EDITAL EQUIDADE RACIAL

ACESSAR

Mundo do trabalho: desigualdades raciais e de gênero

Autor: Mario Rogerio Data da postagem: 14:59 03/06/2020 Visualizacões: 634
Curta a nóticia:
Curta o CEERT:
“Negro sem emprego Fica sem sossego Negro é a raiz de liberdade”

Nas últimas décadas, as desigualdades no Brasil têm se ampliado, trazendo como consequência o não desenvolvimento do país, exclusão e violência na vida de negros e negras e da sociedade em geral, que perde mais da metade de seus talentos. Pretende-se aqui apresentar uma fotografia deste cenário, focando no mundo do trabalho.

Com a pandemia do coronavírus, as desigualdades estão sendo escancaradas, como nos mostra o editorial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicado no dia 28 de maio deste ano, que destaca a redução de 4,9 milhões de postos de trabalho. Do total, 1,2 milhão são trabalhadores do comércio, 885 mil da construção e 727 mil dos serviços domésticos, em sua maioria negros que trabalham nos serviços essenciais, garantindo a possibilidade de isolamento para uma parcela da população.

Houve um aumento significativo de pessoas desocupadas, que gira em torno de 328 mil - potenciais trabalhadores que desistiram da busca, porque são jovens demais, velhos demais ou não encontram emprego na região onde vivem. É o maior número desde o início desta série histórica do IBGE.

As desigualdades raciais e de gênero no trabalho são tema do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), que realiza censos institucionais e também se debruça sobre os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

A organização nasceu há trinta anos, com a missão de produzir conhecimento, desenvolver e executar projetos voltados para a promoção da igualdade de raça e de gênero. O CEERT vem investindo em programas voltados à equidade racial como forma de contribuir para a quebra do ciclo de violência a que estão submetidos os jovens negros e negras, por meio do exercício do direito ao trabalho digno, em condições de equidade.

Em 1992, juntamente com organizações do movimento negro e sindical, o CEERT encaminhou uma denúncia formal à Organização Internacional do Trabalho (OIT), em razão do país descumprir a Convenção 111, que fala sobre discriminação em matéria de emprego e ocupação e foi ratificada pelo Brasil em 1968, porém foi engavetada. Desde então o CEERT tem sua atuação marcada por trabalhos junto aos órgãos públicos, ao movimento sindical e às empresas, elaborando e executando projetos que visam a equidade racial.

Para este estudo que apresento, utilizamos a base de dados da RAIS, do Ministério da Economia para identificar o perfil de 11 setores, focando sexo, raça/cor, salário e tempo de casa, entre outras informações dos vínculos formais existentes.

Compulsória e de caráter administrativo, a RAIS tem sido a principal fonte de análise do país, com periodicidade anual, que oferece subsídios complementando os dados disponibilizados a cada 10 anos pelo Censo Demográfico do IBGE.

Criada em 1975, a RAIS permitiu filtrar uma quantidade extensa de categorias ocupacionais e setoriais, por meio dos códigos da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), abrindo um leque de possibilidades nas análises e pesquisas sobre o comportamento dos setores. Permite-nos constatar diferenças significativas na avaliação das desigualdades raciais no Brasil.

Inserção de negros(as) e mulheres nos setores:

Ao observarmos a proporção de mulheres e homens com vínculos formais no mercado de trabalho, bem como a população disponível para ingressar neste mercado, não observamos distorções. Ficamos com a impressão que temos equidade e as participações são similares.

                                               

Fonte: RAIS - 2018.                                                                                  

Fonte: IBGE, (PNADC) 2018.

Ao analisarmos os setores estudados percebemos que a representação tem distorções significativas, particularmente nos setores Montadora de Automóveis, Construção, Segurança, Petróleo e Gás, Limpeza Urbana e Energia, que exibem participação masculina acima de 80%, chegando a 90% nas Montadoras de Veículos.

Fonte: RAIS - 2018.


Com relação ao recorte raça/cor, na comparação vínculos formais (RAIS 2018 com PEA), os desvios de inserção já aparecem nos gráficos da primeira etapa do estudo.

Fonte: RAIS - 2018.

Fonte: IBGE, (PNADC) 2018.

Com base nestes dados é possível observar a distorção no ingresso de negros no mercado de trabalho, pois temos 54,7% de negros disponíveis para o mercado de trabalho contra 38,8% com vínculos formais.

Nos dados da RAIS não foi considerado o setor público para alguns recortes, devido à falta da informação sobre raça em 92,7% dos registros.

Fonte: RAIS - 2018.

Neste gráfico é possível observar a presença predominante de negros em alguns setores, como Comércio, Limpeza Urbana, Segurança, Telemarketing e Construções. Justamente estes são os setores que estão realizando os maiores cortes de postos de trabalho.

            

Fonte: RAIS - 2018.

Fonte: RAIS - 2018.

Nestes gráficos é possível observar a profundidade das desigualdades raciais em nosso país: 56% das mulheres negras recebem abaixo de 1,5 salário mínimo, enquanto os homens brancos representam 23,3% nesta mesma faixa. A distorção nas faixas acima de 2 salários mínimos são mais que o dobro.

Nas próximas publicações avançaremos nas desigualdades por setor, trazendo uma fotografia dos setores que pagam os melhores salários e os que pagam os piores salários.

Curta a nóticia:
Curta o CEERT: