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Afro-empreendedores serão beneficiados com plano para estimular turismo étnico

Autor: Tailane Muniz Data da postagem: 16:00 08/05/2019 Visualizacões: 218
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Telma acredita que baianas precisam ser mais valorizadas / Foto: Mauro Akin Nassor - Reprodução - Correio 24 Horas

Segmentos diversos serão contemplados pela iniciativa; investimento é de R$ 3 milhões

De baianas de acarajé a donos de estabelecimentos de variados segmentos. Se a liderança é negra e o negócio é voltado para a valorização da cultura afro-brasileira, é possível ser beneficiado. Isso porque, nesta quinta-feira (2), Salvador ganhou o plano de ações para estimular o turismo étnico-afro.

Iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), o Plano de Ações Étnico-Afro busca dar benefícios a quem une empreendedorismo à ancestralidade. O anúncio do novo projeto foi feito pelo prefeito de Salvador, ACM Neto, durante um evento realizado na Casa do Benin, no Pelourinho, nesta manhã.

A assinatura da ordem de serviço da ação contou com representantes de diversos segmentos culturais de origem afro, além dos secretários municipais de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco, e da Reparação (Semur), Ivete Sacramento.

A ideia é que atividades que estão ligadas ao cotidiano de Salvador sejam valorizadas frente à economia e o turismo local. Entre as principais ações propostas na elaboração do projeto, estão o mapeamento dos empreendimentos liderados por afrodescendentes no setor de turismo da capital, além da promoção do acesso de turistas a produtos e serviços fornecidos por afro-empreendedores.

Uma das ações já foi anunciada pelo prefeito: a requalificação urbanística do Curuzu, na região da Liberdade. Com intervenção prevista para este ano, a intenção é transformar a localidade em um corredor cultural, onde estão localizadas entidades como o bloco afro Ilê Aiyê e o Terreiro Vodum Zô.

Para Tinoco, a iniciativa é uma valorização justa e necessária da cultura afro-brasileira. "A gente usa elementos afros da cidade, por exemplo, quando usamos a imagem de uma baiana. Além de [usarmos] outros [elementos] que tem Salvador como origem", comentou ele, citando que elementos locais são usados para alavancar o turismo e que chegou a hora de retribuir.

Tinoco também pontuou que há um aquecimento da economia local e uma valorização dos empreendedores quando a cidade oferece produtos e experiências locais ao turista.

O secretário disse que o projeto dará uma atenção especial em relação à mulher negra.

"Não temos essa cultura afro estruturada, num ponto de vista profissional, técnico.  Promoveremos palestras, entrevistas e outras atividades que ajudem, por exemplo, as trancistas a terem uma meta de desenvolvimento", exemplificou, ao lembrar que Salvador é a cidade mais negra fora da África.

Plano amplo e participativo

Como as ações do plano ainda não foram definidas, o secretário convidou empreendedores e pessoas interessadas a participarem de uma reunião, na próxima terça-feira (7), às 14h, no Teatro Gregório de Mattos (TGM), para um debate e troca de ideias. Após cinco meses de diagnóstico, ouvindo as principais lideranças de grupos artísticos, religiosos e do comércio, haverá um segundo momento de efetivação das ações sugeridas no plano.

"Será a primeira oficina para ouvir essas pessoas, para que elas contribuam com sugestões. Tudo vai ocorrer de forma participativa, esse é o nosso interesse. O investimento para o projeto é de R$ 3 milhões, que será gasto no turismo social", complementou.

Turismo social, aliás, é o que a baiana Telma dos Santos Silva, 60 anos, já faz há 40, só no Centro Histórico de Salvador. Ela vive exclusivamente do dinheiro que consegue posando para fotos com os turistas que visitam a cidade e admite que sofre com falta de estrutura.

"Eu fico muito feliz que haja uma iniciativa assim. Que seja para o bem, não só meu, como também de minhas colegas, de minha filha que vai continuar o meu legado. Aqui nós não temos onde tomar um banho, onde esquentar uma comida", disse ao CORREIO, acrescentando que trabalha pelo menos 12 horas por dia.

Para Telma, que está prestes a se aposentar por idade, apesar de todos os problemas, o ofício rendeu bons frutos. "Tem dia que é mais por amor, do que por dinheiro. Realmente precisamos dessa assistência", finalizou.

Patrimônio imaterial

Para o prefeito ACM Neto, pessoas como a baiana Telma são as verdadeiras responsáveis por fazer valer o peso cultural da Bahia e de Salvador.

"Nosso maior patrimônio é o imaterial. São essas nossas experiências, vivências, e não só nossas belas praias. E é isso que faltava, uma estruturação, uma política municipal, algo que ajude a compor nosso patrimônio imaterial", considerou Neto, afirmando que o investimento desta fase do plano é de cerca de R$ 728 mil.

O recurso, dentro do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), será utilizado pelo consórcio Cria Rumos Arandas, vencedor do processo licitatório. Segundo o prefeito, a ordem de serviço é válida até 2020. "O objetivo é que seja uma política pública permanente, um legado, porque o nosso grande diferencial é, sim, a cultura", argumentou o gestor, que citou o Ilê Aiyê como pioneiro na promoção independente da cultura da Bahia.

Vovô do Ilê fala sobre olhar para a cultura negra com olhos de empreendedor / Foto: Mauro Akin Nassor - Correio 24 Horas

Líder do bloco, Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, comentou sobre a importância de olhar para a cultura afro também com fins empreendedores. "É uma coisa que nós, o Olodum e outras entidades já falamos há tempos, é um trabalho que fazemos há anos. Nós recebemos um número grande de turistas a partir de setembro, é assim todos os anos, e isso precisa ter atenção, estrutura", disse, ao comemorar o projeto municipal.

Ângela trabalha desde os 14 anos e sente falta de ser mais valorizada / Foto: Mauro Akin Nassor - Correio 24 Horas

E por falar em empreendedorismo 'afro-independente', a trancista Ângela Maria do Carmo, 54, está aí para provar que trabalhar com cultura afro-brasileira de forma autônoma é, também, uma maneira de resistência. Para ela, que mora e trabalha no Pelourinho há 40 anos, o plano de ações significa esperança.

"É muito difícil para todos nós que trabalhamos na rua. Quem trabalha na rua não tem estrutura para nada, conta com a boa vontade das pessoas, e eu comecei aqui com 15 anos. É cansativo, tira o gosto. Se isso for para nossa melhora, só tenho a agradecer e comemorar", disse.

Sem modéstia, como faz questão de dizer, Ângela defende que as baianas e as trancistas é quem são, na verdade, "o principal cartão postal de Salvador". E isso, segundo ela, é motivo suficiente para que todas tenham esse apoio - sonho antigo desde que começou a fazer as famosas trancinhas nagô no Terreiro de Jesus.

A notícia da construção e implementação do Plano de Ação Étnico-Afro também foi vista com bons olhos por profissionais do meio turístico, como a presidente da Afrotours Turismo Cultural, Nilzeth Santos.

“Espero que o plano seja um sucesso, porque é necessário. A primeira coisa que deveria ser feita é respeitar o turismo afro-religioso. Depois, cuidar dos atores do turismo étnico, como as baianas e o capoeirista, qualificando e remunerando eles bem. Ouvir também os guias, preparar vários roteiros, convidar várias empresas e pessoas negras para empreender. Esse segmento é do povo negro e precisamos nos beneficiar com isso”, afirmou.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Viagens (Abav) na Bahia, Jorge Pinto, também está otimista: "É bastante positivo investir no mercado étnico. Esse investimento acaba gerando novos negócios, empregos, oportunidades".

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