Falta de incentivos vai na contramão da potência da comunidade negra

Autor: Nina Silva Data da postagem: 12:00 11/07/2019 Visualizacões: 240
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Nina Silva, fundadora do Movimento Black Money./Foto: Luiz Brown

Em artigo, a fundadora do Movimento Black Money, Nina Silva, fala sobre como a sociedade pode subverter a lógica de barreiras ao empreendedorismo negro

Negros, vocês estão por sua própria conta, já dizia o sulafricano Steve Biko em meados do século 20. É de conhecimento de todos que o Brasil é o segundo país no mundo em população afrodescendente (cerca de 54%, segundo o IBGE) e também tem entre os negros a maioria microempreendedora (56%). Negros são os que mais abrem negócios em um país que marginaliza há 400 anos essa parcela da população, que hoje corresponde a 66% dos desempregados e vê no empreendedorismo a única maneira de sustentabilidade. 

Mas como essa parcela majoritária conseguirá subverter a falta de acesso a crédito, educação financeira e ao mercado de investimentos? Como transgredir a barreira da subsistência e alavancar receita com melhor amparo para a gestão de seus negócios?

Precisaríamos de artistas e empresários como JayZ, que no último mês investiu US$ 1 milhão em uma empresa de biscoitos veganos de donos negros, a Partake Foods. Na lista dos atuais bilionários dos Estados Unidos, JayZ investe em negócios de grande potencialidade, fomentando o black money, ou seja, a circulação de riquezas dentro da comunidade negra de maneira autônoma.

No Brasil, negócios visam otimizar o ecossistema empreendedor negro, como a aceleradora do Vale do Dendê, que atua no eixo Salvador-São Paulo e é focada em aceleração de empreendimentos de impactos social e econômico, não sendo exclusiva para a população afrodescendente, mas atendendo uma maioria de negócios geridos por pessoas negras. 

Já a BlackRocks é uma pré-aceleradora que estimula empreendimentos em estágio inicial a se tornarem startups, concedendo acesso a ferramentas de mercado para a aceleração de seus processos. Com isso, vem trazendo empresas de tecnologia para o ecossistema. 

O Movimento Black Money, que eu presido, foi fundado com o objetivo de otimizar o desenvolvimento do ecossistema afroempreendedor a partir de comunicação, networking, educação e plataformas digitais. O objetivo são trocas comerciais e financeiras entre empresários e empreendedores afrodescendentes e consumidores negros e não negros.

Além disso, o hub produz conteúdos e cursos para a população negra nas áreas de marketing, vendas, gestão, finanças e tecnologia, com cerca de 100 mil pessoas impactadas direta e indiretamente em dois anos.

O que essas iniciativas têm em comum? Não possuem capital de investidor anjo e mantêm seus negócios a partir de propósito que permeia oportunidades. Negros movimentaram R$ 1,7 trilhão na economia em 2017 e 29% deles têm um empreendimento, mas na contramão desses números eles possuem o crédito três vezes mais negado que empreendimentos não negros. A maioria das startups no mundo que recebem aporte são de homens brancos ou asiáticos. 

Não é coincidência que empresas africanas sofrem hoje com a falta de investimentos a nível global. Epic Games, Juul Labs e Uber atraíram US$ 1,2 bilhão no ano passado e o que possuem em comum? Têm base nos Estados Unidos, são chefiadas por homens brancos e juntas atraíram mais do que o dobro do montante de capital de risco investido na África em 2017. 

Mesmo que as venture capital com sede ou foco na África tenham tido um crescimento substancial nos últimos três anos, estes fundos não chegam para startups locais, negócios em estágios menos maduros. Empreendimentos negros no Brasil e na África precisam de investidores anjos e de investimentos próprios da comunidade negra. 

Cada vez mais o consumo intencional intracomunidade e o equity crowdfunding, que oferece oportunidades inéditas de investimento online, são saídas para a autonomia desses novos negócios. Há uma demanda não suportada pelos mecanismos atuais de fomento à economia, que deixam à mercê do mercado a maioria da população empreendedora. Isso é prejudicial também para os consumidores que não se reconhecem no mercado tradicional, além de manter o sistema privilegiado para pessoas não negras fortalecendo as desigualdades que tanto atrasam a economia brasileira e a de outros países.

É preciso dar visibilidade e instrumentalizar essas empresas ou teremos que aguardar outros JayZs nascerem em toda a diáspora africana e na África para tentarmos mudar a regulação marginal do sistema. Não é por acaso que as aceleradoras que assistem negócios pretos são de donos pretos, e quem as apoiam? Precisamos quebrar o ciclo de escassez direcionando nossos próprios investimentos, por nossa própria conta! Ubuntu.

* Nina Silva é executiva de TI e CEO do Movimento Black Money. Foi eleita em 2018 um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos pelo Mipad (Most Influential People of African Descent) e reconhecida pela Forbes como uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2019.

 

 
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