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Pai! Mãe! Olorum! Afasta de nós este cálice!!

Autor: Diva Moreira Data da postagem: 17:00 23/11/2017 Visualizacões: 457
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Sobre nós, mulheres negras, recai a perda sistemática de nossos filhos, maridos, companheiros, irmãos, sobrinhos, pais, tios / Foto: Elói Corrêa - GOVBA - Brasil de Fato

Em tempos de ódio, foram jogados por terra os puderes da suposta democracia racial

Nós, mulheres negras no Brasil, somos o segmento do povo que se encontra na base, nos porões da sociedade. Cansativo ouvir isso? Só vivemos reclamando? Lá vem nós com nosso vitimismo? Essas reações procedem da cultura da indiferença que integra o “caráter” da sociedade brasileira em relação ao povo negro. Essa indiferença se traduz em descaso, falta de aplicação da Lei 10.639, desconhecimento dos processos históricos que pudessem explicar as causas desse problema, falta de solidariedade política e (que feio!) falta de vivência dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, em um dos países de maior população cristã do mundo.

Nesses tempos de contínuos ataques aos direitos, as consequências são dramáticas. Desmoronam-se os padrões mínimos de convivência social. Instaura-se a lei do vale tudo, da força bruta, do ressentimento e do ódio, sobretudo contra os de baixo. 

Nesses tempos de ódio, foram jogados por terra os limites frágeis de pudor que a crença na democracia racial produziu. 

Mais violência contra mulheres negras

Sobre nós, mulheres negras, recai a perda sistemática de nossos filhos, maridos, companheiros, irmãos, sobrinhos, pais, tios. De cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras. Também somos alvo da fúria assassina do Estado e da sociedade, pois entre nós houve aumento de 22% de homicídios, entre 2005 e 2015. Enquanto isso, entre as mulheres brancas, houve redução de 7,4% da mortalidade, nesse mesmo período, segundo o IPEA.

Sobre nós recai a acusação de sermos incapazes de estruturar nossas famílias, de cuidar de nossos filhos e filhas. Enquanto isso, a mídia (uma das causas do incentivo ao Estado penal) não traz à cena o descaso dos governantes em relação às escolas, à saúde, ao esporte, lazer, à cultura, à habitação e ao transporte.

Temos que nos preparar para enfrentar tempos duros, sem democracia e cidadania. Reclamamos que o povo não está nas ruas, mas nós, que estamos nos movimentos de resistência contra um governo anti-povo, anti-nação e anti-democracia, precisamos estar nas vilas, favelas, ocupações e ajudar na organização da luta contra esta quadrilha que tomou de assalto o Brasil. Essa luta política é pela paz, pela vida, pela alegria que substituirá o luto e a tristeza que continuamente invadem nossas casas, territórios, quilombos, terreiros das religiões de matriz africana e nossa alma.

Nós que sempre lutamos contra a escravização, contra uma república excludente construída por ex-senhores de escravizados, contra a ditadura militar, continuaremos na luta, sem a qual nossa vida perde inteiramente o sentido e a dignidade.

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