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E se a crise da Europa e dos EUA durasse 200 anos? Assim é no Haiti, um país invisível

Autor: Vicky Pelaez Data da postagem: 12:30 11/08/2015 Visualizacões: 769
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Estamos acostumados a falar sobre a crise econômica que tem afetado, durante os últimos sete anos, o bem-estar dos norte-americanos e europeus, mas sequer imaginamos o que aconteceria se a crise atual durasse mais de 200 anos. Qualquer um diria que isso é impossível.

Há, no entanto, casos em que a realidade ultrapassa a imaginação. Há um país do Caribe, que é quase uma nação invisível, se chama Haiti e seu povo tem lutado para sobreviver desde 1804, devido a uma grave crise econômica resultante da ingerência da civilização ocidental.

E pensar que o Haiti, que foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão – três anos antes que a Inglaterra – e foi o primeiro na América Latina e no Caribe a declarar independência, em 1804; por isso foi finalmente "jogado no lixão para o eterno castigo de sua dignidade”, como disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano.

Isso provoca indignação e rechaço de qualquer ser humano pensante. Parece que o ocidente até agora não conseguiu assimilar o fato de que uma nação povoada por descendentes de africanos, mulatos e negros quilombolas tenha resistido ao domínio espanhol e, mais tarde, ao francês quando os espanhóis cederam a parte ocidental da ilha A Esmeralda, em 1697, e não se conforma com o novo mestre de seu destino. Naquela época, o Haiti estava povoado por 300 mil escravos e 12 mil pessoas livres: principalmente brancos e mulatos.

O crime de ser independente

A luta pela emancipação levou mais de 100 anos, até que em 1803 dezenas de milhares de rebeldes, sob a liderança de Jean Jacques Dessalines, derrotaram as tropas de Napoleão Bonaparte na batalha de Vertierres, onde mais de 20 mil soldados franceses e cerca de 4 mil legionários poloneses morreram. Os haitianos também perderam metade da sua população. As plantações de cana-de-açúcar foram destruídas durante a guerra, e o país inteiro, que durante o regime colonial francês fornecia a metade do açúcar e do café consumidos na Europa, estava em ruínas.

Para finalizar, os europeus e os norte-americanos apoiaram o bloqueio imposto pela França obrigando o Haiti a pagar uma indenização pelos danos que fez ao país gaulês por se libertar. Os 150 milhões de francos-ouro que o Haiti teve de pagar e os juros correspondentes durante um século definitivamente arruinaram a economia do país.

Por desgraça, aí não terminaram as calamidades do pobre Haiti. Nenhum país reconheceu a sua independência, com a exceção da França, em troca de dinheiro. Incrivelmente, o homem que lutava pela liberdade dos povos, Simón Bolívar, também não a reconheceu, apesar de o Haiti ter lhe dado abrigo, armas e soldados quando chegou derrotado à ilha em 1816. No início do século XX, em 1909, o National City Bank de Nova York voltou seu olhar para o Haiti e se apoderou do país sob o pretexto de tirar os franceses definitivamente da região. Fez isso supostamente com instruções do Departamento de Estado, em conformidade com a Doutrina Monroe, que estabelecia que o Caribe e a América Central eram parte da "esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos.”

Invasão norte-americana

Assim, o domínio francês e foi substituído pelo imperialismo norte-americano, que viu os haitianos como "crianças crescidas” que precisavam de arregimentação e tutela. O National City Bank pagava os salários para o presidente e todo o governo e, quando o banco quis transferir as reservas nacionais de ouro pelo valor de US$ 500 mil, ameaçou o governo com o fim do pagamento de seus salários. Cada roubo em nível estatal tem seu pretexto e Washington anunciou que queria proteger as reservas do Haiti da possibilidade de roubo local. Mas isso pareceu pouco para os banqueiros norte-americanos que pediram para enviar os fuzileiros navais para o Haiti a fim de evitar rebeliões futuras.

Em 28 de julho de 1915, cerca de 300 fuzileiros navais se apoderaram da capital, Porto Príncipe, e ocuparam posteriormente todo o país, forçando o presidente a assinar a liquidação do Banco da Nação, que se tornou uma filial do National City Bank. Os norte-americanos também estabeleceram suas regras "civilizatórias e democráticas”, segundo as quais se proibia o presidente e seus súditos negros de entrarem em clubes, hotéis e restaurantes reservados aos brancos. A missão "protetora e civilizadora” norte-americana durou 19 anos até 1934, quando a resistência popular fez com que os fuzileiros navais regressassem ao seu lugar de origem. Como saldo, deixaram 11 mil mortos e o chefe da guerrilha Charlemagne Peralte pregado em uma cruz em uma porta no centro de Porto Príncipe, para servir de punição às pessoas.

Os fuzileiros navais se foram no ano seguinte e o National City Bank vendeu a sua subsidiária, o Banco Nacional do Haiti, a seu governo. No entanto, ambas as instituições deixaram em seu lugar a Guarda Nacional e os futuros ditadores militares que seguiram a seu serviço incondicionalmente, saqueando o país por muitos anos. Os mais sangrentos deles foram François "Papa Doc” Duvalier, que governou o país 1957 a 1971 e, posteriormente, seu filho, Jean-Claude "Baby Doc” Duvalier (1971-1986). Ambos usaram seus próprios "camisas negras” chamados Tonton Macoutes – esquadrões da morte – para se manterem no poder, com um saldo de mais de 150 mil pessoas assassinadas ou desaparecidas. É claro que tudo com a permissão do Departamento de Estado [dos EUA][i] e da CIA.

