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'As chances que não tive eram, no fundo, preconceito', diz empresária negra

Autor: Caroline Marino Data da postagem: 10:00 05/10/2021 Visualizacões: 87
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Caroline Moreira, fundadora e CEO da startup Negras Plurais/Reprodução: Uol

Foi a vontade de ajudar a mudar o mundo que guiou Caroline Moreira, fundadora e CEO da startup Negras Plurais, ao empreendedorismo. "Sempre soube qual era o tom da minha pele, mas me descobrir negra foi diferente. Foi aí que entendi os 'não acessos' e os 'não privilégios'", disse a empreendedora, uma das participantes do Universa Talks 2021, evento que reuniu, na terça-feira (28), mulheres para conversar sobre empreendedorismo.

Segundo ela, que é do Sul do país, foi muito difícil perceber que as oportunidades estavam sendo negadas por conta da cor de sua pele.

"Havia uma confusão na minha cabeça, pois estava na faculdade, trabalhando e com condições de crescer, mas não conseguia chegar ao segundo passo. Não entendia que era o racismo que estava me negando isso. Hoje, vejo que as entrevistas em que não passei e as chances que não tive eram, no fundo, preconceito."

Foi aí que ela percebeu que tinha duas opções: ficar quieta e ser conivente ou fazer algo para mudar essa realidade. Ela escolheu a segunda e começou a criar o que hoje é o Negras Plurais, uma startup de aceleração de negócios para mulheres negras. "Foi por meio dessa construção de identidade de mulher negra que decidi encontrar novas saídas para me sentir pertencente."

Caroline esteve no painel EMPRESÁRIAS NEGRAS: A TRADIÇÃO QUE VIRA NEGÓCIO, ao lado de Gabriela Mendes Chaves, fundadora da NoFront Empoderamento Feminino, e de Michelle Fernandes, criadora da Boutique de Krioula. O bate-papo teve mediação de Xan Ravelli, colunista de Universa.

Pouco recurso e muita resiliência

Fica claro que, quando uma mulher negra empreende no Brasil, ela se depara também com questões de racismo, desigualdade e pouco acesso. Um levantamento feito pelo banco JP Morgan e pela aceleradora Preta Hub mostra que a população negra ainda tem dificuldades para abrir e manter a própria empresa. Segundo o estudo, cerca de 30% tiveram crédito negado sem explicação.

"Começar com pouco —dinheiro, informação e oportunidade— é uma realidade no empreendedorismo dentro da quebrada. Mas, apesar de difícil, isso me deu resiliência e força para começar", disse Michelle. Com um investimento de R$ 150, ela fez sua primeira coleção de turbantes, que divulgou nas redes sociais. E assim o negócio foi tomando forma.

"Nunca consegui crédito de um grande banco, mas usava os recursos que tinha para produzir os turbantes e colocar minha ideia de negócio em pé. Fui aperfeiçoando a empresa com os feedbacks das clientes."

A história de Gabriela é semelhante. Ela fundou a NoFront, que atua com educação financeira, usando como base letras do rap. "O desafio é grande. Temos mais dificuldade de conseguir crédito, e começar com pouco investimento é difícil, mas possível." Segundo ela, é preciso saber exatamente quais recursos são necessários para abrir a empresa, como espaço, logomarca e matérias-primas.

"Quando criei meu negócio, queria dar cursos, mas não tinha espaço nem dinheiro para pagar aluguel. Assim, busquei associações que pudessem ser parceiras", contou. Para ela, é muito importante saber pedir ajuda. Mas reforçou que, para evitar problemas, é essencial ter um planejamento de curto, médio e longo prazos. "Muitas vezes, ficamos focadas na urgência do hoje e esquecemos de pensar no amanhã, no que precisamos priorizar para chegar aonde queremos."

A história é antiga: o poder da ancestralidade

Em comum, todas sabem da importância do que foi construído antes delas por seus ancestrais. "Toda força que temos hoje não vem apenas de nós. São de pessoas que percorreram caminhos de resistência, de resiliência e de transformação e nos ajudaram a também construir uma jornada", disse Caroline.

Segundo ela, o que mães, avós e bisavós faziam era empreendedorismo, só não tinha esse nome. Por exemplo, a avó que era faxineira, era empreendedora, assim como a que fazia doces. "Elas nos mostraram que existia essa possibilidade", completou. E lembrou, ainda, que começou vendendo trufas com o ponto de brigadeiro que aprendeu com sua avó.

"Muitas vezes, as mulheres nem percebem o impacto do passado, mas quando começamos a questionar, isso volta e nos reconecta." É o tal do propósito: "Quando você começa a ouvir isso melhor, percebe quais caminhos deve seguir e desenvolve projetos a partir disso". 

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