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Projeto incentiva investimento na produção audiovisual feita por negros

Autor: Geovana Melo Data da postagem: 16:00 03/01/2020 Visualizacões: 158
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Raul Perez, Heitor Augusto e Fernanda Lomba: ações para transformar o audiovisual/Imagem: Reprodução - Correio Braziliense

Nicho 51 é iniciativa de produtores preocupados com a representatividade no mercado

Cinquenta e quatro por cento da população brasileira é composta por pessoas negras, segundo o último levantamento do IBGE. Quando se trata do mercado audiovisual esse número cai. Nos filmes brasileiros de 2016, apenas 2,1% dos diretores e dos roteiristas são negros. As estatísticas para as mulheres negras são ainda piores: elas não aparecem nem como diretoras nem como roteiristas. Os dados são da pesquisa Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016, divulgada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) no ano passado. Com a intenção de mudar interferir nesse cenário e diversificar o mercado audiovisual, a produtora executiva Fernanda Lomba, o crítico e curador Heitor Augusto e o roteirista e executivo de comunicação Raul Perez fundaram o instituto Nicho 54. O projeto visa a promoção de ações para ampliar a participação de profissionais negros na indústria audiovisual brasileira, tanto na frente quanto por trás das câmeras.

Nos últimos anos, com o lançamento de Corra!, NósPantera Negra,Moonlight e outros filmes com atores negros como personagens principais, muito se comentou sobre protagonismo negro no audiovisual, mas essa ascensão ainda não se deu por completo. “Protagonismo é uma palavra forte. Tem que entender o que protagonismo significa, se é o protagonismo só das telas, aí sim você vai ter mais atores negros nestes papéis, mas não necessariamente são papéis que oferecem uma possibilidade para esse ator exercer um papel de complexidade, personagens mais desenhados. A gente tá falando basicamente de muitos estereótipos que estão sendo oferecidos para atores negros em que eles não conseguem explorar o que tem de trabalho criativo na posição do ator. Se for esse protagonismo, dá pra dizer que ele existe, mas ainda não na potência que a pessoa pode vir a mostrar de trabalho. Agora, se a gente falar de protagonismo atrás da tela, não existe, ao menos não no volume que o protagonismo daria”, afirma Fernanda Lomba, em entrevista ao Correio.

A iniciativa do instituto Nicho 54 é voltada para a qualificação profissional e para a inserção de profissionais negros no audiovisual nacional. O projeto fomenta a representatividade e a diversidade na indústria cinematográfica nacional por meio de ações baseadas em gênero, classe e orientação sexual. “Falar de diversidade e entender o que é esse termo é fundamental para que todo mundo esteja falando da mesma coisa e enxergando esse mesmo contexto. Cavar esse termo e cavar espaço para que essa discussão exista é um trabalho ativo que precisa ser feito”, pontua Fernanda.

A instituição se concentra em três alicerces: formação para a qualificação de profissionais em diversos setores da produção audiovisual; curadoria, a fim de formar um repertório cinematográfico negro; e mercado, para inserir e aproximar estes profissionais da indústria audiovisual. “São processos, e a gente está melhor hoje do que há 10 anos. O momento é propício para ter entradas de diversos lados, desde um trabalho como o do nicho 54 até outros projetos que também fazem planos de ações afirmativas. Esses trabalhos dão início a uma ‘perninha’ do que pode vir a ser o protagonismo negro no audiovisual”, conta.

Mesmo com blockbusters do audiovisual estadunidense com protagonistas negros sendo destaques no cinema mundial, este tipo de narrativa ainda é enfraquecida no Brasil. No entanto, uma rede de pessoas se mobiliza para reverter esse panorama. “Esses primeiros passos se devem a toda uma movimentação de pessoas negras, de diversas áreas, não só de cinema, mas de pessoas negras que são ativistas em diversos campos. No momento atual que a gente vive, tem a ver com comunicação das redes sociais, as informações circulam mais, ainda que a gente trabalhe em bolhas. Tem a ver com as pessoas denunciando, explicando e não aceitando alguns tratamentos. Tem toda uma rede que está movimentada junto, que na verdade tem toda uma transformação necessária de ser feita neste tempo”, aponta Fernanda.

“O Brasil é um país que nunca discutiu escravidão, nunca discutiu o impacto da escravidão na configuração atual. Então, nem todo mundo entende que precisa fazer um trabalho ativo quando se fala da reparação de pessoas negras no cinema”, completa.

Mulher negra no audiovisual

Trabalhando há seis anos com audiovisual, a produtora de cinema Fernanda Lomba, 30 anos, convive diariamente com os desafios de ser uma mulher negra e trabalhar com o setor. “Já senti várias coisas, já passei por processos muito agressivos, mas, ao mesmo tempo, eu tenho experimentado a potência que é ser uma profissional do cinema. Eu estou vinculada a um projeto que está trabalhando a potência da diversidade no mercado, é uma caixa que me cabe bem. São perspectivas que eu realmente conheço e que eu tenho interesse em mudar. Aí como é uma coisa que faz sentido, as pessoas têm me respeitado muito e pela primeira vez está positivado a coisa de ser uma mulher e negra. Não é fácil, tem várias entrelinhas que a gente precisa sempre está lidando, como o assédio. Em resumo, é um estado de alerta o tempo todo”, relata a produtora.

Crise

Embora o setor do audiovisual brasileiro esteja em um momento celebrado em termos de produções e premiações Brasil afora, muitos são os obstáculos para avançar neste quadro, principalmente quando se trata de investimento público. O descaso do governo com a produção cultural e os ataques à Agência Nacional de Cinema (Ancine) estão presentes na perspectiva atual e centenas de produções estão paralisadas. Mesmo não atingindo diretamente a produção de narrativas negras, pois nunca tiveram um grande espaço no mercado, o momento é alarmante.

“É bem delicado, por que por um lado uma faixa de realizadores negros que trabalham com cinema, a crise da Ancine não toca, por que a gente não teve chance de entrar nesta estrutura, de entrar nos editais, de serem avaliados. A gente consegue trabalhar com outros recursos, outras fontes ou efetivamente com nenhum dinheiro. Para nós não paralisa porque muitos de nós sempre trabalharam sem esses incentivos. Por outro lado, um país como Brasil, que não investe em cultura, fazendo corte no cinema, ativando o processo de censura, isso é preocupante para todo mundo”, ressalta.

Duas perguntas para Fernanda Lomba

Como está funcionando o Nicho 54?

Agora com o Nicho o papo está muito reto, basicamente o meme ‘sem tempo irmão’. Sendo pessoas negras à frente de uma instituição como o Nicho, não faz sentido a gente ficar ficcionalizado os fatos. A gente precisa estabelecer o diálogo bem direto e nessa chave de estabelecer esse diálogo direto, isso tem batido muito bem nas pessoas, porque elas têm encontrado uma opção de projeto que é propositivo, que tem uma agenda, que quer fazer um trabalho na prática. A gente quer lidar com números que hoje são absurdos e transformar esses números em poucos anos.

Como está sendo o feedback deste projeto?

Eu estou sentindo uma acolhida muita sincera, as pessoas querem se inserir e darem aula de graça, por exemplo. Os aliados brancos, eles existem e são muito importantes para a gente lembrar que existe esse espaço para a pessoa que trabalha com cinema oferecer um suporte e ser aliada de um projeto de reparação. Isso não é uma discussão só de pessoas negras, é uma discussão de todas as pessoas que se importam com que tipo de imagem que a gente veicula.

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