Afrojob: Estúdio móvel de maquiagem e salão de beleza valorizam estética do povo negro

Autor: Itana Alencar, Rafael Santana e Valma Silva Data da postagem: 18:00 06/09/2019 Visualizacões: 410
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
Estúdio móvel de tatuagem valoriza estética do povo negro / Foto: Rafael Santana - G1 - Reprodução - O Globo

Conheça o Studio Móvel de Maili Santos, cadeirante que oferece “delivery” de maquiagem, e o tradicional salão Irmãs de Valdir, que fica no Engenho Velho de Brotas.

A cadeira de rodas que usa desde a infância não impediu que Maili Santos, de 34 anos, criasse o Studio Móvel. O negócio funciona como "delivery" de maquiagem voltado preferencialmente para pessoas de pele negra.

Também focado na população negra soteropolitana, o salão de beleza Irmãs de Valdir é referência quando o assunto é estética. Em atividade há mais de 30 anos, o estabelecimento hoje é administrado pela família Macário e está localizado na Avenida Vasco da Gama.

[O G1 traz nesta sexta-feira (30) mais um episódio do Afrojob, quadro que trata sobre o afroempreendedorismo em Salvador. Você vai conhecer, todos os meses, histórias de pessoas negras que comercializam produtos e serviços voltados para a população preta].

O ofício da maquiagem cruzou o caminho de Maili de uma maneira pouco convencional. Em meio a um tratamento de uma paraparesia não traumática [que tem desde que nasceu], ela começou a assistir a vídeos no Youtube como forma de distração. O encantamento aconteceu naturalmente, e ela decidiu que se especializaria no ramo.

Ideia fixa na cabeça, Maili investiu em cursos, o primeiro deles feito à distância. Ela queria se especializar na área para não ter a imagem vinculada a de uma maquiadora que aprendeu o que sabe vendo vídeos na internet. Entrar em um mundo novo não foi fácil, como explica Maili.

“Quando você assume qualquer profissão, você precisa ter conhecimento. Não foi fácil por causa da deficiência, falta de acessibilidade aos locais, falta de vontade das pessoas de querer que eu integrasse as turmas. Foi bem complicado”.

"Pedi muita ajuda, foi muita porta na cara", lembra Maili.

A decisão de se especializar em pele negra surgiu a partir da constatação de que as amigas tinham dificuldade em encontrar profissionais que as maquiassem para grandes eventos, como formaturas e casamentos.

"Quando eu optei em maquiar pele negra, foi por ver minhas amigas comentando que estavam com vergonha dos álbuns de formatura, de casamento. Eu busquei bons profissionais que me passassem conhecimento", conta.

"Eu venho buscando a especialização, porque pele negra é ampla. Toda hora, chega uma particularidade em minha mão. Toda hora as coisas mudam, então a gente tem que estar sempre um passo à frente. Mas eu amo pele negra, amo mulher negra".

O nome Studio Móvel é carregado de significado. Além de traduzir o caráter de mobilidade do negócio, ele faz referência à condição de cadeirante de Maili Santos. Era justamente o que ela queria: não usar a cadeira como ponte, mas lembrar que ela está lá, faz parte do seu histórico de vida e profissional.

“Eu não vejo mais a minha cadeira como um empecilho. Eu vejo ela como um aparelho motivador para minha vida. Precisava inserir ela, mas não queria botar o emblema de cadeirante”.

Estúdio móvel de tatuagem valoriza estética do povo negro / Foto: Rafael Santana - G1

Mesmo porque a realidade não permite que Maili esqueça das limitações, afinal ela tem que driblar as dificuldades para se locomover pelas ruas de Salvador e chegar até as clientes.

“As ruas não são legais para cadeirantes. Nem sempre eu estou de carro [por aplicativo]. É muito complicado por conta das ladeiras. Os carros estão por cima de calçadas, então a gente tem que burlar isso o tempo todo, mas acaba que as clientes têm consciência e ajudam nesse processo. Está menos difícil”.

Para superar os obstáculos, Mali conta com a ajuda do marido, Edilton Lopes, que foi o principal incentivador. Ele é responsável por organizar a logística do negócio, fazer contato com fornecedores, agendar horário com clientes e registrar o trabalho da esposa em fotos e vídeos nas redes sociais.

Além disso, Edilton é responsável pelo transporte de Maili, algo que não está restrito ao trabalho. Todos os dias, ele desce e sobe os 32 degraus de casa com a esposa nos braços.

“Eu já sentia que ela tinha esse desejo. Não fiz muita coisa. Só incentivei e entendi que ela tinha esse potencial. Quando a gente enxerga esse potencial, ficou fácil fazer isso”, conta Edilton.

"Ele deixou o trabalho, mesmo sabendo que seria mais difícil, mas ele abdicou do trabalho, não só pelo meu tratamento, mas também para empreender. Hoje a gente está nessa luta", avalia Maili.

Salão pioneiro

A história do salão Irmãs de Valdir está ligada a uma tragédia recente. Valdir Macário, o homem que se aventurou no negócio ainda na década de 80, foi assassinado dentro do estabelecimento, enquanto atendia uma cliente, no ano de 2016.

Mas a história do salão é muito mais do que isso. É uma história de luta, de uma família negra que batalhou para construir um legado, de pessoas que se tornaram pioneiras no cuidado com os cabelos crespos.

Embora seja focado no público negro, o estabelecimento atende pessoas de qualquer que seja o tom de pele, como explica Ide Oliveira, uma das irmãs de Valdir.

“O propósito é trabalhar com mulheres que se identificam com o fenótipo negro. Mas não dizendo que outras pessoas não possam estar aqui. Aqui o espaço é aberto”.

Ide Oliveira é uma das donas do salão Irmãs de Valdir / Foto: Valma Silva - G1

Dois anos após o crime, os familiares de Valdir reabriram o salão em um espaço amplo na Avenida Vasco da Gama, no bairro do Engenho Velho de Brotas, que emprega mais de 20 funcionários. O investimento trouxe retorno positivo, e a expectativa é de que o estabelecimento seja ampliado.

“Em breve, teremos novos andares. Criamos isso com um propósito, mas as coisas ficaram melhores. Os clientes entenderam que essa realidade é nossa e vieram para encontrar respostas. A resposta de pessoas que gostam de se ver bonitas está aqui”.

O sucesso do salão coincide com o momento de identificação com as raízes africanas, com a pele negra. Se, há pouco tempo, a moda era alisar ou raspar os cabelos, hoje a realidade é outra. Os soteropolitanos fazem questão de mostrar na aparência a herança dos ancestrais.

Esse comportamento tem aquecido a economia baiana. Somente no primeiro semestre deste ano, foram abertos quase 1.900 salões de beleza em Salvador, uma média de 10 por mês. No rastro desse aquecimento, o salão Irmãs de Valdir segue expandindo a atuação no ramo estético.

“Somos um instituto. Oferecemos dreadista [especialista em dread], que é uma inovação. Além de ser permanentista [especialista em permanente], temos a área de tricologista, que é uma especialidade acima da área de beleza, e temos a área de podologia, que é uma área nova”, conclui Ide.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: