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Como ter justiça racial nas empresas? "Mulheres Pós 2020" aponta caminhos

Autor: Letícia Paiva Data da postagem: 10:00 30/04/2021 Visualizacões: 142
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Da esquerda para direita, a jornalista Cynthia Martins, a advogada Sheila de Carvalho, Ana Paula Padrão, a psicóloga Mafoane Odara, a jornalista Luciana Barreto e a executiva Janda Araújo/Imagem: @luaith - Reprodução - Universa

A base da pirâmide da desigualdade social brasileira é sustentada pelas mulheres negras. Em indicadores como mortes por arma de fogo, desigualdade salarial, violência doméstica e insegurança alimentar, a população negra aparece nas posições mais vulneráveis. Para elas sobram ainda cargas extras, como a maternidade solo e o trabalho informal quase como única opção.

Esses reflexos de uma sociedade pouco ou nada igualitária se escancaram durante a pandemia e são justificados - e alimentados - pelo racismo estrutural que permeia a história do Brasil até os dias de hoje. Por isso o primeiro dia de "Mulheres Pós 2020", evento virtual que Universa transmitiu nesta quarta-feira (27), foi inteiramente dedicado à necessidade de justiça racial — entre indivíduos, na sociedade e também nas empresas. O evento dura três dias e será transmitido por Universa na íntegra.

"Ao usar uma palavra para nomear o que já é uma realidade, aquilo deixa de ser invisível. A palavra tem o poder de tornar real. Quando conceituamos processos históricos como nosso racismo estrutural, fica mais difícil negar que ele exista", lançou a jornalista Ana Paula Padrão, apresentadora do evento, ao iniciar a programação. Com a pandemia da covid-19, o uso do termo ganhou mais corpo, tanto pela eclosão de debates sobre o assunto quanto pela maior crise sanitária do século ter evidenciado desigualdades humanitárias também.

É a população negra e pobre a que mais depende do Sistema Único de Saúde (SUS), já sobrecarregado antes da pandemia. É também este grupo, o mais exposto aos piores quadros de trabalho e renda. Durante a emergência atual, essa vulnerabilidade se tornou insustentável. Como lembrou a jornalista Cynthia Martins, mediadora do primeiro painel do dia, é sintomático que uma das primeiras vítimas fatais do novo coronavírus tenha sido a diarista Cleonice Gonçalves. Ela perdeu a vida aos 63 anos, em março do ano passado, após ter se contaminado na casa da patroa em um bairro nobre do Rio de Janeiro e morrido em hospital público de Miguel Pereira (RJ).

Racismo que coloca população em desvantagem

Médica atuante na atenção primária do SUS, Júlia Rocha destacou os efeitos concretos da injustiça racial no caos atual. "Temos visto essas pessoas morrerem feito passarinhos nos hospitais, como se a vida delas não valesse nada. Por historicamente terem acesso menos qualificado à saúde e à alimentação, elas chegam à pandemia em desvantagem. Além disso, são pessoas que precisam se expor ao transporte público e a trabalhos presenciais e; por fim, terão menos condições de encontrar vagas nas UTIs e pontos de oxigênio", explicou.

A chegada da covid-19 também evidencia a calamidade de outros indicadores sanitários, como a morte materna e acesso à contracepção, nos quais, novamente, as mulheres negras estão na ponta mais frágil, lembrou Marta Rodriguez de Assis, professora da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo. "As instituições e as políticas públicas têm reproduzido esse racismo que coloca a população negra em desvantagem em todos os campos. Falar em justiça racial significa reconhecer esse caráter racial e chamar para ação", afirmou.

O racismo estrutural aparece desde o desequilíbrio de condições básicas de sobrevivência até a dificuldade em alcançar espaços de poder, onde negros ainda estão bem pouco representados. "Obter aliados na luta política antirracista, isto é, que brancos encampem essa batalha, é essencial. Assim como admitir negros nos lugares em que as decisões sobre as vidas deles são tomadas", defendeu a advogada e pesquisadora Alessandra Devulsky.

Autora do livro "Colorismo" (Jandaíra), Alessandra ainda defendeu a necessidade de o debate sobre justiça racial incluir atenção à diversidade entre a própria população negra. "Evidentemente, as mulheres pele mais escura têm mais dificuldade de atingir equidade, embora não exista um forte privilégio em ser negra de pele clara. A partir do momento em que não se é branco, o peso do racismo estrutural aparece", pontuou.

Senso de pertencimento é desafio nas empresas

Homens e mulheres negras têm chegado, graças principalmente às políticas de cota, às cadeiras das universidades públicas. Como estudantes e também, pouco a pouco, em reitorias - como é o caso da professora Luanda de Moraes, que estará na programação desta quarta (28) de Mulheres Pós 2020. No entanto, o caminho dentro de corporações ainda é mais cheio de obstáculos. E raramente eles são vistos em cargos de liderança. Essa perspectiva foi trazida pela jornalista Luciana Barreto, mediadora do painel sobre justiça racial nas empresas, que questionou o mito de que ainda não haveria negros qualificados para o mundo corporativo.

O argumento em que muitas vezes se apoiam organizações que não avançam na diversidade, foi rebatido por Jandaraci Araújo, gerente de desenvolvimento sustentável do Santander Brasil. "Essa desculpa já não cabe mais, primeiro por termos uma nova geração já formada a partir das políticas de cotas raciais. E também não cabe por um aspecto econômico, pois já ficou claro que empresas diversas são mais inovadoras e os investidores estão pressionando por isso", apontou a executiva.

É fato que as organizações precisam se adaptar para atender o mercado. Contudo, para que a transformação seja efetiva, é preciso incluir mudanças mais profundas do que ampliar representatividade nos quadros de funcionários. "Não importa que o movimento aconteça por oportunismo financeiro, se ele for seguido por inclusão. É necessário entender que todos podem contribuir e, para isso, construir ambientes em que as pessoas tenham senso de pertencimento", afirmou a psicóloga Mafoane Odara, que também atua como consultora de Diversidade & Inclusão.

Empreender essas mudanças nas companhias parece ser o motor fundamental para que a justiça racial aconteça também nestes espaços. Mas a responsabilidade das corporações precisa ultrapassar suas paredes, alerta a advogada de direitos humanos Sheila de Oliveira. "O racismo é um problema social de todos, mas poucas empresas se posicionam e se responsabilizam quando o atentado a direitos ou situações que vão contra os valores que elas dizem ter acontece fora de seus corredores", disse, lembrando que esta percepção ganhou força nos Estados Unidos no ano passado, após a morte de George Floyd por violência policial.

Chega de discurso, hora de ações contundentes

Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magalu e fundadora do Movimento Mulheres do Brasil, encerrou a noite falando pela primeira vez falou sobre os resultados do primeiro programa de trainee exclusivo para negros, proposto pela empresa em setembro do ano passado.

A decisão do Magalu rendeu protestos, que argumentavam o "racismo reverso" e, como Luiza lembrou, ela mesma e a companhia precisaram explicar na Justiça a legitimidade e necessidade de uma ação como essa. "Qualquer mudança de paradigma vem com uma paulada em seguida, estou acostumada. E foi o que aconteceu, nos acusaram de praticar um racismo reverso, o que não existe!", disse. "Por outro lado, ao final do processo, apareceram mais de 20 mil jovens. Contratamos 20 deles, talentos que ou estavam desempregados ou em empregos em que ganhavam bem menos do que deveriam", contou ela, que vê considera que a decisão tenha valido a pena não só para ampliar a representatividade no Magalu, mas por reverberar em outras organizações.

A programação de Mulheres Pós2020 terá continuidade na noite desta quarta-feira, a partir de 19h, com destaque para os temas de educação e sustentabilidade. Com transmissão ao vivo no Youtube e nas redes sociais de Universa.

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