Derrubada de Aristide

Qualquer dissidente ou descontentamento era rotulado como "comunista”, a mesma característica dada pelo presidente Ronald Reagan ao padre católico salesiano porta-voz em seu país da Teologia da Libertação, Jean-Bertrand Aristide, por sua participação nas manifestações populares contra os Duvaliers. E não poderia ser de outra forma, devido à convicção de Aristide de que "o capitalismo é um pecado moral”. No período de 1986 a 1991, quando as ditaduras militares se revezavam frequentemente, Aristide se tornou em um forte porta-voz da resistência. Ele foi eleito presidente em 1991 com os slogans "dignidade, transparência, participação, simplicidade”, mas em menos de oito meses foi deposto por um golpe militar. Mais tarde, a história se repetiu em 1994-1995 e em sua terceira presidência (2001-2004) foi derrubado por uma oposição chamada Convergência Democrática, criado com o apoio de Washington que não perdoava Aristide por sua aproximação com Cuba e Venezuela e seus amplos programas sociais.

A violência gerada no país levou as Nações Unidas a enviar ao Haiti, em 2004, a Missão de Estabilização do país (MINUSTAH), que permanece até hoje, agindo como uma força de ocupação militar. Seu papel na reconstrução do país era insignificante, assim como todas as organizações não-governamentais (ONGs) das quais o Haiti está cheio. O terremoto de 12 de dezembro de 2010, que atingiu o país ocasionando 300 mil mortes, bem como mais de 300 mil feridos e um milhão de deslocados, confirmou a ineficiência e a corrupção da Minustah e das ONGs.

Mais uma ocupação

De acordo com o ativista social haitiano e economista Camille Chalmers, "ainda estamos sob as botas de ocupação militar. Eles não são soldados norte-americanos, mas a Minustah, instrumentada pelo imperialismo, que chegou em 2004, segue o papel da dominação e instalação das condições para favorecer o saque de nossos recursos em favor das empresas norte-americanas. Trata-se de tropas que buscam remilitarizar a bacia do Caribe para proteger interesses estratégicos, especialmente contra os povos rebeldes como os de Cuba e Venezuela”.

As tropas da Minustah têm participado ativamente na repressão dos movimentos sociais nestes 11 anos, na corrupção dos menores, prostituição por fome, os estupros, tráfico de drogas e também na propagação do cólera por soldados do Nepal. Há 800 mil casos de infecção e 8.500 mortos. Para combater este surto, cerca de US$ 2 bilhões são necessários, mas o presidente da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que prometeu ajudar com dinheiro e recursos, entregou apenas 2% deste montante (US$ 22 milhões).

Ao mesmo tempo, de acordo com o Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), a maior parte da ajuda financeira que chega ao Haiti permanece com empreiteiros e apenas 1,3% é transferido para as empresas haitianas. Entre 2010 e 2012, o Haiti recebeu US$ 6,43 bilhões em doações e, deste montante, só 9% (US$ 57 milhões) foi mantido no país. Na verdade, com este dinheiro para a reconstrução, uma das primeiras obras realizadas no país foi o hotel de cinco estrelas Royal Oasis e o Complexo Esportivo Olímpico, enquanto apenas nove mil casas foram construídas.

Assim, podemos imaginar o que está acontecendo no Haiti hoje, sob a presidência de um servo incondicional de Washington, Michel Martelly, que recebe ajuda e apoio contínuo da USAID[ii] e organizações similares. Enquanto isso, o povo vive na miséria, as 85 mil vítimas seguem alojadas em 125 acampamentos temporários. Mais de seis milhões dos 10,4 milhões de habitantes vivem na pobreza, ganhando menos de US$ 2,44 dólares por dia e outros 2,5 milhões vivem na pobreza extrema, com menos de US$ 1,24 por dia. A expectativa de vida é de cerca de 50 anos. O Haiti é o país com o maior número de analfabetos na América: 54,3 % dos habitantes (5,6 milhões).

E tudo isso ocorre em pleno século XXI à vista das Nações Unidas, da Organização Mundial de Saúde, da Unesco[iii], da Unasul[iv], da Celac[v], da Alba[vi]. Onde está a integração e a solidariedade latino-americana e do Caribe? Desde quando e por que os soldados equatorianos, bolivianos e venezuelanos da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América está defendendo os interesses imperiais no Haiti e são parte, de acordo com a opinião pública haitiana, dos invasores?

Todas estas questões precisam de uma resposta urgente, porque se trata de um povo orgulhoso, rebelde e talentoso, condenado pelos ricos e poderosos deste mundo a mais de 200 anos de miséria sem fim e uma negligência incompreensível. Parafraseando o clérigo sul-africano Desmond Tutu, os haitianos precisam de ajuda séria e solidariedade sincera e não "migalhas de compaixão que caem da mesa de alguém que se considera seu mestre”. O que os haitianos querem é o "menu completo de direitos”.

*Títulos e intertítulos do Diferente, Pero no Mucho| Título original: Haiti: Um inferno que nunca acaba

** Tradução: Vanessa Martina Silva, do Diferente, Pero no Mucho





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