque o lance não é seu cabelo, é você, é sua pele. Então por que você não pode ser simplesmente o que é?”, questiona. “Estou muito feliz porque, a cada etapa que passa, penso que meu cabelo está lindo e não consigo mais me deixar influenciar pelas imposições.”

Confira:

Fórum - Como se deu seu envolvimento com a cultura hip hop? Qual o papel que ela teve – e continua tendo – na sua vida?

Tássia Reis – Eu comecei a dançar em um projeto, em um centro cultural em Jacareí, que é a minha cidade. Via os clipes – era aquela época do DVD Black Total, sabe? –, via aquela estética e já entendia que aquilo me chamava de alguma maneira. Fui nessa aula, e aquilo mexeu comigo de uma tal maneira que pensei: gente, é isso que quero fazer da minha vida. Eu tinha 14 anos. Comecei a fazer aulas, tinha eventos, movimentações, ações, oficinas de outras coisas. Naquele primeiro momento, estava só dançando, mas depois fui me introduzindo na cultura Hip Hop mesmo. Aconteciam muito eventos de rua, onde tinha uns stands com livros e filmes antigos, que falavam também sobre o movimento negro, Malcom X, Martin Luther King, Panteras Negras, e aquilo foi me despertando e me envolvendo. Fui entrando nesse meio, nessa cultura, e quando eu vi estava vivendo aquilo, respirando aquilo. E me contemplou de todas maneiras, desde a minha identidade estética mesmo – pensei: esse grupo é o meu grupo, as pessoas aqui têm cabelo crespo, estão sorrindo, lutando, acho que é isso mesmo. Aí me encontrei. Desde então, não consigo – nem tento –, não quero desvincular isso de mim.

Fórum – Quais suas principais influências musicais?

Tássia – Para falar sobre minhas influências preciso pensar sobre o que ouvi desde criança. Os meus pais são muito artísticos, apesar de não serem artistas de fato. Mas sempre gostaram de ouvir música, cantar, dançar – meu pai dançava durante a adolescência, tinha um grupo em homenagem aos Jackson 5, usava black power. James Brown eu ouvia em casa, aprendi até a fazer um passo que se chama James; lembro que ele [pai] tinha uma fita do Ray Charles, e sempre foi conectado com tecnologia. Então, quando saiu o CD, ele comprou um rádio que tocava CD e vários CDs. [Ouvia] Muito samba – Fundo de Quintal, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho, Clara Nunes, por quem minha mãe é apaixonada, e eu acabei ficando também. Além da MPB, mas trazendo para a música preta: Tim Maia, Djavan, Jorge Ben. Uma das primeiras músicas que lembro de cantar com a minha mãe, quando ela estava lavando roupa, é Ê Baiana, da Clara Nunes.

Quando comecei a dançar, já escutava rap. Meu irmão ouvia muito rap na minha casa, às vezes ficava um pouco irritada porque ele colocava às 7h da manhã e eu não queria ouvir às 7h da manhã (risos). Mas aí prestava atenção às letras – sempre fui conectada com letras, porque gostava de escrever poesia – e achava legais. Quando ele chegou com o CD do Sabotagem, falei: gente, esse cara é bom! E um dia me pegou ouvindo o disco sem ele ter colocado. Depois vieram RZO, Expressão Ativa, Conexão do Morro, o CD da [rádio] 105 FM, do Espaço Rap. Fui ouvindo, e quando comecei a dançar já tinha algum contato, não era crua. Fora os Racionais, que a gente escuta desde que se entende por gente, pelo menos as pessoas da minha geração em diante.

Depois que comecei a dançar e escrever, já tinha alguma idade para procurar o que queria, e passei a buscar outras coisas além do rap nacional. Na dança mesmo, a gente ouvia muito A Tribe Called Quest, De La Soul, anos 90 no geral. Passado um tempo, tendo esse despertar também da minha posição enquanto mulher negra na sociedade, comecei a pesquisar mais as mulheres, mas acho que ainda estou no início da pesquisa (risos).

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